Governo Bolsonaro: 100 dias sem projeto

Após 100 dias, podemos constatar que Bolsonaro se encontra em extrema dificuldade e é vítima do seu próprio discurso de campanha. Durante o período eleitoral, o presidente usou e abusou do populismo de extrema-direita, sobretudo em relação à política de segurança pública, à educação e à política externa

Governo Bolsonaro: 100 dias sem projeto
Governo Bolsonaro: 100 dias sem projeto (Foto: Alan Santos - PR)

Geralmente, os primeiros meses de um governo eleito são de águas tranquilas e poderes quase imperiais para o presidente. Existem aqueles que dizem que esse período é uma "lua de mel". Porém, pode-se dizer que no primeiro trimestre do governo de Jair Bolsonaro sobrou tudo, menos tranquilidade.

Após 100 dias, podemos constatar que Bolsonaro se encontra em extrema dificuldade e é vítima do seu próprio discurso de campanha. Durante o período eleitoral, o presidente usou e abusou do populismo de extrema-direita, sobretudo em relação à política de segurança pública, à educação e à política externa. Também foi enérgico em relação ao combate à corrupção e no discurso ultraliberal.

Logo no primeiro mês, tudo isso foi colocado em xeque com os escândalos envolvendo seu filho, Flávio Bolsonaro, e milicianos no Rio de Janeiro. Da mesma forma, seu discurso radical sobre a política de segurança pública começou a mostrar seus reflexos mais perversos. Bolsonaro obteve a liberação da posse de armas, mas isso aconteceu em meio à tragédia de Suzano, o que aumentou as dúvidas da população em torno da discussão.

É importante lembrar que, apesar de Bolsonaro ter sido eleito, as pesquisas apontam que a maior parte da população não acredita que as armas são uma solução para a violência. O caso dos 80 tiros contra uma família no Rio de Janeiro é o exemplo perfeito dessa brutalização da nossa política de segurança: um fuzilamento contra inocentes em plena luz do dia. Contudo, esse governo acredita cegamente que a escalada da violência será a solução para os nossos problemas sociais. Um erro. O resultado disso será apenas o aumento do número de mortos, principalmente para o povo negro das favelas e periferias do nosso país, uma vez que o racismo é a lente através da qual as armas são apontadas e disparadas.

Nesse cenário, podemos dizer que a educação também está paralisada. A pasta, inclusive, já tem até mesmo um novo ministro. Abraham Weintraub tem passagem longa pela administração privada e uma especialização na área previdenciária. Apesar de ter sido professor universitário, não tem experiência em questões educacionais. Mais uma vez o governo erra ao conduzir a educação do nosso país.

Além de tudo isso, existe uma necessidade em atender uma parcela do seu eleitorado que acredita que se deve realizar uma cruzada contra o "marxismo cultural", ou uma suposta "doutrinação comunista", que teria contaminado ideologicamente o sistema educacional do país. Esse delírio injustificado faz com que o governo atue em uma verdadeira batalha interna contra o Estado, impedindo qualquer organização ou avanço que possa resultar em investimentos estruturais para as escolas e universidades e na valorização dos profissionais da educação.

Essa cruzada conservadora do governo também vem afetando de maneira negativa as relações internacionais do nosso país. A viagem para o Oriente Médio foi sintomática nesse sentido, pois o Brasil sempre teve boa relação com Israel e Palestina, realizando uma diplomacia mais pragmática e respeitando a autodeterminação dos povos, uma das diretrizes centrais da nossa política externa.

A ideia de seguir os passos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e transferir a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém é outro equívoco que pode nos custar caro. Bolsonaro ao anunciar, por exemplo, que iria abrir um escritório de negócios em Israel, conseguiu frustrar israelenses e árabes. A transferência definitiva da embaixada não aconteceu, o que aborreceu Israel, mas já foi o suficiente para aumentar a animosidade com os árabes. O resultado de tudo isso é que existe a chance concreta de prejuízo às nossas exportações de carne de boi e frango para países árabes. A cadeia produtiva desses setores em Santa Catarina pode sofrer, caso o Brasil perca parte desse mercado externo que construiu durante décadas.

A motivação dessa política internacional é a mesma que causa a paralisia no MEC: a necessidade do governo de tentar "romper as amarras ideológicas" do Itamaraty, uma falsa polêmica, uma vez que outros governos sempre buscaram construir relações multilaterais e que garantissem, acima de tudo, a nossa soberania nacional.

Mas os problemas não param por aí. Bolsonaro conseguiu se contradizer sobre o seu discurso liberal e decepcionou o principal financiador de sua campanha, o mercado, ao intervir na Petrobrás para impedir o aumento do diesel. Isso colocou um grande ponto de interrogação sobre o grau de intervenção que o governo terá sobre a economia, o que assustou o sistema financeiro e fez a petroleira se desvalorizar em 32 bilhões de reais.

O mercado também acompanha de forma ansiosa a (falta de) articulação para a aprovação da reforma da previdência. Uma reforma que, se aprovada, irá precarizar ainda mais os direitos e a qualidade de vida do trabalhador brasileiro e garantir a manutenção dos privilégios de grande parte das elites do país. Mas, nesse quesito, Bolsonaro também errou ao atacar a classe política e a forma de articulação no Congresso. Incitou ainda mais o ódio contra o sistema político, sendo ele próprio um produto legítimo desse mesmo lugar. Agora, ele necessita do apoio de toda a classe e teme o desgaste com a opinião pública em aceitar fazer o jogo do que chama de "a velha política".

Ao final desse período, resta a certeza de que este governo ainda escreverá muitas páginas de insensatez e equívocos. Enquanto as notícias se espalham a ponto de termos dificuldade de saber para onde vamos, quem paga é o povo com políticas e serviços públicos sucateados, desemprego, fome e total falta de assistência social. Os "sem projeto" assumiram o poder e tudo indica que, através das mãos de cada um deles, nos tornaremos um país "sem futuro".

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