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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

298 artigos

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Guerra, indiferença e barbárie

Para condená-los precisaremos mais do que vitórias no campo de batalha. Precisaremos de um Tribunal de Nuremberg

Esombros de uma delegacia de polícia em Teerã, após ataque de Israel e dos EUA 02/30/2026 Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS (Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS)

Uma comunidade, uma vizinhança, um país está quieto em seu canto, cuidando dos seus problemas (que já não são poucos) e, de repente, jogam-lhe uma bomba em cima. Não destroem tudo (nunca destroem tudo) mas lhe contaminam o ar, envenenam as relações (pessoais e internacionais) despertam raiva, indignação e revolta. Em nossa história, depois de 1945, havíamos estabelecido regras para que isso não mais acontecesse. Fundara-se a ONU imaginando que, numa assembleia de nações colhêssemos consenso do dissenso, garantindo moral e costumes pelo menos aceitáveis. No entanto, bombardearam o Irã no meio de negociações de paz. Israel não se conformava com a linha dos entendimentos. Queria concessões de Teerã, quanto mais, melhor. De preferência, extingui-la do mapa. Convenceu os Estados Unidos de que, juntos, fariam um bem à humanidade, golpeando de morte os iranianos. E a confusão começou.

Na Casa Branca, Donald Trump, o que se elegera como arauto da paz, devaneou com a ideia de ser maior do que era – e mobilizou seu Ministério da Guerra. Eles produzem armas e querem usá-las, mostrar ao mundo que se revelam superiores, imbatíveis. Com um grupo de assessores, calculou que se tratava de uma ação rápida, semelhante à da Venezuela, o bastante para eliminar o Aiatolá Ali Khamenei, chefe religioso, visto como maligno e prestigiado pelo povo. Imaginavam que, assassinando-o, criariam o caos, o fermento necessário para uma mudança de regime. Equivocaram-se, é claro, o velho mandatário não estava sozinho. Com 86 anos e doente, preparara o futuro para os seus descendentes e os dispositivos da administração pública. Por isso, sob bombardeios ou não, aquela gente não se rendeu. Por outro lado, o mundo não pôde assistir indiferente aos desmandos desencadeados na citada região do Planeta. As ofensas provocaram reações. Drones e mísseis agora atingem Israel e as bases americanas, democratizando os morticínios.

Ainda não se prevê como se alcançará, com os traumas, de parte a parte, o final das contendas. 

“O homem, meu general, é muito útil. / Sabe voar e sabe matar. / Mas tem um defeito – sabe pensar.” A advertência de Bertold Brecht, em seu poema, parece escrita ontem, tão aguda soa aos ouvidos. Se os dirigentes de Washington e de Tel Aviv houvessem acumulado um pouco mais de cultura, talvez conseguissem tirar proveito de nossas artes literárias. Em vez disso, criam frustrações difíceis de retirar da memória. E sabemos o que se passa com elas, as grandes frustrações históricas. Fantasmas das vítimas, décadas e até séculos depois, ainda obcecam os vivos.  Crianças atingidas numa escola feminina iraniana representam cenas dantescas que latejarão na mente dos nossos contemporâneos como uma infração irreparável. Já não se cita a Convenção de Genebra, em suas tentativas de minimamente organizar a crueldade dos homens quando realmente chegam ao limite. Trump e Netanyahu não se importam. Para condená-los precisaremos mais do que vitórias no campo de batalha. Precisaremos de um Tribunal de Nuremberg.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.