História de uma eleição e a nova ordem em Goiás

Se Marconi planeja união ampla, todos poderão trabalhar com a avaliação de que ele agora é magistrado, e magistrado não se indispõe com aliados que precisa ter ao lado para construir projetos maiores

Se Marconi planeja união ampla, todos poderão trabalhar com a avaliação de que ele agora é magistrado, e magistrado não se indispõe com aliados que precisa ter ao lado para construir projetos maiores
Se Marconi planeja união ampla, todos poderão trabalhar com a avaliação de que ele agora é magistrado, e magistrado não se indispõe com aliados que precisa ter ao lado para construir projetos maiores (Foto: Vassil Oliveira)
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A expressão é bem a cara de Goiás, ouvi muito na boca de um querido ex-vereador – falando das disputas em seu pequeno município –, só não posso garantir ser produção genuína do nosso Estado. Vale pela sabedoria que carrega, pra mim resumo perfeito da eleição de 2014 para governador (e presidente, pensando bem):

– Assim: num ganhemo, nem perdemo. Mas também num empatemo.

A segunda reeleição, quarta vitória, do governador Marconi Perillo (PSDB) é a vontade soberana da maioria (57,44%: 1.750.977 votos) dos goianos. A maioria votou e escolheu, independente das considerações e ponderações. Estas valem pelo que podem ensinar e apontar. A próxima eleição está logo ali.

Isso precisa ser respeitado por todos aqueles que gostariam que o resultado fosse diferente, e que não são poucos: perto da metade da população votou contra Marconi Perillo, queria outro nome (Iris – 42,56%: 1.297.592 votos). Mas também pelos que comemoram.  Venceram uma disputa; não ganharam um Estado.

Marconi Perillo venceu porque foi o melhor candidato. O que fez o jogo de forma mais eficiente. Conseguiu superar uma avaliação negativa histórica, que estudiosos da política costumam apontar como atestado inequívoco de derrota certa. É um feito que fica registrado na história, para ser estudado e visto como lição.

No ano passado, e mesmo neste, em alguns momentos ele chegou a considerar, segundo um parlamentar aliado, não ser candidato. A decisão de ser foi um processo de pesos e medidas. De modo calculado, o tucano se mexeu aos poucos. Foi pro interior do Estado, onde sempre teve boa aceitação, agitou sua base, anunciou um plano B: seu vice, José Eliton. Mais que tudo, trabalhou para se viabilizar, desafiando todas as expectativas.

Quem o conhece sabe dessa sua característica de não desistir. Em momentos assim, ao contrário, ele se sente estimulado. Na falta de opositores mais fortes, as situações-limite, que parecem intransponíveis, têm sido, para Marconi, o verdadeiro adversário. (Ironia: tirando as eleitorais, boa parte delas provocadas por ele próprio). Ano passado, com a reeleição dada como ‘perdida’, ele redobrou esforços, em vez de desistir.

Creio que o marco da arrancada do governador para ver se emplacava, revertendo os prognósticos negativos, ocorreu em 14 de dezembro de 2013. Em um grande encontro de partidos aliados (14, no total), em Goiânia, ele fez inflamado discurso motivacional com claro objetivo levantar a moral e colocar a faca entre os dentes.

Preparado como parte de uma estratégia definida, o discurso foi precedido de pompa e circunstância. Antes, foi mostrado um vídeo com a trajetória política do tucano. As imagens destacavam o ‘moço da camisa azul’ que venceu o PMDB na campanha de 1998, e apelava para fotos do ex-governador Henrique Santillo, seu padrinho político. Emocionado, ao lado da senadora Lúcia Vânia (PSDB), Marconi chorou.

Ao falar, o clima positivo estava criado. E ele levou a plateia ao delírio com fortes frases de efeito: "Eu não tenho medo de cara feia, de dinheiro, dos poderosos. Sou homem de luta, já caí e me levantei”, gritou, em meio a aplausos entusiasmados de companheiros, comissionados e lideranças laçadas no interior. “Os principais projetos deles (líderes da oposição) são a crítica vazia e o desejo do poder pelo poder."

Na época, a oposição desdenhou, considerando o evento mais um show pirotécnico sem resultado prático, já que os desgastes do governo eram grandes. Viram no ato o desespero de quem está perdido e tenta de todas as formas manter pelo menos a governabilidade. O discurso, no entanto, passou a ser repetido em vários outros eventos, e a partir de julho – a expressão “desejo de poder pelo poder”, por exemplo, foi explorada ao máximo.

Deu o tom da arrancada, e foi o norte da campanha, junto com o viés da afirmação da perspectiva de poder – a pregação da vitória certa como retórica para amedrontar os que ‘ousassem’ ficar contra seu projeto. Na época, as pesquisas mostravam um cenário nublado para o tucano, mas apontavam que a população, mesmo assim, achava que ele ganharia.

O período nublado vinha de longe, e nem excessiva propaganda tinha conseguido superar. O tucano lutava para reverter os anos negativos que começaram na formação do governo – quando teve de acomodar nomes indicados por grupos ou pessoas que ajudaram na sua campanha – e tiveram seu auge na deflagração da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, e na CPMI do Cachoeira.

Também em dezembro Marconi Perillo apontou sua fragilidade, muito explorada depois nas propagandas gratuitas de rádio e TV dos adversários, ao definir 2014 como o ‘ano da segurança’. O ponto falho na área fora visto em pesquisas internas, e preocupava. A forma de combater, com muita mídia e ações pontuais – entrevistas e factoides –, foi dada com este mote.

No fim do mês, durante encontro com jornalistas no Palácio das Esmeraldas, ele voltaria a mostrar disposição para o combate, transformando o que era ruim, em discurso positivo. O próprio encontro foi pensado para passar a ideia de um governador seguro e um governo espetacular. Tudo para atingir os chamados formadores de opinião; tudo, claro, sem assumir candidatura à reeleição.

“O trabalho nosso é intenso no sentido de não só demonstrar e assegurar, mas deixar claro, convencer a todos de que esse é um bom governo, é um governo realizador”, falou. No geral, ele reafirmou o conceito promovido nas peças publicitárias que, no período natalino, ocuparam todos os espaços na TV rádio e jornais impressos. Elas mostravam realizações de sua administração e pregavam que o ano seguinte, além de ‘ano da segurança’ e justamente ano da (re)eleição, seria “o ano da consagração”.

Nesse dia, em tom de brincadeira, ele deu a senha de como driblaria a oposição enquanto se armava para a guerra. “Campanha, quanto mais curta, melhor. Dá muito trabalho”, disse. Armadilha, travestida de sinal de fraqueza. Assim, com a cumplicidade dos outros candidatos, Marconi adiou o quanto pode o início da campanha – e das críticas mais duras à sua administração.

O que se processou em dezembro de 2013 foi isto: mais um passo calculado na estratégia de recuperação de um exército de cabos eleitorais e apoiadores que andava disperso e desanimado. Daí em diante Marconi Perillo fez campanha 24 horas por dia, muito mais que qualquer outro adversário no período. Nada estranho, para quem faz política o tempo inteiro.

Em três anos e meio, ele gastou o que pode e o que não pode com publicidade. Foram mais de R$ 500 milhões. Nos primeiro anos, ele gastou para não morrer politicamente, depois da CPMI do Cachoeira. Nos últimos meses antes da proibição legal de anunciar em veículos – julho a outubro, meses oficiais de campanha –, ele gastou para ressurgir das cinzas. No entanto, o mais sintomático é que foi só na campanha, sem teoricamente poder gastar verba de publicidade do Estado, que ele conseguiu melhorar sua imagem e transformar isso em votos.

Paralelamente, depois de dezembro intensificou a ocupação indireta nas redações da grande maioria dos veículos dependentes de anúncios do Estado, voltou a percorrer os municípios (tinha feito isso nos meses anteriores) e aumentou a cobrança, aos mais próximos, por engajamento à sua causa: recuperação da imagem pessoal e de seu governo. Só assim poderia pensar em reeleição, avisava, no que queria dizer: assegurar as benesses e privilégios dos que estavam com ele depois de 16 anos de poder.

Marconi contou ainda com um boa ajuda dos adversários. A oposição permitiu (verdade que já vinha fazendo isso, há anos) que ele consolidase Dilma, uma adversária nacional de seu partido, como grande parceira no Estado. Colheu o bônus dos investimentos federais em Goiás, e os ônus de sua adminsitração jogava na União. Segurança falha? A União era a vilã. Celg quebrada? A União é que não resolvia o impasse.

Dilma virou adversária dos oposicionistas por obra e graça da incompetência daqueles que não deram conta de fazer dela uma aliada - ao contrário: reclamaram. Como Iris, em julho: "Todos nós sabemos que a administração pública, ela tem os altos e baixos. Bem, uma queixa eu tenho de tudo isso. A presidente da República encheu o Marconi de dinheiro e está deixando o Paulo Garcia sofrer sozinho aí", reclamou ele, em vão.

Dividiu-se mais, a oposição, com três candidaturas que passaram a se enfrentar, em vez de focar no adversário comum: ele. Iris Rezende (e Júnior Friboi, por um tempo) no PMDB, Vanderlan Cardoso no PSB e Antônio Gomide no PT disputaram o direito de ser o candidato único como se a eleição estivesse sendo decidida ali.

Quando cada um foi para um lado, mágoas tinham sido criadas, tensões estavam estabelecidas, e o destino do pleito, como se viu, também: no segundo turno, cada um tomou seu rumo. Vanderlan decidiu ficar neutro, Gomide participou só um pouco e Iris ignorou a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, que acabou reeleita.

Ou confiando na sorte (Gomide), ou no designo de Deus (Vanderlan e Iris), ninguém, ao contrário de Marconi, fez a sua parte de construir as condições políticas razoáveis de uma candidatura. Ilustra bem esta constatação a declaração do governador quando do anúncio da prisão do serial killer, em meados de outubro. O caso do serial era um de seus maiores adversários, porque evidenciava os problemas na área de segurança e a falta de competência do Estado.

Preso o matador, disse o governador ao jornal Folha de S. Paulo no dia 15 de outubro: “Certamente foi da vontade de Deus que isso acontecesse agora, porque eu vivi nessa campanha uma série de acusações levianas, mentirosas, demagógicas.” Ato divino? Sorte, já que providencialmente aconteceu no meio do segundo turno, quando o tucano parecia cair nas pesquisas? Ou mais um ato calculado de campanha?

Marconi Perillo voltaria a agradecer a ‘ajuda’ de Deus no primeiro discurso após a confirmação da vitória, dia 26 de outubro. Uma forma de mostrar humildade, à parte a consideração de que a demonstração de fé em momentos de apelo popular não quer dizer que a fé não seja legítima. Lados diferentes de um mesma moeda: o espetáculo e a vida real.

Uma avaliação comum inclusive entre seus apoiadores é que Marconi erra muito, porque frequentemente age por impulso. Sorte, Deus, competência política, são fatores que ajudam a entender seus avanços, apesar dos tropeços no meio do caminho. Uma verdade é que ele compensa tudo com trabalho e persistência. Sem admitir os passos em falso, segue em frente ‘patrolando’ tudo com mídia, esforço político e a máquina do governo (e dos financiadores de campanha, como fez quando esteve no Senado e fora do Palácio das Esmeraldas).

A sua vitória em 2014 tem muito disso. Ele errou muito. Mas não passou recibo. Nem deixou-se abater em momentos difíceis. Foi assim quando contrariou sua base ao dar brecha para o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM) compor com o PMDB, como candidato ao Senado. E quando permitiu que um aliado histórico, o deputado federal Armando Vergílio (SDD), pegasse as malas e se mudasse para a campanha de Iris, como vice.

Caiado era o candidato a senador que seu grupo queria, tanto que foi eleito com apoio de governistas. O próprio democrata admitiu isso, ao avaliar sua vitória. Armando foi a defecção inesperada, e incompreendida. Aconteceu por falta de diálogo. Velhos amigos, os dois vinham se desentendendo há algum tempo, até que o rompimento ficou irreversível.

José Eliton (PP) de novo na vice e Vilmar Rocha (PSD) como candidato a senador foram outras decisões muito pessoais do tucano que em nada representaram a vontade da maioria de sua base. Marconi impôs sua vontade e partiu para a campanha. Não deu certo, porque Vilmar acabou derrotado. Mesmo a boa votação final dele mostra que o esforço de Marconi foi em vão.

Sobre a imposição da vontade, há um ponto muito acentuado por gente bem próxima a ele. No período em que insistiu com sua base que sua candidatura não era fato consumado – primeiro, por conta do que a realidade mostrava, depois como fator de pressão para cobrar engajamento –, ele teria reiterado uma condição para entrar na disputa: fazer o que quisesse.

A importância disso estava na visão de que precisava se libertar das amarras políticas – e fantasmas, como na relação com auxiliares ainda, ou antes, ligados a Cachoeira – que limitaram a formação de seu terceiro governo. Marconi indicava que queria vencer e deixar para traz o longo período de desgastes.

Um passo fora dado na campanha, quando ele chamou para a linha de frente antigos aliados, que tinham se afastado dele por discordar dos passos seguidos na campanha de 2010 e logo depois – ou ficado em segundo plano, como se em ostracismo medido para não se misturarem com os chamados ‘novos amigos’.

Esse desvio de caminhada de Marconi – na consideração dos amigos, que tentam ver nas atitudes de 2014 um reposicionamento de conduta –, ou erro de cálculo na formação do governo, custou caro: produziu guerras internas com formação de grupos ávidos por poder. Desgastes inimagináveis em tempos anteriores.

Nas situações-limite, erros, acertos, sorte, ajuda divina e ‘patrolamentos’ de hoje, o que fica evidente é uma constatação nada nova sobre o tucano: o seu maior inimigo é sempre ele mesmo. Explica a arrancada para a vitória, como explica a avaliação popular negativa que o perseguiu até o final do primeiro turno. Seu ponto forte é seu ponto fraco, foi o que passou despercebido pelos adversários.

Só em campanha, e depois de todo o esforço de mais de um ano de ações intensas e milhões em propaganda e obras planejadas para o período eleitoral – como as iniciadas em Goiânia, onde ele nunca foi muito bem e poderia melar sua reeleição –, ele conseguiu superar uma intenção de voto que patinava no patamar de 35%, para menos.

Conseguiu na hora exata, mostram os números. Porque, no segundo turno, com uma campanha acertada na TV e no rádio, o PMDB trouxe à tona as características que desnudam os seu lado mais negativo – e que, se devidamente contrapostas às virtudes ressaltadas acima no primeiro turno, teriam sido certeiras para sua derrota. É o que indicam pesquisas qualitativas.

O que o PMDB fez na reta final da campanha do segundo turno foi mostrar facetas do comportamento do governador, como a propensão ao autoritarismo e a busca agressiva de uma unanimidade positiva que o faz passar por cima de quem o contrarie, por exemplo, com uma simples observação. Fez isso com a fábula do ‘Rei Mandão’. Era uma vez um rei que morava em um castelo de mentiras – diziam as peças, para então apontar as mentiras.

O novo posicionamento da propaganda gratuita peemedebista não foi o suficiente para catapultar Iris, mas incomodou e assustou Marconi. A reação dele foi entrar na Justiça para tirar do ar o personagem – o que ele conseguiu em parte, porque o ‘Rei Mandão’ virou um fantasma em novas peças, chamando mais atenção – e acusar Iris de partir para a baixaria, para o jogo sujo.

Nada do que foi apresentado pelo novo marketing de Iris, entretanto, mostra isso. A crítica mexia no inconsciente popular, era subliminar, não era um xingatório irresponsável. Na prática, o fato do ‘Rei Mandão’ ter feito tanto sucesso apenas comprova que ele atingiu o objetivo na veia: escancarou o que, para muitos, é uma verdade sobre o governador.

Iris não venceu, mas subiu nas pesquisas e diminuiu sua rejeição. Marconi voltou a ser o mais rejeitado. Terminou com uma votação alta, porém menor que a diferença (20 pontos) indicada nas primeiras pesquisas do início do segundo turno e longe da vontade expressa da campanha tucana de impor ao peemedebista uma derrota que ultrapassasse os 70% dos votos válidos.

Para Iris, o segundo turno foi uma vitória em outro sentido. Perdeu para Marconi, porém diminuiu o espectro negativo de seu histórico e de sua personalidade estabelecidos no primeiro turno por uma estratégia de marketing que, em vez de ressaltar seus pontos positivos, destacou os pontos negativos, firmando-se com mais um adversário que quase o tira logo da disputa.

No primeiro turno, o marketing e o comando político desnorteado foram até o final sem se decidir, entre outras coisas, se faziam oposição de verdade, com críticas ao governador, ou se compravam a tese da ‘campanha propositiva’, artimanha marconista para evitar reação enquanto atacava violentamente os adversários nas redes sociais. Aliás, Vanderlan também não atacou; Gomide, um pouco, no horário eleitoral gratuito.

O momento mais sintomático do descompasso irista ocorreu quando o marketing, enfim, decidiu partir para o ataque usando o caso Cachoeira. Cachoeira, em junho, tinha publicado artigo ameaçando Marconi de revelar casos pouco republicanos, caso continuassem as provocações feitas a ele por governistas. Foi o momento da célebre frase do contraventor para o governador: “Cai pra dentro!”

Em resposta à estratégia peemedebista, Cachoeira publicou outro artigo, atacando Iris Rezende com insinuações de ajuda em campanha e interesses escusos na contratação da Delta em Goiânia, quando ele era prefeito. Iris respondeu aumentando a carga de sua propaganda contra Cachoeira e Marconi. Sem um foco ajustado com a política, jogada ao ar sem o aparato de uma estrutura forte de comunicação para dar consistência às denúncias, e com aliados que pouco demonstravam coragem de tocar nos nomes de Cachoeira e Marconi, a ação resultou em nada.

Coincidência ou não, foi o período em que Iris mais caiu nas pesquisas. No final, a agonia dos apoiadores do peemedebista era torcer para que não caísse a ponto de abrir espaço para Vanderlan, e não ele, chegar ao segundo turno. Vanderlan não cresceu tanto. De todo modo, o Iris de 2014 terminou o primeiro turno menor que o Iris de 2010, em termos de votos nas urnas.

Com marketing desfocado e política de menos, Iris padeceu no primeiro turno um dos mais tristes capítulos de sua história política. Mais impactante, para quem o conhecia e sabia da força que o PMDB um dia teve no Estado, era ver como tudo conspirava para dar errado. A campanha foi, em termos simples, sustentada em uma infraestrutura baseada na desconfiança mútua e generalizada. Todos se sabotavam, enquanto a eleição era sistemática e diligentemente perdida.

Na maior parte do tempo, Iris fez campanha quase sozinho. Isso, em parte, soa como elogio, por seus 80 anos. Por outro, escancarava exatamente o peso dos anos do Iris de hoje, em comparação ao Iris de outrora. Um PMDB rachado, uma campanha sem dinheiro, tudo agindo contra, só poderia acontecer por falta de pulso na condução das coisas. Ou puro desânimo, daquele que faz aceitar, por falta de outros, os únicos que aparecem. Era fato que Iris estava sozinho; mas era fato também que ele é que se colocara nesta condição, e não teve habilidade para consertar.

O PMDB foi um partido irreconhecível na eleição de 2014. Ruim para sua história de máquina eleitoral (dominou Goiás por 16 anos, até 1998), bom para Marconi. A começar pelo comando oficial do partido, muitos preferiram a sombra para não ter que se expor na luta contra o governador. Ou porque tinham medo – como admitiu o ex-senador Mauro Miranda sobre os companheiros de oposição, em entrevista à Rádio 730 –, ou porque tinham interesses não confessados, porém explícitos.

O deputado federal Sandro Mabel, que se posicionou contra o marketing desastroso do primeiro turno, no segundo assumiu o comando total da campanha irista. Mas, em vez de profissionalismo, perdeu-se também ele em amadorismo. Acertou na contratação da nova agência para os programas eleitorais de rádio e TV; injetou ânimo em uma equipe desacorçoada com o resultado de 5 de outubro; desandou na já desarticulada coordenação política.

É creditada à sua falta de habilidade na hora de dialogar a decisão de Vanderlan Cardoso não apoiar Iris no segundo turno, ficando neutro. A neutralidade, claro, foi boa para o adversário. Ele afastou ainda os petistas, já que se posicionou de forma veemente contra a candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff, embora o vice dela, Michel Temer, fosse da sua legenda.

Isso explicaria Dilma ter sido rifada do programa eleitoral gratuito de Iris no rádio e na TV, e a falta de eventos de campanha unindo PT e PMDB em Goiás. Também por obra de Mabel, apoiadores informais dispostos a ajudar em áreas variadas acabaram descartados, sob a alegação de não serem de confiança. Foi o que tirou o marqueteiro de Vanderlan da campanha, Jorcelino Braga. Secretário da Fazenda no governo Alcides Rodrigues, que rompeu com Marconi, Braga participou pouco, apenas na preparação de Iris para os debates em O Popular e na TV Anhanguera.

O incômodo com Mabel no final da campanha era sentido nas declarações de iristas experientes, inconformados. Segundo eles, peças de publicidade para a TV, o rádio e as redes sociais, mais duras nas críticas Marconi, foram inexplicavelmente vetadas de última hora, e o tom, no final, teve que baixar por ordem sua, mesmo as pesquisas indicando que as críticas estavam funcionando.

Para esses peemedebistas tarimbados, Mabel – que saiu do partido para se aproximar do governador, depois voltou – sempre teve um só objetivo: o controle do partido após a eleição. Seu foco principal: ser candidato a prefeito de Goiânia em 2016 e, como ex-aliado de Júnior Friboi, abrir caminho para o empresário disputar o governo em 2018. No governo, a expectativa após o resultado das urnas vai em outra direção: uma aproximação de Marconi com os peemedebistas.

O futuro do PMDB é a grande incógnita que sai das urnas. Muitos querem o espólio. Mabel, Júnior Friboi, o próprio Iris, que disse que não disputará mais eleição, mas quer participar da definição de rumo da legenda. Nessa perspectiva, uma guinada para o governo fica mais difícil. Como torna pouco provável a tomada de poder por parte de Júnior do Friboi.

Capítulo à parte no PMDB, Friboi pode ser definido como aquele que é sem nunca ter sido. Ele chegou ao partido em 2013 (em cinco anos, passou por quatro legendas) prometendo estrutura para 2014; com a força dessa promessa, firmou-se como candidato oficial ao governo; então, na queda de braço com Iris, recuou, mostrando mágoa.

Friboi esperava que Iris, velho guerreiro, entregasse os pontos a seu favor. Simples. No vaivém, Friboi mostrou que tinha dinheiro demais, e habilidade de menos. Desagradou geral, principalmente ex-apoiadores, quando decidiu ficar contra o PMDB e a favor do inimigo Marconi Perillo. Friboi fez tudo certo (como empresário) para tudo dar errado a ele (como político). Desta vez e antes. Vai mudar?

Querem espaço de destaque no PMDB outros dois nomes: Adib Elias e Ernesto Roller. Eleitos para a Assembleia Legislativa, ambos têm características que os diferencia dos atuais integrantes da bancada na Casa: opiniões firmes, coragem para fazer oposição e experiência na tribuna. São bons oradores. Adib já comandou o partido. Ernesto foi secretário de Segurança no governo Alcides Rodrigues.

Incógnita, o PMDB termina a eleição mais dividido do que começou, mas pode fazer dessa indefinição o momento de reflexão e retomada de rumo. A começar pelo novo papel de Iris. Deixando de ser adversário interno dos que buscam oportunidade, ele tem condições se estabelecer como magistrado, ponto de equilíbrio e de referência para a legenda. Há muitas questões em aberto: Caiado, que deu injeção de ânimo aos peemedebistas, continuará próximo? O PMDB nacional vai ensaiar candidatura própria, com afastamento gradual do PT? Como fica a aliança PT e PMDB, que elegeu Iris e Paulo Garcia, em Goiânia?

O PT também tem muito a refletir: a vitória nacional foi um alento, mas o desempenho da legenda no Estado ficou muito aquém do esperado. As guerras internas estão mais acirradas. As relações, tensas como nunca. O partido tem hoje as prefeituras de Goiânia e Anápolis, mas não há qualquer favoritismo para continuar com elas em 2016. Outros prefeitos se aproximaram de Marconi Perillo durante a campanha, em vez de fechar questão com Gomide. E o governo federal, da companheira Dilma, será, enfim, aliado ou inimigo (do PT, do PMDB etc.)? Continuará 'republicanamente' sob uso político do PSDB goiano, para o bem e para o mal?

Vanderlan é outro que precisa acertar o rumo: uma nova derrota poderá ser o fim de uma expectativa de futuro político que teima em não se confirmar. Vanderlan não estruturou grupo político, renega a articulação política como fundamento eleitoral, e aposta na vontade popular com a ingenuidade de quem acredita que basta acreditar para que um sonho se materialize. Nesta eleição, ele negou-se a fazer aliança, e foi o que mais faltou depois. Defendeu uma terceira via que só se materializaria por obra divina; faltou fé. Marconi acena com aproximação. Ele não diz sim, nem não.

Essa soma de fatores consolidados e em aberto é fundamental para que se entenda a formação da nova ordem política no Estado, que começa por uma razão insofismável: esgotamento da atual política. Iris fora das disputas; PMDB em novo rumo; PT repensando a vida; Vanderlan numa encruzilhada; Marconi sem possibilidade de reeleição tendo de lidar com uma base heterogênea ouriçada pelos interesses abertos.

Tudo isso significa um Estado sem dono, inevitavelmente, a partir de uma eleição, a deste ano, marcada por mais do mesmo e que terminou como começou, uma repetição de 2010: Marconi em primeiro, Iris em segundo, Vanderlan em terceiro (Gomide, em quarto, não alterou o quadro). Marconi Perillo, naturalmente, terá participação fundamental no novo arranjo, mas estará igualmente dependente dele. Seu futuro político se encontra, da mesma forma, em aberto.

Mais uma vez, Marconi ganhou de Marconi, e a oposição perdeu para a oposição. O povo goiano continua com o governo que não aprovava antes da campanha e uma oposição que queria ver vencedora mas não correspondeu. Mas... E a nova oposição, neste cenário de ninguém é de ninguém, todos contra todos, como fica?

Não há ‘nova’ oposição, justamente porque a que se apresentou, fracassou em um quesito definido em uma frase pelo senador eleito Ronaldo Caiado em entrevista à Rádio 730 um dia depois da eleição no segundo turno. Questionado sobre questões que sempre levam a conceitos como oposição propositiva, oposição raivosa etc., ele foi direto ao ponto: “Não dá para adjetivar a oposição. Oposição é oposição, governo é governo.”

A que virá, por ora, será oposição a quem, no máximo, precisa administrar a vitória. Vale para o próprio Caiado, que já surge como potencial candidato a governador, em 2018. Na mesma entrevista à Rádio 730, ele deixou claro seu posicionamento: “Não sou político de mesquinharia. Minha posição é de oposição ao governador de Goiás.” Ocorre que o seu adversário em potencial não é Marconi, nem será, e sim outro, que ninguém conhece ainda. Naturalmente o governador estará presente nas articulações, e terá muito a considerar sobre seu futuro, mas não será o alvo principal.

As quatro vitórias, mais a participação de Marconi Perillo na de Alcides Rodrigues em 2006 – que depois foi para a oposição e também perdeu –, escancaram uma realidade: o tucano abriu um ciclo com a vitória sobre Iris em 1998 e fecha outro com vitória sobre o mesmo Iris sem saber o que é oposição de verdade.O fato novo relevante é que ele não poderá ser candidato à reeleição, Iris está fora das disputas e não há candidato natural a nada em Goiás.

As possibilidades são amplas, no Estado. Para o governador, ganhar não é zerar o negativo que quase o faz perder. Não é ignorar os desacertos dos últimos anos em áreas cruciais, como a segurança. Nem eliminar da memória coletiva a relação com Cachoeira ou os processos parados no STJ. É firmar-se como bom de campanha, um político acima da média, no Estado. Partir dopressuposto de que está tudo bem, que ele ganhou carta branca com a reeleição, pode determinar, para baixo, o seu futuro. Por isso, manter o Estado em guerra é um risco.

Como se ocupar de voos maiores, como a sonhada Presidência da República – ampliados com a derrota de Aécio Neves – maiores se aqui ele está exposto? Sem apaziguamento local – pelo menos em relação ao seu nome –, como se dedicar a novos projetos? Vale lembrar que agora a guerra é travada principalmente dentro de sua base, por espaços. Marconi lidará com fogo amigo, como Iris dentro do PMDB no momento em que buscou a Presidência e esbarrou no colega de partido Henrique Santillo.

Jovair Arantes (PTB) sonha com a prefeitura de Goiânia, com o que também sonha o PSD de Vilmar Rocha. E quantos não sonham calados, esperando a hora de cobrar uma fatura de apoio? Roberto Balestra almeja disputar o Senado, e José Eliton (ambos PP) só pensa em assumir o governo, quem sabe nos últimos nove meses de 2018, quem sabe antes. O PR de Magda Mofato quer mais espaço. E tem o PDT da reeleita deputada federal Flávia Moraes e do prefeito de Senador Canedo, Mizael Oliveira. Flávia aderiu antes a Marconi; Mizael (eleito com apoio de Vanderlan), no segundo turno.

Nesse aspecto, pode prevalecer o desejo de marconistas que defendem que o tucano amplie, senão sua base de apoio, a aceitação de seu nome como líder suprapartidário capaz de voo nacional representando o Estado, e não como líder de um partido ou grupo. Estaria aí, por sinal, o desejo de chamar o PMDB para o seu governo, ocupando secretarias e diretorias.

Seria amarrar ao seu lado a maior legenda do Estado, a que mais força teria para impulsioná-lo nacionalmente. Seria igualmente uma artimanha para travar o partido que, conduzido de forma correta, reúne por si só condições de construir um projeto alternativo ao seu no Estado. E seria uma preparação para fazer o sucessor em ambiente não hostil.

O futuro de Marconi será traçado na formação de seu novo governo. Se vai buscar nomes que privilegiam o diálogo, que pensam e trabalham focados na edificação de um projeto mais de Estado e menos de poder apenas. Ou se seguirá com os soldados rasos especialistas em combate às cegas que se locupletam com o espólio de um governo tomado de assalto e preservado com os fins justificando os meios (que se lembre sempre: na campanha atual, ele não apresentou nenhum projeto novo; insistiu o tempo todo no “vai continuar”, “vai melhorar”, “vai seguir”; nada de criar...).

Se fará uma administração de aliados verdadeiros, ou repetirá a atual, armada com a fúria de novos companheiros saídos de acordos de financiamento político (ou não) de campanha. Se erguerá um governo de conversa, ou de confronto. Se insistirá na desconstrução dos inimigos (embora não admita) como política de comunicação, ou se partirá para a construção de uma imagem positiva como líder. Se vai se comportar como estadista ou como Rei Mandão. Um Estado ou um reinado, eis a questão para Marconi.

Ele vê em adversários o que muitas vezes não enxerga em si mesmo. Um dos pontos mais visíveis é que, assim como fala de Iris, não deixou crescer à sua volta qualquer liderança relevante. E que, para continuar mandando e desmandando, terá de contrariar interesses, passar por cima de aliados e impor-se. Como voltar a ser candidato a governador sem contrariar a necessidade de renovação? Como envelhecer sem se apegar ao poder e repisar erros que condena? Será este seu legado: repetir o que aponta como defeito alheio?

O futuro de Marconi e de Goiás não é um ato de vontade particular, por certo. Vai depender do que farão, entre outros, Iris, o PMDB, Vanderlan e o PT a partir do resultado de 2014. O PMDB é o maior não-partido de Goiás. Um campo minado de interesses com um novo interesse se apresentando: o senador eleito Ronaldo Caiado. Tanto pode ir para o governo, quanto ficar onde está: nem lá, nem cá.

O próprio Caiado terá de aguardar o destino nacional de seu partido, o DEM. Vai se fundir ao PSDB? Vai mudar de nome? É sabido o projeto do democrata de disputar o governo. Ele vem se preparando para isso. O desafio, em toda caso, começa agora. É sempre criticada sua falta de habilidade para a composição política. Ao mesmo tempo, é elogiada sua coragem para se posicionar. Ele vai conseguir aglutinar?

A reeleição de Marconi zera tudo porque os interesses de todos esses e outros políticos estão cruzados. Não há barreira ideológica, ou quedas de braço que não possam ser resolvidas em nome de um projeto comum. Se Marconi planeja união ampla, todos poderão trabalhar com a avaliação de que ele agora é magistrado, e magistrado não se indispõe com aliados que precisa ter ao lado para construir projetos maiores. Mas se o que ele fará é ficar no caminho, então poderá ser atropelado. Quem sabe a derrota venha pelos aliados, já que pelos adversários isso teima em não acontecer...

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