Homos sapatênis

Destituídos de qualquer solidariedade fora de sua matilha, costumam debochar de grupos marginalizados e atribuem ao mercado milagres que me fazem crer que professam uma religião própria

Shopping no centro de Brasília tem movimento intenso no último fim de semana antes do Natal
Shopping no centro de Brasília tem movimento intenso no último fim de semana antes do Natal (Foto: Igor Santos)

Nessa manhã no caminho para o trabalho, pude perceber algo inusitado e que estava ali desde sempre. Não é incomum que liberais façam chacota sobre o socialismo a partir de coisas como uniformes, padronização das vestimentas e escassez de individualidade.
Pois bem, ocorre que não vi um exército de jovens coreanos com seus ternos sem lapela. O que vi, pasmem! O que percebi, aliás eram jovens homens entre 25 e 30 anos, com crachás, calça de sarja azul marinho ou preta e camisa social variando em tons de azul claro. Alguns com barba aparada, outros devidamente barbeados.

Todos, sem exceção, dentro de seus smartphones, alguns no Happn e outros no Tinder, alguns no WhatsApp ou mesmo Facebook. Da estação Tamanduateí até a Brigadeiro, entravam e saíam jovens com essa peculiar indumentária. O ''HOMOS SAPATÊNIS".

Pelos crachás era possível notar os locais de trabalho, concessionárias, bancos, lojas automotivas ou startup's com nomes usando apóstrofe.

Das 9 horas ao meio-dia e meia desconheço onde eles ficam, que idioma falam ou o que fazem em suas respectivas funções. Alguns reaparecem no horário de almoço pelas calçadas da Avenida Paulista. Neste momento é possível notar a pluralidade de seus pensamentos.

Numa paleta de assuntos que vão desde comentar sobre mulher, passando por futebol e análise política. Não posso esquecer das dicas sobre Whey Protein, frango e batata doce. Afinal, homos sapatênis não malha, ele treina e fala BIRLLL! Sabe de tudo de NFL também.

Dias atrás, a conversa no almoço, em um restaurante por quilo na Alameda Jaú, era sobre o filme novo da Marvel, causava arrepios como um dos jovens chamava um dos personagens de mito. Fui percebendo que o adjetivo ia se contraindo até se tornar verbo, mais ou menos assim ''fulano mitou com aquele poder''. A sequência de qualquer dos papos do almoço é sempre interrompida com algum desses em qualquer lugar do restaurante apontando para o noticiário e falando algo que possivelmente aprendeu com o papai, sobre polícia, vitimismo ou vagabundo.

O homos sapatênis se alimenta de frango, whey protein, batata doce e uma dose de virilidade frágil. Andam em matilha, normalmente sem gêmeas da espécie. Seu habitat são lugares como festas ou shows de sertanejo universitário regado a vodka com energético. Também podem ser vistos no Instagram com suas fotos em academias, não esquecendo das frases motivacionais. Destituídos de qualquer solidariedade fora de sua matilha, costumam debochar de grupos marginalizados e atribuem ao mercado milagres que me fazem crer que professam uma religião própria.

''Ninguém mandou invadir, agora aguentem!'', brada um dos homos sapatênis para os outros, um deles retruca ''São todos vagabundos, ali ninguém quer trabalho, só bolsa família. Bolsomito neles!''. Rezo um terço mentalmente para não ouvir ''imposto é roubo'' ou algum discurso sobre meritocracia.

E então retorno ao início do texto, lembrando daqueles que para satirizar o socialismo apontam para a supressão de individualidade. E apenas uma pergunta ronda meu pensamento enquanto converso com uma colega de trabalho.

Quem critica os terninhos iguais da Coreia do Norte, já pegou a linha verde às 8 horas ou foi numa festa do homos sapatênis?

Quer ver extinção do pensamento subjetivo? Escute um desses falar sobre sociedade, economia ou política.

Um espectro ronda, um espectro usando sapatênis.

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