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Sara Goes

Sara Goes é jornalista e âncora da TV 247 e TV Atitude Popular. Nordestina antes de brasileira, mãe e militante, escreve ensaios que misturam experiência íntima e crítica social, sempre com atenção às formas de captura emocional e guerra informacional. Atua também em projetos de comunicação popular, soberania digital e formação política. Editora do site codigoaberto.net

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Hugo Motta: aprendiz de feiticeiro

Presidente da Câmara fala como quem administra uma crise contínua

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Foto: Marina Ramos/Agência Câmara )

“Não tivemos um ano fácil, foi um ano de muitos desafios, um ano de embates, mas o ano que o Congresso Nacional não faltou ao governo do senhor.” A frase estabelece um limite claro para a relação entre Executivo e Legislativo. Ela não aponta convergência nem compromisso duradouro. Serve apenas para registrar que a convivência institucional não colapsou.

É a partir desse enunciado contido que se pode compreender o personagem político que hoje ocupa o centro do palco. Hugo Motta fala como quem administra uma crise contínua sem admitir o papel que teve na sua formação. O Congresso, segundo ele, cumpriu o mínimo necessário. Nada além disso foi prometido.

A metáfora do Aprendiz de Feiticeiro ajuda a organizar essa leitura. No poema de Johann Wolfgang von Goethe, depois difundido por programas infantis, o aprendiz tem acesso às palavras do feitiço, mas não domina o momento de fazê-lo cessar. O conhecimento operacional existe. A autoridade para controlar seus efeitos, não.

Hugo Motta não aparece como criador de um método próprio. Ele ocupa um espaço já definido e utiliza práticas consolidadas antes de sua chegada. O domínio do ritmo legislativo, o uso do orçamento como instrumento de comando e a centralidade das emendas já estruturavam o funcionamento da Casa. Motta tenta conduzir esse arranjo com um discurso de conciliação. A aposta é que a previsibilidade compense a falta de imposição simbólica. Na prática, essa substituição nem sempre se sustenta.

O problema se torna visível quando o controle escapa. As Emendas Pix passaram a funcionar como o principal meio de fortalecimento de bases locais. Ao ampliar o volume e reduzir o cuidado, Motta tornou a operação mais exposta. Municípios pequenos passaram a receber valores elevados, chamando atenção institucional. O que deveria reforçar autoridade passou a gerar desgaste político.

A tentativa de organizar a Câmara por meio de um consenso amplo aprofundou essa fragilidade. A articulação entre cúpulas produziu uma imagem de estabilidade inicial. No plenário, porém, as expectativas não foram atendidas com a rapidez esperada. A confiança se deteriorou. Deputados deixaram de responder automaticamente à condução da Mesa. O consenso mostrou-se instável porque não entregou resultados no tempo exigido pela lógica cotidiana do poder.

O episódio da derrubada do IOF explicitou esse limite. Para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a derrota representou quebra de acordo. Para Motta, foi um erro de cálculo que exigiu resposta pública. Ao levar a disputa para as redes sociais, ele deslocou o conflito para um terreno em que a autoridade raramente se recompõe. A necessidade de explicação expôs a perda de controle da situação.

O risco que se desenha não é o de um operador excessivamente poderoso. É o de alguém que aciona conflitos sem dispor de força política suficiente para administrá-los quando se ampliam. A governabilidade se fragiliza pela acumulação de crises evitáveis e pelo manejo impreciso dos instrumentos disponíveis. Quando a crise se instala, o aprendiz atrapalhado já não tem autoridade para contê-la.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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