Haddad em São Paulo: variável capaz de levar as eleições paulistas ao segundo turno
Com Haddad no páreo, disputa em SP pode deixar favoritismo de Tarcísio sob tensão
Partindo da premissa de que Tarcísio de Freitas disputará a reeleição — hipótese hoje altamente provável —, o cenário paulista se organiza com claro favoritismo do incumbente. A combinação entre avaliação administrativa razoavelmente estável, ausência de crises de grande magnitude e coordenação política com a Assembleia Legislativa produz o que se pode chamar de “inércia positiva”. Em governos estaduais, quando não há ruptura visível, o eleitor tende a manter o que considera funcional.
Além disso, eleições majoritárias “mano a mano” costumam privilegiar quem já está no cargo, desde que o mandato não esteja marcado por erros graves ou crises recorrentes. A centralidade do governo estadual no cotidiano político do eleitor médio é limitada. Se não há conflito, a normalidade vira ativo eleitoral.
Nesse contexto, a eventual indicação de Fernando Haddad por Lula para disputar o governo paulista seria uma variável com potencial real de alterar a tendência atual de vitória de Tarcísio em primeiro turno. Não é o único nome capaz de provocar essa mudança, mas Haddad possui densidade eleitoral, recall consolidado na capital e capacidade de nacionalizar o debate, conectando a disputa estadual ao campo lulista.
Sua entrada não significaria favoritismo imediato, mas alteraria o eixo da competição. Diferentemente de nomes com menor musculatura, Haddad tem condições de consolidar um polo competitivo capaz de forçar o segundo turno — especialmente se a eleição deixar de ser percebida como plebiscito administrativo e passar a incorporar dimensão política mais ampla.
Para que essa hipótese se concretize, entretanto, um fator adicional seria decisivo: a presença de outras candidaturas, no campo oposicionista ou de perfil “neutro”, mesmo. Ainda que, num primeiro momento, possam retirar votos de centro de Haddad, essas candidaturas cumprem função estratégica ao fragmentar o eleitorado anti-incumbente no primeiro turno e impedir a cristalização de uma disputa binária prematura. Paradoxalmente, a pulverização inicial pode ser condição para a consolidação posterior.
A eleição exclusivamente polarizada entre dois nomes desde o início tende a reforçar o governador, que opera sob vantagem institucional e administrativa. Já um cenário mais fragmentado cria ruído, tensiona a narrativa de estabilidade e amplia a probabilidade de segundo turno.
Há ainda outras variáveis políticas relevantes. A forma como as denúncias envolvendo o atual vice-governador, Felicio Ramuth, serão exploradas pelas campanhas adversárias e tratadas pela mídia corporativa pode influenciar o ambiente. Do mesmo modo, a evolução da relação entre Tarcísio e Gilberto Kassab — que, antes segundo relatos de bastidores e agora já ocupando páginas de jornais, não atravessa seu melhor momento — pode impactar a coesão da base aliada.
Nada disso, isoladamente, é suficiente para inverter o favoritismo. Mas, somados a uma candidatura competitiva como a de Haddad, esses fatores podem alterar a dinâmica.
Hoje, o cenário-base aponta para manutenção do status quo. Contudo, confirmada a indicação de Haddad na disputa e caso o campo oposicionista evite o esvaziamento precoce, São Paulo pode deixar de ser eleição de turno único antecipado e se transformar em uma disputa aberta, decidida apenas na segunda rodada.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
