Há 26 anos morria Paulo Francis

Paulo Francis
Paulo Francis (Foto: Reprodução)


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Rio - Paulo Francis entrou na minha vida, e de tantos da minha geração, a partir dos anos 70, quando passou a escrever no “O Pasquim”.

Sou da turma que lia e admirava pra cacete o texto ferino de Paulo Francis. Em 1976 ganhei dele o livro “Paulo Francis nu e cru”, onde ele escreveu: “Sempre escrevi rápido, pensei rápido e vivi rápido.”

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Francis, angustiado por uma possível derrota em uma ação movida pela Petrobras contra ele, morreu de coração, no dia 4 de fevereiro de 1997, em Nova York, aos 66 anos.

Carioca de Botafogo, foi um jornalista, crítico de teatro, diretor e escritor brasileiro. Na imprensa, começou na revista “Senhor” com nomes de porte, como Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Caio Mourão, Bea Feitler, Jaguar, Glauco Rodrigues e Carlos Scliar. 

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A Revista teve vida curta. Durou apenas cinco anos, de 1959 a 1964. Mas foi o embrião de outra grande publicação: a ‘Diners’.

Em 1967,  com o fim da ‘Senhor’, Paulo Francis passou a editar a ‘Diners’. A revista já existia desde 1962, como uma publicação mensal dirigida como brinde aos associados do cartão Diners Club.

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Francis transformou a ‘Diners’ em uma revista ‘esnobe, elegante e inteligente’, como queria  Beki Klabin, sócia dos cartões Diners e dona da revista.

A ‘Diners’ do Francis era uma publicação, ainda desconhecida do grande público, mas muito admirada no meio e o sonho de inúmeros jornalistas cariocas, que adorariam colaborar nela. 

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Não era apenas a revista intelectualmente mais sofisticada da imprensa brasileira.  A herdeira direta da respeitada ‘Senhor’. Era também a que pagava melhor.

Com plenos poderes e total independência, Francis  começou por uma reforma gráfica e pela contratação de gente sua para trabalhar com ele na redação da ‘Diners’, na rua do Ouvidor, 61. 

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Logo que assumiu a revista, em julho de 1967, Francis montou uma redação só com gente talentosa. Um dos  primeiros a ser chamado para colaborar com a nova revista foi Ruy Castro -então, um jovem de apenas 19 anos - seu colega no jornal ‘Correio da Manhã’.

A ‘Diners’ já contava com dois dos maiores talentos daquela geração, Flávio Macedo Soares, 24 anos, e Alfredo Grieco, 23, ambos alunos do Instituto Rio Branco e candidatos ao Itamaraty. 

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Ruy Castro escreveu em uma gostosa crônica sobre Paulo Francis e a ‘Diners’:

 “Flavio, Alfredo e eu, cada qual dominando diversos assuntos, éramos responsáveis por quase 70% do texto da revista: artigos ‘sérios’, crônicas de humor, perfis, entrevistas, adaptações de material estrangeiro, traduções etc. 

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O material estrangeiro, quase sempre de ficção, também era do primeiro time: contos de Julio Cortázar, Philip Roth, Dorothy Parker, Ernest Hemingway, Graham Greene, D. H. Lawrence, os perfis de Kenneth Tynan e Rex Reed e os quadrinhos mais sofisticados da imprensa: Peanuts, Pogo, B.C., o Mago de Id, Barbarella e os cartuns de  Jules Feiffer…

Vários outros jovens, como Telmo Martino, Edgard Telles Ribeiro, Jomico Azulay, Maria Ignez Duque Estrada, Alfredo Lobo e Jaime Rodrigues, também colaboraram. Pedro Oswaldo Cruz era o fotógrafo de plantão e o excelente caricaturista Vilmar fazia quase todas as ilustrações.

Os restantes 30% do texto da revista eram reservados aos grandes nomes: Carlos Drummond de Andrade, Antonio Callado, Paulo Mendes Campos, Glauber Rocha, Millôr Fernandes, Franklin de Oliveira, Armando Nogueira, Octavio Malta, Fausto Cunha,  Otto Maria Carpeaux, Luiz Lobo, Flávio Rangel, José Lino Grünewald, Joel Silveira, os cartunistas Jaguar e Fortuna, o lingüista Adriano da Gama Kury e outros, todos muito bem pagos”. 

A ‘Diners’ virou uma espécie de xodó da imprensa carioca. No segundo semestre, o sucesso da revista entre os jornalistas era tanto que, numa decisão editorial ousada, ‘Diners’ passou a ser vendida nas bancas a partir de setembro.

Mas antes que a revista se firmasse nas bancas, aconteceu o AI-5  - Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro daquele ano.

Na manhã de 14 de dezembro de 1968, começaram as prisões. Francis foi preso horas depois, em seu apartamento, na rua Barão da Torre, só de pijama. 

A crise política e institucional no país e a ameaça de instabilidade econômica tornaram insustentável a existência da revista nas bancas.

Desiludida,  Beki Klabin resolveu encerrar a circulação da publicação. 

Em junho de 1969 saiu a última ‘Diners’.

Com o fim da revista, Francis trabalhou em vários jornais, entre eles, "Correio da Manhã", "Tribuna da Imprensa", "Última Hora", "O Pasquim", "Folha de S.Paulo", "O Globo" e "O Estado de S. Paulo".

Histriônico, caricato, mas corajoso; uma espécie de kaiser do achincalhe e da esculhambação. Era acusado por seus críticos de erros primários, de inventar, de chutar, de não checar. E de se apoderar de frases alheias, pensamentos inteiros, sem usar aspas.

Um dos seus erros mais famosos apareceu numa crítica sobre o filme norte-americano Tora! Tora! Tora! No texto afirmava que o Almirante Yamamoto havia comparecido à première do filme, em 1971, sendo que o militar japonês havia morrido em 1943, quando seu avião foi abatido pelos americanos.

Mas ele mantinha todos os erros, por, segundo ele, não estar interessado na realidade dos fatos, mas numa "análise".

Preso quatro vezes pelo regime militar, defendia o fechamento do Congresso Nacional. Queria privatizar, a Petrobras, “cabide de emprego” e “uma estatal ineficiente e inoperante”.

Em 1997, durante o programa "Manhattan Connection", Francis propôs a privatização da Petrobras, acusou os diretores da estatal de possuírem US$50 milhões em contas na Suíça – acusação pela qual foi processado na justiça dos EUA.

Francis fazia amigos e admiradores na mesma velocidade com que fazia inimigos. 

Era genioso e genial.

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