Há algo de podre na vinda do jornalista dinamarquês Mikkel Jensen ao Brasil

É bom que ele não volte mesmo. Ao menos com esses olhos parados no ultrapassado paradigma é melhor não vir. Evita assim de replicar ignorância com fartas doses de preconceito

O que pensar de um jovem que dedica alguns meses de sua vida a uma viagem ao Brasil para cobrir o mais festejado de todos os eventos esportivos do mundo?

Bem, em rápido exercício mental, imagino ser um felizardo. E é bafejado pela sorte porque deixa para trás seu pequenino torrão natal, com população de apenas 5.580 mil habitantes, estando aí incluídos 10,4% de imigrantes vindos da Turquia, Iraque, Somália, marcado por diferentes tons de cinza ao longo do ano, com uma população francamente de meia idade e onde as principais políticas públicas tratam de incentivar os jovens a terem filhos.

Mas esse nórdico, apresentando-se sempre como jornalista independente, decide vir ao Brasil cobrir a Copa 2014 e, um megaevento que abarca 12 diferentes cidades-sede, escolhe Fortaleza. Até aí nada demais, afinal o que não falta em Fortaleza são as características maiores do povo brasileiro: hospitalidade, modernidade urbana, culinária exuberante, beleza naturais singulares.

Mas ao sair de Copenhague com destino a Fortaleza com mais de três meses do dia em que será ouvido o apito dando início oficial à primeira partida do mega torneio, sem ter dedicado um par de dias para conhecer o Rio de Janeiro, sede do mais festejado – e cheio de história – estádio de futebol do mundo, o mítico Maracanã, chega a ser completa miopia jornalística. Nessa linha, bem poderíamos perguntar ao dinamarquês porque não dedicou uma semana para conhecer as cidades-sedes do sul, com suas belas arenas em Curitiba e em Porto Alegre ou então, passando tanto tempo em Fortaleza, porque não ir a Natal ou ao Recife, distantes apenas 40 minutos de voos ou 7 horas de carro.

Tivesse um pouco mais de visão jornalística e um temperamento um pouco mais aventureiro, não se entende porque optou por privar seu possível leitorado dinamarquês das características marcantes de duas outras cidades-sedes do mundial – Brasília e Manaus. Mas não. O interesse de Mikkel Jensen foi apenas mais daquele mesmo olhar que o colonizador ao longo dos séculos costuma lançar sobre suas colônias. O olhar arrogante de quem acostumou o espelho a lhe mirar como suprassumo de civilidade e ao que lhe é diverso como obra inacabada, imperfeita e com tudo a ser feito e construído, partindo sempre do zero.

E é nessa postura do mais chamativo nariz empinado que Jensen parece viver em outra realidade, algo paralelo, mais cheio de passado que de presente e futuro. Desconhece, ou faz questão de se firmar no autoengano, que o mundo mudou e com ele mudou ainda mais o Brasil.

Somos uma das sete maiores economias do mundo. Atravessamos olimpicamente a crise que se abateu sobre a sua Europa e aos Estados Unidos nos anos 2008/2010 e enquanto muitos de seus vizinhos geográficos como o Reino Unido e a Espanha amargavam taxas de desemprego superiores a 26,7% ao mês, enquanto a Grécia, 27,1% celebrado berço da civilização ocidental cristã testemunhava diariamente compatriotas de Sócrates e Platão se imolando em praça pública, com as finanças arruinadas e sempre a um passo de ser expulsa da sua Comunidade Europeia, o Brasil festejava, mesmo com o constante mau humor da grande imprensa nacional, a criação de uma formidável e pujante nova classe média, elevando a condição socioeconômica de formidáveis 26 milhões de brasileiros, contingente antes encastelado naquela linha tênue que separa pobreza de miséria, e também podendo ostentar as mais baixas taxas de desemprego do planeta, com a de fevereiro deste 2014 em exatos 5,1% ao mês.

É que Jensen parece não ter feito o dever de casa com o apuro necessário a um bom jornalista: como ir a um país sem um bom plano de cobertura, levantamento e checagem de dados, reconhecimento do terreno, atenção às características sociais, econômicas e culturais sobre o qual pretende escrever? E foi isso que aconteceu.

Veio ao Brasil com a agenda dos século 20, aquela em que estrangeiros aqui chegavam através do antigo Galeão carioca (hoje Aeroporto Internacional Tom Jobim) e de lá seguiam para conhecer aquelas pobres e coloridas e construções "empilhadas" por sobre os morros da Rocinha, Borel, Chapéu-Mangueira, Alemão. Por que essa era a visão do Brasil que hipnotizava as retinas gringas – uma forma de mostrar sua superioridade cultural e econômica e demonstrar quão vitoriosos eram seus "ganhos" civilizatórios.

E então o gringo retorna ao 'podre reino de sua Dinamarca', imortalizada na literatura universal exatamente por essa podridão denunciada por William Shakespeare através de seu emblemático príncipe Hamlet, deitando falação contra o Brasil, denunciando massacre de crianças pobres na periferia de Fortaleza, tratando como engodo pesados investimentos em obras de infraestrutura – rodovias, aeroportos e estádios e desabafando no mais puro estilo adolescente entediado – "não volto mais ao Brasil, foi uma viagem decepcionante!". E é bom que não volte mesmo. Ao menos com esses olhos parados no ultrapassado paradigma é melhor não vir. Evita assim de replicar ignorância com fartas doses de preconceito.

Foi-se o tempo em que, governantes à frente, festejava-se esse nosso arraigado "complexo de vira-latas", de eterno "país do futuro" deitado eternamente em berço esplêndido e povoado massivamente por gente indolente e néscia, incapaz de escrever sua própria história. Mas seria imprudente afirmar que Mikkel Jensen perdeu sua viagem ao Brasil. Soa mais factível que, estando aqui, o descendente dos vikings se tenha contagiado com o ofício de boa parte de seus colegas da grande imprensa, esses que, parecem incansáveis em validar a nova imagem que o país desfruta, com suas muitas conquistas sociais e este momento que tudo tem de "futuro hoje".

Por que para nossos similares nacionais de Mikkel Jensen o Brasil sediar uma Copa do Mundo é de uma desfaçatez descomunal e, apenas dois anos depois, em 2016, sediar os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro é rematada tolice de 'nação que, nascida para tamanco, jamais chegaria a ser sapato'.

Isto, para ficarmos com o famoso ditado lusitano, afinal, foi graças ao golpe de sorte de havermos sido descoberto pelos portugueses que mantemos, cinco séculos depois, toda a nossa imensa extensão geográfica e, acima de tudo, desfrutamos uma única e mesma unidade linguística – esse patrimônio maior e imaterial que é a língua portuguesa.

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