Hitler mandava, Eichmann obedecia

Inevitável a comparação com a “normalização” das 2 mil mortes diárias por Covid-19 no Brasil e com a incapacidade de serviçais como Pazuello de enxergarem sua responsabilidade, seja por ações equivocadas, seja por inação



Por Paulo Henrique Arantes

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) encontrou semelhanças comportamentais entre o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e Adolf Eichman, oficial-burocrata responsável pela logística do extermínio de judeus sob as ordens de Hitler. Vieira acertou. Julgado e condenado à morte por um tribunal israelense no pós-guerra, Eichmann alegou perante seus julgadores, em suma, que o fuhrer mandava e ele obedecia.

O livro seminal “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, mais do que analisar as idiossincrasias do processo contra o operador nazista, faz um profundo retrato de sua personalidade. Um cumpridor de ordens, cego para todo o resto. O resultado da obediência canina foram 6 milhões de judeus mortos.

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Arendt concluiu que Eichmann não tinha régua moral para opor-se às determinações do Reich no sentido da “solução final” – o assassinato de todos os judeus. Nada poderia ser mais correto para ele do que cumprir as determinações do Estado nazista.

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Assim escreveu a filósofa alemã, que decifrou a banalidade do mal: “O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas instituições e de nossos padrões morais de julgamento, essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas”.

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Inevitável a comparação com a “normalização” das 2 mil mortes diárias por Covid-19 no Brasil e com a incapacidade de serviçais como Pazuello de enxergarem sua responsabilidade, seja por ações equivocadas, seja por inação.

Na conclusão do seu livro, Arendt externa o que diria a Eichmann, fosse ela componente do corpo de julgadores do criminoso: “Você admitiu que o crime cometido contra o povo judeu durante a guerra foi o maior crime na história conhecida, e admitiu seu papel nele. Mas afirmou nunca ter agido por motivos baixos, que nunca teve inclinação de matar ninguém, que nunca odiou os judeus, que no entanto não podia ter agido de outra forma e que não se sente culpado. Achamos isso difícil, mesmo que não inteiramente impossível, de acreditar; existem algumas, embora não muitas, provas contra você nessa questão de motivação e consciência que podem ficar além de toda dúvida”.

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Em termos de recado aos mentirosos dos mais variados tribunais, nada se compara ao que Arendt diz a seguir, em mensagem direta a Adolf Eichmann: “Suponhamos, hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e portanto apoiado ativamente, uma política de assassinato em massa. Pois a política não é um jardim-de-infância; em política, obediência e apoio são a mesma coisa”.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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