Há um Saramago plantado no quintal de Josefa
A carta à avó revela ternura, culpa e gratidão: palavras que devolvem dignidade às mãos que sustentaram a infância de um escritor maior que o próprio destino
Há escritores que inventam mundos inteiros; alguns plantam ideias, outros erguem catedrais de metáforas, edificam narrativas como quem assenta pedras calçadas. José Saramago fez tudo isso — e ainda devolveu ao leitor o espelho simples da humanidade. O menino que cresceu entre oliveiras e pobreza, nascido no pequeno Azinhaga, descobriu cedo que a palavra é uma casa habitável. Nela cabem invernos, medos, fome, ternura e lembranças. A palavra — esse fio discreto que costura o tempo ao peito — serviu-lhe de abrigo e de arma. Com ela atravessou regimes, censuras, tempestades ideológicas. Com ela escreveu romances que se tornaram bússolas morais de um século inquieto.
E, talvez por isso, antes mesmo de se tornar o primeiro Prêmio Nobel da língua portuguesa, em 8 de outubro de 1998, já sabia que todo escritor volta inevitavelmente ao chão que o formou. Na cerimônia em Estocolmo, diria com humildade: “somos todos feitos da mesma pasta humana”, e completaria noutra passagem memorável: “a literatura é o testemunho de que a condição humana vale a pena”. Palavras que ecoam como quem agradece não apenas à Academia Sueca, mas à origem pobre que nunca renegou — porque sabia que dali veio o sustento da sua escrita.
Em 1968, publicado no jornal A Capital, Saramago escreveu uma carta-crônica à avó Josefa. Não é apenas um texto — é um abraço entre duas eras. É a memória afetiva transformada em palavra, como se o neto, já homem, tocasse o rosto enrugado da infância e dissesse: devo-te quem sou. Leio essa crônica como quem observa o menino pequeno caminhando na direção do escritor imenso. Nela, Saramago devolve à avó um retrato emocionante da vida que ela carregou sem ter lido livros, mas lendo o mundo com o corpo. É o testemunho de que a literatura nasce muitas vezes do olhar humilde dos que nada pedem e muito ofertam.
Carta para Josefa, minha avó (1968 – texto integral de José Saramago)
“Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)
Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi, então, que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas por quê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: ‘O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!’
É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua".
José Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, filho de camponeses pobres. Releio essa carta e vejo que ela não é apenas memória — é origem. A avó Josefa, que não sabia ler, ensinou-lhe o primeiro alfabeto: o alfabeto das coisas essenciais. Aquelas mãos deformadas que ele descreve, marcadas pelo peso da lenha e da água, são páginas de um livro que nunca foi publicado, mas que ele leu com os olhos de menino. O riso dela, “um foguete de cores”, é a imagem mais terna de resistência que a pobreza pode produzir. Não é riso de ignorância; é riso de quem, apesar da dureza, descobriu alegria onde outros teriam encontrado cinzas.
Quando o neto adulto pergunta “quem te roubou o mundo?”, devolve à avó não apenas nostalgia — devolve reparação. Saramago, com milhares de palavras sob seu comando, reconhece que a mulher que o criou tinha apenas quinhentas. Esse descompasso é social e histórico. Ele recebe o Nobel dizendo que “todos somos feitos da mesma pasta” e que “a literatura é a prova de que viver vale”. E sabe, intimamente, que a massa que formou sua avó era a mesma que construiu um país inteiro — e nunca recebeu diploma. A literatura, ali, torna-se ponte entre o analfabetismo e a imortalidade.
A frase final da crônica — “o mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer” — não é apenas confissão; é revelação.
Quem viu pouco, amou muito. Quem leu pouco, compreendeu o essencial. Josefa olha o céu que nunca percorreu e ama o mundo como se o tivesse nas mãos.
Talvez este seja o cerne da obra de Saramago: o espanto diante da vida. Ele se foi em 18 de junho de 2010, nas Ilhas Canárias, mas sua avó continua sentada na soleira, rindo como foguete, enquanto o mundo, agora, a lê.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
