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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Groenlândia: a fronteira que revela o colapso da ordem internacional

Tentativa de anexação da Groenlândia expõe a erosão das regras do pós-guerra e revela como a força volta a se impor sobre o direito nas relações internacionais

Um iceberg flutua no gelo perto de Nuuk, Groenlândia, 9 de fevereiro de 2025 (Foto: REUTERS/Sarah Meyssonnier)

A insistência do presidente Donald Trump em controlar a Groenlândia deixou de ser excentricidade retórica para se converter em sinal inequívoco de uma mudança de época. O que está em jogo já não é apenas a relação bilateral entre Estados Unidos e Dinamarca, tampouco um desentendimento diplomático dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Trata-se de algo mais profundo e perturbador: o retorno explícito da lógica de anexação territorial como instrumento legítimo da política internacional.

A OTAN é hoje composta por 32 países da Europa e da América do Norte — incluindo Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Polônia, os países bálticos, a maioria dos países da Europa Central e Oriental, além de membros mais recentes como Finlândia e Suécia. Criada em 1949, em pleno contexto da Guerra Fria, a OTAN tem como objetivo formal garantir a defesa coletiva de seus membros, consagrada no Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, segundo o qual um ataque contra um país aliado é considerado um ataque contra todos. Ao longo das décadas, porém, a aliança deixou de ser apenas um pacto defensivo regional e passou a atuar como instrumento central da projeção militar e estratégica dos Estados Unidos, expandindo-se para o Leste europeu, intervindo fora de sua área original e assumindo funções que extrapolam a defesa territorial, como gestão de crises, dissuasão estratégica e contenção de potências rivais. É justamente essa contradição — entre o discurso de defesa coletiva e a prática assimétrica de poder — que torna a crise atual em torno da Groenlândia tão explosiva para o futuro da própria aliança.

Ao reafirmar que “precisa da Groenlândia por razões de segurança nacional” — mesmo diante da rejeição clara do governo local e do repúdio de líderes europeus — Trump rompe com um dos poucos consensos remanescentes do pós-Segunda Guerra Mundial: o princípio de que fronteiras não são negociáveis pela força. Quando a ameaça militar passa a ser admitida publicamente contra um território associado a um aliado formal, o sistema internacional entra em zona de anomia.

Da fantasia à política de Estado

A Groenlândia — território autônomo sob soberania dinamarquesa, com pouco mais de 56 mil habitantes — sempre despertou interesse estratégico de Washington. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos instalaram bases para impedir o avanço nazista; durante a Guerra Fria, consolidaram presença militar permanente, hoje materializada na base de Pituffik, peça central do sistema de alerta antimísseis.

O que mudou agora não é o interesse, mas a forma. Ao flertar abertamente com a compra, a coerção econômica (tarifas contra a Dinamarca) e, por fim, a ameaça militar, Trump normaliza práticas que deveriam ter sido enterradas em 1945. Não se trata de um deslize verbal: a Casa Branca confirmou que a “aquisição da Groenlândia” é tema ativo nas discussões de segurança nacional, com o secretário de Estado Marco Rubio envolvido nas negociações.

Pré-Westfália em pleno século XXI

O caso da Groenlândia explicita o retorno de uma lógica pré-Westfália, na qual território é tratado como ativo estratégico passível de transação ou conquista. Compra-se, pressiona-se, ameaça-se. A soberania deixa de ser um princípio jurídico e volta a ser uma variável de poder.

A resposta do primeiro-ministro groenlandês Jens-Frederik Nielsen foi direta e simbólica: “Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação”. Ainda mais contundente foi a advertência da premiê dinamarquesa Mette Frederiksen: um ataque dos EUA a um aliado significaria o fim da OTAN e da arquitetura de segurança do pós-guerra.

Quando um Estado líder do sistema admite publicamente que pode violar a soberania de um parceiro, o precedente é devastador. O que impede, então, que outros façam o mesmo?

OTAN: aliança defensiva ou ficção conveniente?

A crise aberta pela Groenlândia escancara a fragilidade política da OTAN. Formalmente intacta, a aliança está politicamente corroída. Se o principal membro não se sente constrangido por seus próprios compromissos, a cláusula de defesa coletiva torna-se letra morta.

O apoio declarado de líderes como Emmanuel Macron, Keir Starmer e Friedrich Merz à soberania dinamarquesa revela indignação, mas também certo grau de impotência.

Emmanuel Macron é o presidente da França, potência nuclear e um dos principais pilares políticos da União Europeia; Keir Starmer é o primeiro-ministro do Reino Unido, aliado histórico dos Estados Unidos e ator central da arquitetura de segurança atlântica; e Friedrich Merz é o chanceler da Alemanha, a maior economia da Europa e peça-chave do equilíbrio político e econômico do continente. O apoio conjunto desses três líderes à soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia sinaliza que a reação europeia não partiu de países periféricos, mas do núcleo duro da Europa Ocidental, o que torna ainda mais grave o fato de que, apesar desse alinhamento político, a capacidade efetiva de conter a pressão estratégica dos Estados Unidos permanece limitada.

Ártico: clima, minerais e a nova corrida imperial

A Groenlândia tornou-se peça central porque o Ártico mudou. O degelo acelerado, resultado em grande parte das mudanças climáticas, abre rotas marítimas mais curtas entre Atlântico e Pacífico, reduzindo custos logísticos e redesenhando o comércio global. Ao mesmo tempo, pesquisas geológicas confirmam a existência de vastas reservas de minerais críticos — terras raras, grafite, nióbio, platina — essenciais para a transição energética e para a indústria militar.

Por isso, a Groenlândia tornou-se peça-chave da militarização e da disputa estratégica do Ártico, envolvendo Estados Unidos, Europa, Rússia e China, e passou a ocupar um lugar central nas tensões internacionais contemporâneas.

Aqui está o paradoxo brutal do nosso tempo: a crise climática, causada pelo próprio modelo de desenvolvimento dominante, cria oportunidades de exploração e militarização. O Ártico deixa de ser fronteira natural e vira fronteira geopolítica. Quem controla o gelo controla as rotas; quem controla os minerais controla cadeias estratégicas.

Trump é o sintoma, não a exceção

É confortável atribuir tudo à personalidade de Trump. Ele é, na verdade, o sintoma mais cru de uma ordem internacional em decomposição, na qual regras foram substituídas por correlações de força e o multilateralismo cede lugar ao unilateralismo coercitivo. O que antes se fazia nos bastidores agora é dito em voz alta.

A ambição americana sobre a Groenlândia abala a confiança transatlântica. Entramos num período em que territórios voltam a ser negociáveis, desde que o poder permita.

Quando o gelo derrete, as regras também

A Groenlândia é mais do que um território coberto de gelo. Ela é o espelho de um mundo à deriva, no qual princípios fundadores da ordem internacional são descartados sem pudor. Se uma potência pode cogitar anexar parte de um aliado, nenhuma soberania está realmente segura.

O degelo do Ártico expõe recursos, rotas e ambições. Mas expõe, sobretudo, o vazio normativo do sistema internacional em 2026. Não estamos diante de uma disputa periférica. Estamos diante de um marco histórico: o momento em que ficou claro que a força voltou a preceder o direito.

E, quando isso acontece, não é apenas o gelo que derrete. É a própria ideia de ordem internacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.