Guedes, o BTG e as coincidências ...

"Se, de um lado, Guedes fracassa em seu intento de recuperar a economia do País, em frangalhos; de outro, assiste ao êxito retumbante do banco por ele fundado em negócios com o governo federal", escreve Ricardo Bruno

O ministro da Economia, Paulo Guedes
O ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)
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Desautorizado publicamente por Jair Bolsonaro em vários momentos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, permanece agarrado ao cargo tal qual um carrapato-estrela, aquele bichinho venenoso que infesta boa parte do cerrado brasileiro. Nada arrefece o ímpeto de permanecer no ministério, mesmo sem poder executar plenamente o projeto neoliberal de que se diz discípulo. Supostamente, a razão central de sua presença em Brasília.

Há muito, o ministro abandonou o compromisso de conduzir a recuperação econômica do país para tão somente continuar no posto, em vassalagem explícita ao presidente. Em menos de dois anos, perdeu a credibilidade que o fazia respeitado até mesmo pelos adversários da ortodoxia neoliberal.

Imobilizado pelo caótico e sempre conflituoso Bolsonaro, Guedes pouco conseguiu avançar - na maioria casos, para o bem da Nação. O fracasso, contudo, não lhe tira o elã de continuar na cadeira. O ministério parece que se tornou fim e não meio para proceder as mudanças exigidas para a retomada do crescimento.

Ao lado deste recalcitrante desejo de permanecer na máquina, assiste-se a um coincidente e irrefreável avanço do BTG Pactual – o banco fundado por ele, Guedes – sobre ativos do governo federal.

Primeiro, uma carteira de crédito imobiliário do Banco do Brasil, de R$ 2,9 bilhões, foi arrematada pelo BTG pela bagatela de R$ 371 milhões, um pouco mais de 10% do valor original. Um negócio da China, considerando a possibilidade de recuperação de 70% dos créditos, de acordo com analistas de mercado. Se a avaliação se concretizar, o BTG vai receber R$ 2,03 bilhões ao final, ou R$ 1,659 bilhão a mais do que pagou pela carteira. Um bilhete premiado.

Recentemente, outro movimento chama atenção sobre o êxito do BTG em suas investidas sobre ativos do povo brasileiro. O caso é um pouco mais sofisticado, pois há uma triangulação empresarial a dissimular o jogo, um biombo atrás do qual se movimenta a instituição financeira em busca de lucros sem risco, numa curiosa inversão da lógica capitalista .

Em 2015, BTG Pactual tornou-se oficialmente o maior acionista da Eneva (antiga MPX), empresa de energia criada por Eike Batista, com 49,57 das ações. Recentemente, em dezembro de 2020, a Eneva arrematou 17 blocos exploratórios, em seis bacias de petróleo (Campos, Paraná, Amazonas, Espírito Santo e Potiguar). A empresa foi a mais vistosa vencedora do certame da ANP.

Semana passada, a Eneva venceu outra disputa importante na Petrobras, chamando atenção do mercado por sua voracidade: levou o Polo Urucu, na Bacia do Solimões, no Amazonas, superando a 3R Petroleum, que liderava a concorrência. A Petrobras já comunicou a Eneva sobre o resultado, com o convite para início das negociações diretas para o contrato de venda dos campos.

Assim, de modo surpreendente, a Eneva – leia-se BTG – avança sobre o patrimônio nacional, agora em agressiva investida na Petrobras, coincidentemente comandada por Roberto Castelo Branco, indicado para o cargo pelo amigo Paulo Guedes. Estranhas coincidências que só fazem alimentar suspeições.

Se, de um lado, Guedes fracassa em seu intento de recuperar a economia do País, em frangalhos; de outro, assiste ao êxito retumbante do banco por ele fundado em negócios com o governo federal.

O ministro deve viver um mistura de sentimentos contraditórios e conflitantes: impotência e frustração em decorrência do malogro rotundo do projeto econômico nacional; e alegria e orgulho pela trajetória fulgurante do banco que leva no nome o G de Guedes.

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