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Mário Maurici

Jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha, ex-vice-presidente da EBC e ex-presidente da Ceagesp. Atualmente, deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

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Governo Tarcísio vai se enrolando no escândalo do Banco Master

Ainda é difícil mensurar o alcance das negociatas envolvendo o Banco Master

Tarcísio de Freitas (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Ainda é difícil mensurar o alcance das negociatas envolvendo o Banco Master. A cada nova revelação, contudo, os contornos do caso deixam de ser difusos e passam a apontar com mais nitidez para conexões preocupantes com o governo de Tarcísio de Freitas. O que causa ainda mais estranheza é o silêncio do governador diante de um cenário que exigiria transparência, explicações públicas e disposição para o esclarecimento imediato dos fatos. Em vez disso, o que se vê é uma ausência incômoda de respostas enquanto as peças desse quebra-cabeça vão se encaixando.

O maior doador da campanha de Tarcísio ao Governo de São Paulo foi Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Zettel contribuiu com R$ 2 milhões do próprio bolso. Em política, especialmente quando se trata de grandes cifras, é difícil sustentar a ideia de que aportes dessa magnitude não carreguem expectativas ou interesses associados. A máxima de que “não existe almoço grátis” parece, aqui, especialmente pertinente.

Eleito, Tarcísio fez da Emae a sua primeira grande privatização. O leilão da Empresa Metropolitana de Águas e Energia foi vencido pelo Fundo Phoenix, controlado por Nelson Tanure. A antiga estatal é responsável, entre outras coisas, por quatro usinas de energia do Estado, entre elas a Henry Borden, considerada a jóia da coroa e há décadas subutilizada, produzindo um volume de energia muito abaixo de sua capacidade. 

O problema é que Tanure não aparece como um agente isolado nessa história. Segundo investigações da Polícia Federal, ele seria um “sócio oculto” do Banco Master, “exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas”. A conexão ganha contornos ainda mais sensíveis quando se observa o destino de parte dos recursos da própria Emae após a privatização: a empresa aplicou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, instituição que pertencia ao Master e foi liquidada pelo Banco Central. 

Esta é uma cadeia de eventos que, quando analisada em conjunto, merecerá investigação aprofundada. Mas vamos adiante. 

Outro ponto crítico é a forma como o Fundo Phoenix se capitalizou para viabilizar a compra da Emae. Um relatório técnico da CVM, a Comissão de Valores Mobiliários, concluiu que “houve uma sequência de operações e aportes que demonstraram clara convergência de interesses e estratégias entre esses agentes, com resultados que impactaram significativamente a estrutura acionária e a cotação da Ambipar no mercado”. 

Em março de 2024, o Fundo Phoenix recebeu aporte de R$ 400 milhões e, um mês depois, venceu o leilão de privatização da Emae. Em maio de 2024, o fundo ganhou um novo investimento, desta vez, de R$ 1,25 bilhão, na mesma época em que houve um programa de recompra de ações da Ambipar. Em paralelo, o fundador da Ambipar e os fundos geridos pela Trustee, entre eles o Phoenix, compraram de “forma agressiva” as ações da empresa, cujos papéis saltaram de R$ 13 para R$ 97,35 em menos de 30 dias. 

É nesse contexto que aparece outro personagem importante desta trama: Carlos Piani, então presidente do Conselho da Ambipar. Meses depois, o governo Tarcísio fez a maior privatização de sua gestão ao vender a Sabesp. E sabe quem aparece como um dos personagens-chave dessa negociação? Novamente Piani, agora presidente do Conselho da Equatorial Energia, que venceu a disputa pela estatal. Mais tarde, Piani tornou-se CEO da Sabesp privatizada. 

Com esse conjunto de fatos, é inevitável questionar se estamos apenas diante de uma sucessão de coincidências ou de algo mais estruturado. A proximidade entre financiadores de campanha, instituições financeiras, fundos de investimento e vencedores de grandes privatizações públicas sugere, no mínimo, a necessidade de uma apuração rigorosa e independente.

Em democracias maduras, situações como essa demandam respostas rápidas, investigações transparentes e prestação de contas à sociedade. O silêncio não é apenas desconfortável. Ele pode ser interpretado como conivência ou, no mínimo, descaso com o interesse público.

Se há algo que a história recente brasileira ensina é que grandes escândalos raramente se revelam por completo de uma só vez. Eles começam com fios aparentemente soltos que, quando puxados, expõem tramas complexas e profundas. O caso envolvendo o Banco Master e suas conexões com figuras próximas ao atual governo paulista parece ser um desses fios. E tudo indica que ainda há muito por vir.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.