‘História’, sinônimo de ‘povo’

"O cenário, portanto, é favorável à democracia. O povo brasileiro deu sua resposta silenciosa e pacífica aos horrores de um golpe covarde, inspirados pelo pacifismo de Lula, que sempre se negou a acirrar o discurso e os punhos, senão como metáforas da revolução permanente que deseja o amor, o trabalho e a felicidade", diz o linguista Gustavo Conde a respeito da cena eleitoral que se desenha no horizonte; para Conde, o golpe e a Globo perderam todas e caminham para a execração pública

‘História’, sinônimo de ‘povo’
‘História’, sinônimo de ‘povo’ (Foto: Ricardo Stuckert)

O eleitor brasileiro passou por um verdadeiro processo de espancamento midiático-judicial desde o início deste ano eleitoral, tão atípico quanto dramático. A incerteza em torno da candidatura Lula, legítima na inteireza do ser, tornou a percepção eleitoral indócil.

O sistema judicial do vale-tudo, partidarizado e desgastado depois da maratona de violências sistemáticas dirigidas à democracia e ao povo brasileiro, estressou o processo eleitoral, processo este que sempre demandou cuidado e delicadeza.

A democracia não é um protocolo trivial de civilização. Há de se ter disciplina, há de se ter humildade, há de se ter amor, há de ter atenção. Há de se ter respeito estrutural por suas premissas básicas, como o reconhecimento de uma singela derrota eleitoral, para se dizer o mínimo.

A instituição ‘eleição’ foi duramente violentada no Brasil. O brasileiro trabalhador que sempre gostou de uma eleição - que aprendeu a gostar de eleição sobretudo após 20 anos de ditadura sangrenta - viu sua identificação abalada com tanta pistolagem judicial-midiática.

Nós, brasileiros, caros leitores, passamos 20 anos de nossas vidas pedindo por eleições. O significado de ‘eleição’ tomou corpo e se adensou após a redemocratização e após a Constituição de 1988.

A frustração das ‘Diretas Já’ de 1984, foi o nosso ‘maracanazo’ eleitoral, o trauma que nos transformou no país da democracia (como o ‘maracanazo’ original, que nos transformou no ‘país do futebol’).

Essa significação tão profunda e visceral foi estuprada pelo inacreditável golpe de Michel Temer em aliança espúria com o PSDB. Nós estamos em plena cicatrização desta infâmia. Há de se ter alguns cuidados, no entanto, de olho em possíveis infecções na derme social.

O melhor antibiótico é entender o que levou a cena eleitoral brasileira a esse estado de singularidade (para assim assegurar uma leitura mais conectada com os desafios postos pela disputa real que se desenrola sob a cortina pública das candidaturas).

Os veículos de comunicação, em parceria promíscua com o poder judiciário, produziram uma desaceleração do processo eleitoral: eles literalmente a retardaram.

A campanha eleitoral começou tarde demais, a despeito de ainda assim ter permitido o crescimento vertiginoso de Fernando Haddad, o candidato que assusta o sistema.

Era mister para os grupos de poder que essa campanha ‘não acontecesse’. Porque o cálculo é bastante simples: campanha em curso, candidatos prepostos, tubos de ensaio e congêneres tendem ao auto aniquilamento.

Não estamos mais em 1989, quando um Fernando Collor era possível, ou mesmo em 1994, quando um Fernando Henrique foi viabilizado por acertos de bastidores, com zero participação popular. Candidatos fabricados pelos interesses do mercado e pela conhecida estrutura social viciada do andar de cima, hoje, encontram sérias dificuldades de serem gestados.

Basta lembrar de Luciano Huck, de Joaquim Barbosa e de Flávio Rocha. Todos fracos, todos covardes, todos furiosamente vazios. Esses experimentos de mau gosto foram meros tubos de ensaio que explodiram antes mesmo de o laboratório ser aberto: escorreram pelo ralo da insignificância que lhes constitui o osso.

Ao fracassar com essas verdadeiras pérolas do nonsense político, o nosso consórcio midiático-judicial, teve que interferir na estrutura do processo eleitoral. Sem candidato e apenas com arremedos de candidato, como Alckmin e Bolsonaro, eles operaram para retardar o início oficial das campanhas.

Como conseguiram isso? Com Lula sendo acossado e perseguido pelo poder judiciário, óbvio. O maior líder político do país em situação de incerteza é a própria política em situação de incerteza. Foi um xadrez assaz complexo, em que o PT teve que aceitar o jogo e, mais uma vez, jogar com extrema competência, guiado pela intuição desproporcional de Lula.

Foi arriscado, mas é um embate para quem não tem medo.

Neste cenário, faltava ainda, para o consórcio midiático-judicial, o embargo da transferência de votos de Lula para Haddad, plano igualmente fracassado.

O que esses operadores sem face desconhecem – e negam – é que os tempos mudaram. A internet não permite mais protocolos hierarquizados de sabotagens nos mercados da informação casada (casada com subprodutos judiciais).

A reação em escala e em caracteres digitais a essas tentativas grotescas de frear o debate público – que tende a ser fatalmente politizado e qualificado, se assim o permitirem – frustrou o consórcio do poder financeiro que tem fobia de povo. Eles perderam todas.

Só restou retardar mais um pouco o início real da campanha, pegando carona no fatídico episódio da facada em Bolsonaro. O ex-militar ficou três semanas em um hospital, isolado e blindado de qualquer processo eleitoral, mantendo sua posição artificial no topo das pesquisas de intenção de voto.

Essa proscrição foi muito providencial para a Rede Globo, artífice máxima de toda a operação do submundo político brasileiro há bons 50 anos. Bolsonaro numa cama de hospital congelou a eleição, deixou-a em processo de ‘espera’. É semiótico.

Isso atrasou muitas coisas. Haddad era para estar muito mais à frente na corrida eleitoral. O próprio Bolsonaro estaria – caso não houvesse facada nem internação – caindo pelas tabelas, processo que só teve início neste exato momento, a apenas 10 dias das eleições.

Essa manipulação do tempo semiótico das eleições sempre foi uma estratégia básica da Rede Globo, que orienta sua massa de jornalistas a um protocolo muito preciso de obscuridade discursiva.

Note-se: quando o PT estava no poder e se insinuava favorito à reeleição, a campanha começava dois anos antes do pleito, com pautas diárias e muito invasivas.

Com um golpe em curso, a ordem é segurar o máximo o início do processo eleitoral. A razão disso é até gratificante: eles sabem que no debate não tem como vencer o campo progressista no Brasil. O Brasil é um país naturalmente progressista, diferente do que muitos intelectuais de gabinete acreditam.

Essa febre fascista é nada mais do que isso: uma febre. Ela chama a atenção, justamente por não representar a natureza ideológica da sociedade brasileira.

De sorte que o início real da campanha eleitoral real atrasou muito e, a partir de agora, teremos um deslocamento inédito do eleitorado, que terá de correr para ocupar suas posições históricas.

Isso significa que Bolsonaro irá derreter como manteiga na frigideira. Que Alckmin vai recuperar algumas posições, a despeito de sua severa fragilidade verbi-voco-visual. Que Fernando Haddad corre o risco de vencer já no primeiro turno, revestido da afetividade que emana de Lula e do povo que ama Lula.

O cenário, portanto, é favorável à democracia. O povo brasileiro deu sua resposta silenciosa e pacífica aos horrores de um golpe covarde, inspirados pelo pacifismo de Lula, que sempre se negou a acirrar o discurso e os punhos, senão como metáforas da revolução permanente que deseja o amor, o trabalho e a felicidade.

No final das contas, o golpe nos será purificador. Ele reorganizou a sociedade brasileira em torno de Lula, do PT e, agora, de Haddad. A malta amadora do PSDB e de Temer voltará às suas respectivas insignificâncias históricas e serão a bola da vez da justiça assim que entrar o ano de 2019, um ano em que muitos desses canalhas estarão sem foro privilegiado.

A história é assim mesmo. Ela reage ‘sozinha’, por incrível que pareça (porque a história é sinônimo de povo).

 

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