Guinada na Colômbia e no Peru reforça extrema-direita na América do Sul
A região tem um eixo reacionário, mas não há garantias de que toda a direita poderá ser mobilizada pelos EUA para ações intervencionistas
As vitórias de Keiko Fujimori no Peru e de Abelardo de la Espriella na Colômbia tornam mais nítido o redesenho da América do Sul, reforçam um eixo ultradireitista que pressiona as forças progressistas regionais e recolocam a região no centro das disputas geopolíticas.
A nova configuração regional nasce de duas eleições marcadas por margens apertadas, forte polarização social e centralidade do discurso de segurança pública. No Peru, a presidenta eleita chega ao poder sob o peso histórico do fujimorismo. Na Colômbia, Espriella emerge como outsider de extrema direita e adversário frontal das forças democráticas e populares.
O resultado combinado cria uma engrenagem direitista de linha-dura na América do Sul. Seu eixo comum é a promessa de ordem, punição e combate à esquerda e suposto enfrentamento do designado “narcoterrorismo internacional”, pretexto do governo Trump para ativar políticas intervencionistas que atentam contra a soberania nacional. A retórica da segurança pública, já dominante em diferentes campanhas latino-americanas, ganha agora dois polos estratégicos: Lima, pela importância geoeconômica do Peru, e Bogotá, pelo papel histórico da Colômbia na política antidrogas dos Estados Unidos.
O retorno do fujimorismo ao poder
No Peru, a eleição de Keiko Fujimori reabre uma das feridas mais profundas da política nacional. O fujimorismo é uma corrente antidemocrática, cuja expressão mais dolorosa para o povo peruano foi a ditadura exercida pelo pai da mandatária eleita, Alberto Fujimori.
A vitória apertada indica que Fujimori não assume em ambiente de consenso. Ao contrário, chega ao governo diante de um país dividido, com forte tradição antifujimorista e expectativa de contestação permanente nas ruas e no Congresso. Sua agenda de segurança tende a ocupar o centro da política doméstica, com propostas de endurecimento penal e maior presença estatal repressiva em áreas marcadas por criminalidade e instabilidade.
Esse movimento, no entanto, encontrará limites. O Peru vive uma crise política prolongada, com sucessivas trocas de governo, desgaste institucional e baixa confiança pública. A margem estreita da vitória reduz o capital político inicial de Fujimori e aumenta o custo de qualquer tentativa de governar apenas pela lógica do confronto.
Colômbia mira confronto militar
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella representa uma inflexão ainda mais direta em relação ao ciclo progressista anterior. O novo presidente eleito chega ao poder prometendo sepultar negociações de paz e retomar uma estratégia centrada no confronto militar contra o narcotráfico e organizações armadas. Na prática, essa orientação pode significar uma espécie de “Plano Colômbia 2.0”, com maior cooperação com Washington, ampliação da presença militar e endurecimento da ação estatal no território.
Washington e a nova doutrina para a região
A guinada no Peru e na Colômbia não ocorre no vácuo. Ela se conecta ao esforço dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, para restabelecer influência, recuperar hegemonia no hemisfério ocidental.
Nesse contexto, De la Espriella aparece como o aliado mais funcional de Washington. Sua agenda de segurança, seu discurso antiesquerda e sua disposição de reposicionar a Colômbia como parceira estratégica dos Estados Unidos o colocam como possível ponta de lança ideológica da nova direita regional.
Peru entre o alinhamento com EUA e boa relação com a China
Fujimori, por sua vez, compartilha o viés conservador e anticomunista, mas vai governar um país cuja realidade econômica impõe cautela. O Peru não pode simplesmente ignorar o peso da China em sua economia, sobretudo após a consolidação do porto de Chancay como infraestrutura-chave da presença asiática na América do Sul.
O porto de Chancay é o principal nó geopolítico da equação peruana. Construído com forte participação chinesa, o megaprojeto consolida o Peru como plataforma logística do comércio entre América do Sul e Ásia. Trata-se de uma infraestrutura capaz de reorganizar fluxos de exportação, reduzir custos e ampliar a inserção peruana nas cadeias globais ligadas ao Pacífico.
Por isso, a política externa de Fujimori tende a operar em uma corda bamba. No plano ideológico, seu governo deve se aproximar de Washington, reforçar a retórica conservadora e alinhar-se ao campo político liderado por Trump. No plano econômico, porém, dificilmente poderá romper com Pequim sem produzir custos elevados para setores empresariais, exportadores e logísticos do próprio Peru. Por isso, o novo governo será obrigado a uma atitude cautelosa diante de eventuais apelos de Washington para se associar a aventuras.
Essa assimetria diferencia Lima de Bogotá. Enquanto a Colômbia de Espriella tende a buscar um alinhamento mais direto, militarizado e político com os Estados Unidos, o Peru de Fujimori deve combinar conservadorismo interno com pragmatismo mercantil externo. Em outras palavras, Washington pode ganhar uma aliada ideológica em Lima, mas Pequim seguirá tendo instrumentos econômicos decisivos no país. A percepção corrente em meios diplomáticos é de que os riscos de instabilidade regional poderão emanar mais da Colômbia do que do Peru.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

