Governo sabota isolamento com asfixia financeira

"Como se vê, muito do que passa pelo Congresso e é anunciado como dinheiro para combate o coronavírus é conversa para boi dormir. O gasto é autorizado mas o governo controla a torneira. E com isso ajuda o vírus a se espalhar", escreve a jornalista Tereza Cruvinel

www.brasil247.com -
(Foto: PR | Reuters)


Para conseguir o perigoso afrouxamento do isolamento social, que está tendo como resultado o galope da pandemia, anunciando para o Brasil um morticínio, Jair Bolsonaro e seu governo têm se valido do estrangulamento financeiro das pessoas pobres, do SUS e dos estados e municípios. O Congresso aprovou a liberação de mais de R$ 200 bilhões para o enfrentamento da pandemia mas os recursos chegam aos pingos aos destinatários. Se o mesmo acontecer com o socorro de R$ 120 bilhões a estados e municípios, acertados hoje entre o ministro Guedes e presidente do Senado, David Alcolumbre, as coisas vão piorar muito.

Retardando o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, forçando as pessoas a se exporem ao contágio em filas na porta da Receita e da CEF, o governo forçou milhares delas a buscar algum ganho nas ruas, no comércio ambulante, nos bicos. Não repassando o que já foi prometido a estados e municípios, forçou muitos deles a afrouxar as regras do isolamento, autorizando o funcionamento de algumas atividades, em resposta à pressão das pessoas e das empresas e em busca de alguma receita.

Técnicos da Comissão Mista de Orçamento do Congresso analisaram as medidas provisórias – que já vigoram com força de lei mesmo não estando aprovadas – e concluíram que o grau de execução financeira destes gastos já autorizados, pelo governo, é ínfimo, confirmando a estratégia de derrotar o isolamento pela asfixia financeira das pessoas e dos entes federativos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Dos R$ 222,7 bilhões já autorizados por 15 MPs para o enfrentamento da pandemia, apenas R$ 54,5 bilhões foram efetivamente liberados (24%).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Com o pagamento do auxílio emergencial, o governo já gastou R$ 31,3 bilhões mas isso representa apenas 31% do total disponível. Há dinheiro, portanto, para atender às pessoas que se desesperam para receber o auxílio, buscando informações diretamente em agências da Caixa porque nada conseguem através do aplicativo. Treze milhões de pessoas tiveram os pedidos recusados e terão que fazer novo cadastramento. A fome não espera, e com isso estas pessoas que vivem do que ganham a cada dia deixaram de se proteger e estão tentando ganhar algum dinheiro, mesmo correndo o risco da contaminação.

Dos recursos adicionais para o Ministério da Saúde apenas R$5,2 bilhões foram liberados, e isso significa apenas 27% do total autorizado.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Apenas 1% dos recursos já autorizados para socorrer estados e municípios (anteriormente ao pacote que o Congresso vai cotar para compensar a perda de receitas) foi liberado, representando R$ 1 bilhão.

Já para do dinheiro destinado aos bancos privados para socorrer empresas, financiando a folha de pagamento, foram liberados R$ 17 bilhões, e isso significa 50% do total. A maior liberação efetiva foi, então, para os bancos.

Como se vê, muito do que passa pelo Congresso e é anunciado como dinheiro para combate o coronavírus é conversa para boi dormir. O gasto é autorizado mas o governo controla a torneira. E com isso ajuda o vírus a se espalhar, desmobilizando o isolamento, como se não bastasse o ativismo de Jair Bolsonaro neste sentido, alegando preocupação com a economia e os empregos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O pacote negociado por Alcolumbre é necessário. Além do colapso do sistema de saúde, alguns estados começaram a enfrentar o colapso financeiro, não tendo dinheiro sequer para honrar a próxima folha de pagamento do funcionalismo. Serão R$ 120 bilhões, dos quais R$ 60 bilhões serão repassados diretamente a governadores e prefeitos em quatro parcelas. Deste total, R$ 10 bilhões irão diretamente para ações de combate à pandemia (R$ 7 bilhões para estados e DF, e R$ 3 bilhões para os municípios). Os outros R$ 60 bilhões viriam sob a forma de suspensão dos pagamentos de dívidas para com a União.

Mas se a liberação da parte líquida para estados e municípios seguir o mesmo ritmo de liberação das outras iniciativas já autorizadas por MP,  a situação vai se agravar muito, principalmente nas capitais, onde há mais gente morrendo, onde os hospitais estão lotados e o próprio sistema carcerário entrou em colapso. E o governo ainda teve a capacidade de negar um avião da FAB para levar caixões a Manaus, uma cidade aonde só se chega por água ou pelo ar.

O Brasil é mesmo, como disse o ex-presidente colombiano Ernesto Samper, um barco à deriva. E o que é pior, sabemos que em breve vamos bater no rochedo, na tragédia anunciado de um grande morticínio, seguido de muita miséria e de tudo o que o desespero pode trazer, como o caos social.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email