Gushiken: ideais elevados e pés firmes no chão

Se existiu alguém que, em nossa história política recente, transcendeu em muito os verbos a que todos nós estamos sujeitos: nascer, viver, morrer, esse alguém foi ele

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Neste 13 de março, completam-se seis meses que em São Paulo iniciava sua última jornada Luiz Gushiken, o China, o Gushi da Libelu, o aguerrido samurai. E se existiu alguém que, em nossa história política recente, transcendeu em muito os verbos a que todos nós estamos sujeitos: nascer, viver, morrer, esse alguém foi ele.

A diferença marcante entre Luiz Gushiken e os demais contemporâneos é a qualidade de vida que ele escolheu viver: seu protagonismo na construção de um novo Brasil, um país que precisava antes de tudo se reencontrar com o estado de direito, a democracia e as liberdades. E ele fez isso e muito mais. Criou o ambiente para termos reaceso de forma inexorável o orgulho de ser brasileiro, tantas vezes escondido, tantas vezes envergonhado.

Mas quem foi este filho de emigrantes japoneses? Procurei um equilíbrio entre um resumo biográfico factual e um com aspectos humanistas. Porque o China era assim: tinha os pés bem firmes no chão e a cabeça tantas vezes pairando sobre as nuvens, tão encharcado estava de esperanças que somente o Brasil de seus sonhos poderia realizar.

Luiz Gushiken é brasileiro, filho do fotógrafo e violinista Shoei Gushiken, que emigrou da ilha japonesa de Okinawa para o interior paulista nos anos 60. Passou sua infância na cidade pacata de Oswaldo Cruz, com 20 mil habitantes, a 570 quilômetros de São Paulo.

Dono de uma biografia invejável, foi estudante de filosofia, funcionário do Banespa e fez carreira como sindicalista, mas formou-se em administração pela Fundação Getúlio Vargas.

Ainda rapazote, contando apenas 14 anos, imberbe ainda, começa a trabalhar como ajudante e contínuo em uma pequena fábrica local. E desse suor juvenil, provinha parte da renda familiar necessária a ajudar a criação dos irmãos mais novos. Eram tempos difíceis. Tempos em que o Brasil era o país eternamente localizado no futuro, um Brasil arcaico, rural e, gigantesco tanto em suas riquezas quanto em suas mazelas, tragédias sociais.

Em 1967, Gushiken muda-se para São Paulo e mantém assim a tradição de sua geração: despede-se da cidade do interior para estudar e trabalhar no grande centro urbano.

Em 1970, contando meros 20 anos, demonstra sua grande paixão pelo conhecimento, pela cultura. Tem interesses os mais diversificados. E estes o levarão a se aprofundar nas áreas da filosofia, administração, ciência, espiritualidade. Desde muito novo ele percebe que "o conhecimento é um ponto, mas os ignorantes o multiplicaram. Neste ano, Gushiken assiste aulas de administração na Fundação Getúlio Vargas pela manhã e à noite, cursa Filosofia na USP.

Em 1970 também, presta concurso público e ingressa nos quadros do Banespa.

Nesse mesmo 1970, ainda com 29 anos, trava a primeira luta pela saúde ao retirar células cancerígenas que lhe enfermam o corpo. É submetido a um pesado tratamento radioterápico.

Os anseios por justiça social, por salários dignos, jornada de trabalho adequada irá marcar primeiros anos como bancário.

Em 1979, já inteiramente mergulhado no movimento sindical, passa a integrar a diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

E assim tem início uma luta sem tréguas, hercúlea, seja contra a longeva ditadura militar que sequestrara o Brasil de seu povo, seja contra o poderio econômico, elitista e burguês que, já naquela época entronizava como centro de sua devoção o insaciável Deus Mercado. É um tempo em que mais vale ter que ser, mais vale possuir bens materiais que bens culturais.

No governo Geisel, Gushiken foi militante da tendência Liberdade e Luta (conhecida como Libelu), braço estudantil da trotskista Organização Socialista Internacionalista (OSI).

Luiz Gushiken teve também papel fundamental na presidência do Sindicato dos bancários, na década de 80. Mostrou como um sindicato pode ser atuante e politicamente ativo na defesa de sua categoria. Ele enfrentou a classe mais poderosa de nosso país: os banqueiros.

Em 1980, fundou o Partido dos Trabalhadores juntamente com Lula e se tornou presidente do Diretório Nacional do PT de 1988 a 1990.

Foi deputado federal por três legislaturas, de 1987 a 1999, e coordenador das campanhas presidenciais de Lula em 1989 e 1998.

Em 1998 desiste de se candidatar novamente, consegue eleger Ricardo Berzoini como seu sucessor e atua como coordenador da terceira campanha presidencial de Lula.

Sofre um ataque cardíaco em 2001. É aberto, então, um novo campo de lutas. A luta pela saúde, a luta pela vida, ano a no, mês a mês, e depois, dia a dia.

Em fevereiro de 2002, nova luta com a saúde: descobre novo câncer e faz a extração total do estomago. A cirurgia tem complicações e sofre uma septicemia, perdendo 20 quilos em 7 dias.

Em junho desse mesmo ano, porém, é coordenador-adjunto da vitoriosa campanha presidencial de Lula. Novamente é imprescindível dar eco a essas palavras do Lula sobre Gushiken:

"Em 2002, ainda se recuperando de problemas de saúde, você veio para a campanha presidencial por minha insistência e foi um dos responsáveis por nossa vitória com idéias memoráveis..."

Nessas últimas três décadas esteve ao lado do amigo e companheiro de lutas sindicais, Luiz Inácio Lula da Silva, e juntos fundaram o PT e a CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Um pouco antes da campanha de 2002, passou por graves problemas de saúde. Um câncer lhe retirou boa parte do estômago, mas Lula não desistiu do amigo e disse:

"Eu boto uma enfermeira ao teu lado e acertamos só dois dias de trabalho semanal no comitê".

O guerreiro topou o desafio – e foi fundamental na campanha vitoriosa.

Para colocar em alto relevo suas qualidades de amizade, companheirismo e hábil estrategista que tanto lhe caracterizaram é oportuno conhecer esse breve depoimento do presidente Lula. Ele escreveu o seguinte:

"...me recordo de sua longa contribuição em momentos tão importantes da nossa trajetória. Não apenas nas vitórias. Você tem sido companheiro de todas as horas e nunca vou me esquecer de sua tranqüilidade nas piores derrotas. Sua visão de longo prazo sempre nos alimentou de um otimismo estratégico. Sabíamos que nossa luta seria vitoriosa e que precisávamos acumular e acumular, com a paciência nipônica que você sempre nos transmitia..."

Gushiken é um dos signatários da "Carta aos Brasileiros", documento que acalmou o mercado e lançou as bases de uma serena transição na economia.

Ao amigo fiel tece elogios e diz: "Lula sempre foi paz e amor. Um radical não teria construído um partido tão amplo e complexo como o PT", lembra Gushiken.

Com efeito, Gushiken torna-se Ministro do Governo Lula em 2003 e, na condição, de Ministro-Chefe da Secretaria de Comunicação e, lança a mais formidável campanha de resgate da autoestima jamais vista em um país. É a campanha: "O melhor do Brasil é o brasileiro", "Sou brasileiro e não desisto nunca".

Consegue a proeza de angariar apoio da classe empresarial, de suas instâncias econômicas, envolve a classe artística e dá vazão a esse sentimento há muito represado: ser brasileiro é ser feliz e é fonte de orgulho.

Em sua gestão à frente da SECOM, o guarda-chuva da comunicação oficial é tremendamente democratizado e centenas de veículos de comunicação, notadamente de cunho regional e mesmo local, sai de sua histórica invisibilidade.

É designado Ministro-Chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, pensa o Brasil até 2022, época em que celebraremos o nosso Segundo Centenário da Independência, 1822-2022.

Gushiken é reputado por muitos como um refinado pensador. Mas como não escreveu livros, é reduzido o número dos seus admiradores que nele reconhecem tais qualidades de humanista em movimento.

Em 2005, é vítima da maior infâmia que pode atingir um homem público. Tem seu nome atrelado pela imprensa ao escândalo político conhecido como "mensalão". A mídia passa a acusá-lo semanalmente durante os seguintes 7 anos e veículos de imprensa sempre referem-se a ele como "condenado". É um tempo de tristeza, amargura e muita dor. Seu nome é objeto de difamação reles, de calúnias baixas, nem sua esposa e seus três filhos são poupados. O preço a pagar por quem não transige com a honra, com princípios éticos e morais, é imenso.

Em 2008, Gushiken sofre novo princípio de infarto e em 2010, com a doença do câncer já em estado metastático, passa por nova cirurgia de 9 horas para retirada de vesícula, parte do diafragma, parte do fígado e partes do intestino.

Mas o samurai está longe de entregar os pontos.

Em outubro de 2012, após 7 anos e 2 meses de incansável acusação pública, é absolvido por unanimidade pelo STF de todas as acusações.

Descobre-se, entre outras evidencias jurídicas, que o Ministério Público deliberadamente negou acesso, durante o curso do processo, a documentos que atestavam sua inocência. Não há qualquer reparação pela mídia.

A mesma fúria acusatória, a mesma virulência do persistente e sórdido ataque à sua honorabilidade não se verificará. O estrago foi feito. O crime, que lhe fora falsamente imputado, terminou se consumando, sendo ele acusado, julgado e condenado pela imprensa.

E, mesmo sem qualquer processo judicial, cumpre sua dolorosa pena por longos e terríveis 7 anos e 2 meses: Gushiken é o inocente levado ao cadafalso das calúnias vis, é o cidadão que tem sua honra pisoteada com requintes de rara crueldade por não menos que 469 semanas ou 3.285 dias consecutivos.

Com a mesma altivez com que viveu a vida, enfrentou a morte, falecendo em São Paulo em 13 de setembro de 2013, aos 63 anos de idade.

As cerimônias fúnebres compareceram dezenas de autoridades, dentre os quais a presidenta da República Dilma Rousseff, o ex-presidente da República e amigo de longas décadas, Luiz Inácio Lula da Silva, além de senadores, deputados, governadores, prefeitos, dirigentes sindicais e muitos, muitos admiradores.

Com sua determinação, engajamento, dedicação às causas justas e, mais que tudo, amor ao Brasil, Luiz Gushiken foi peça fundamental nas conquistas sociais e econômicas que o Brasil teve nesses últimos 30 anos.

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