Guerra de facções na direita abre espaço para volta de Lula

"Lula é o jogador que a direita esperava ter tirado da partida com faltas violentas e o apoio vergonhoso de um juiz parcial. Pode voltar ao campo aproveitando as brigas no time adversário. E comandar a virada mesmo sem fazer gols", avalia o jornalista Rodrigo Vianna, apresentador da TV 247

(Foto: ABr | Reuters)
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Por Rodrigo Vianna

Lula colhe, de forma lenta mas constante, os resultados pela coragem com que enfrentou a perseguição lavajatista desde 2015.

Lula poderia ter-se refugiado numa embaixada; preferiu encarar o processo injusto e a prisão.

Lula poderia ter renunciado à liderança do PT; lançou-se candidato desde a cadeia, e levou Haddad ao segundo turno.

Lula poderia ter estendido a bandeira branca ao ser libertado, abrindo mão de voos políticos, como exigia a direita; mas firmou-se no lugar de sempre.

Não cedeu, não fugiu, não medrou. 

Além da coragem e da perspicácia pessoais (esta última mais uma vez demonstrada ao negar-se a embarcar na cilada dos manifstos frenteamplistas), Lula contou com outros fatores: a militância que o defendeu; o tempo que lhe deu razão diante dos abusos lavajatistas; o trabalho jornalístico independente, que lançou luz sobre as mutretas judiciárias de Moro e seus garotos paranaenses; e, finalmente, Lula pode contar com as contradições que se aprofundam "do lado de lá".

O mais novo capítulo dessas contradições é o vazamento de informações a mostrar que a primeira-dama bolsonarista recebeu quase 100 mil reais em cheques depositados pelo laranja Queiroz. O vazamento faz colar em Michele, mulher de Bolsonaro, o apelido de "Micheque".

O vazamento (avaliam alguns) seria um contra-ataque de Moro, diante dos avanços do bolsonarismo contra a Lava-Jato. As duas facções - bolsonarismo/miitares/evangélicos/record x lavajatismo/empresários/Globo - devoram-se numa luta sem quartel.

Para reagir ao desmonte que se aproxima, a Lava-Jato ataca também o que sobrou da centro-direita tradicional (Alckmin, Serra e os escombros do PSDB). Ao fazer isso, ativa contra si setores no Judiciário e na mídia, aliados à centro-direita e temerosos diante do avanço autoritário da Lava-Jato.

Moro torna-se assim mais fraco: confrontado pela esquerda desde sempre, demonizado pelo gabinete de ódio bolsonarista desde abril, é agora considerado suspeito até nas páginas dos jornais que o apoiaram na louca cavalgada de ilegalidades.

A Folha acaba de publicar editorial (link) condenando as ações políticas de Moro como juiz, e atestando o abalo de credibilidade que lhe tira sustentação. 

Dias antes, fora Merval Pereira (espécie de voz informal dos donos da Globo) quem apresentara o vaticínio: Moro será julgado suspeito no STF, abrindo espaço para que se cancelem os processos contra Lula, o que traria o líder petista de volta ao campo (link para Merval).

Lula, pela primeira vez, tem chances reais de virar o jogo no terreno institucional. Resta saber se, após lutar tanto para recuperar seus direitros políticos, não terá colhido uma vitória de pirro.

Explico: voltando mesmo à partida, não carregará para sempre o peso de anos de bombardeio midiático? Ainda assim, parece assustar...

O artigo de Merval pode ser visto como um aviso para o bolsonarismo: o craque adversário está na beira do campo aquecendo, será que deveríamos seguir nessa batalha dentro da direita?A Globo teme morrer esmagada num embate futuro entre lulismo e bolsonarismo...

Se Bolsonaro segue de pé, apesar de 100 mil mortos, Moro começa a ruir - e isso até Merval e a Folha já admitem. 

Resta saber: qual papel terá Lula, se de fato vencer a batalha gigante no STF?

Parece-me que será o papel daquele craque veterano que, mesmo sem correr o campo todo, sabe segurar a bola para colocar os atacantes mais jovens na cara do gol.

Lula é o jogador que a direita esperava ter tirado da partida com faltas violentas e o apoio vergonhoso de um juiz parcial. Pode voltar ao campo aproveitando as brigas no time adversário. E comandar a virada mesmo sem fazer gols.

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