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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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"Guerra do fim do mundo", Trump e a estética do caos

O ultimato no Pentágono e a sombra de Shakespeare

Donald Trump (Foto: Molly Riley/White House)

A diplomacia global atravessa o seu momento mais dramático desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e o palco não poderia ser mais simbólico: as salas de reuniões do Pentágono. Relatos recentes revelam que o governo de Donald Trump teria ameaçado o Papa Leão XIV durante uma reunião de altíssima tensão com o enviado do Vaticano, o cardeal Christophe Pierre.

A mensagem foi direta e brutal: "Os Estados Unidos têm o poder militar para fazer o que quiserem no mundo. É melhor a Igreja Católica estar do nosso lado".

O episódio é a síntese perfeita do que William Shakespeare imortalizou em Hamlet: "Ainda que seja loucura, há nela um método". O que o mundo testemunha na chamada "Guerra do Fim do Mundo" — o conflito direto entre Washington, Tel Aviv e Teerã que ameaça incendiar o Oriente Médio neste abril de 2026 — não é apenas um surto de impulsividade.

É a aplicação definitiva da "Teoria do Louco" (Madman Theory) como ferramenta de coerção absoluta, voltada agora não apenas contra adversários geopolíticos, mas contra a própria autoridade moral da Santa Sé.

O estelionato da trégua: sangue no Líbano

O limite entre a estratégia de choque e a barbárie gratuita foi rompido de forma trágica nesta semana. Após aceitar publicamente uma trégua de duas semanas — um acordo que trouxe um breve respiro ao mercado de energia e às populações civis — o governo Trump recuou em menos de 24 horas.

O "sinal verde" implícito de Washington resultou em um bombardeio devastador de Israel contra o Líbano, vitimando cerca de 300 pessoas em um único dia.

Esse recuo vergonhoso levanta uma questão central para a estabilidade global: existe realmente um "método" ou estamos diante de uma presidência que sabota a própria palavra em nome do caos perpétuo?

Para as famílias das vítimas em Beirute e no sul do Líbano, a imprevisibilidade americana não é uma tática de negociação brilhante; é uma sentença de morte executada sob o manto do estelionato diplomático.

O diagnóstico de Jeffrey Sachs: o abismo econômico

O renomado economista Jeffrey Sachs tem sido uma das vozes mais contundentes ao desconstruir a aura de "estrategista" que alguns tentam atribuir a Trump. Para Sachs, não há método benéfico no que está ocorrendo, apenas "insanidade econômica e geopolítica".

Ele alerta que jogar com o "fim do mundo" em uma região que controla 20% do fluxo de petróleo mundial é um convite ao colapso do sistema financeiro ocidental.

Sachs, em sintonia com especialistas em saúde mental como a Dra. Bandy X. Lee, sugere que o sistema internacional está cometendo o erro de "sanewashing" — tentando encontrar lógica em comportamentos que seriam clinicamente descritos como narcisismo maligno.

Para esses analistas, a ameaça ao Papa e a traição da trégua libanesa são sintomas de uma mente que não processa consequências históricas, focando apenas na gratificação imediata de projetar poder bruto.

Trump pode sofrer impeachment?

Diante da quebra de acordos e das ameaças a Estados soberanos, a pergunta ecoa nos corredores do Capitólio: há espaço para o impeachment? Juridicamente, o cenário é complexo. A Constituição dos EUA exige "crimes e contravenções graves", e a política externa costuma ser protegida pela discricionariedade presidencial.

No entanto, o uso do aparato militar para coagir líderes religiosos e o incentivo a massacres após a promessa de cessar-fogo abrem flancos para acusações de abuso de autoridade e violação de leis internacionais incorporadas ao direito doméstico. O entrave, como sempre, é o cálculo político de um Congresso polarizado.

Para muitos em Washington, apenas um choque econômico derivado da guerra teria o poder de transformar a "loucura" em um passaporte para a destituição.

O Itamaraty e o grito pela racionalidade

Nesse cenário de "métodos" sanguinários, a posição do governo brasileiro surge como um raro porto de sanidade. Em nota oficial, o Itamaraty saudou o cessar-fogo, mas cobrou sua ampliação imediata para o Líbano e o fim das declarações incendiárias.

Para o Brasil, a estabilidade do Estreito de Ormuz não é apenas uma preocupação geopolítica, mas uma questão de segurança alimentar e social.

A diplomacia nacional, fiel à sua tradição, defende que o único método viável para a sobrevivência da civilização é o diálogo soberano e o respeito à integridade dos povos, contrastando frontalmente com a política de traições vinda da Casa Branca.

O palco de sangue em 2026

Na tragédia de Shakespeare, a loucura de Hamlet termina com o palco repleto de corpos e o reino de Elsinore em ruínas. Em 2026, o risco é de que a história se repita em escala global.

O impacto desta era será medido pela nossa capacidade de distinguir entre a estratégia de um estadista e os delírios de quem usa a guerra como espetáculo.

O desfecho da "Guerra do Fim do Mundo" definirá se o sistema internacional sobreviverá a este modelo de governança pelo choque ou se seremos todos figurantes em uma peça que não conhece o momento de baixar as cortinas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.