Ilusão de liberdade e manipulação na grande rede

Colunista Lucio Lauro afirma que, no "imenso sistema global de conexões em rede que, em sua nascente, chegou a propor uma liberdade total que se mostrou ilusória". "A pseudoliberdade disseminou a ideia de que as conexões virtuais seriam capazes de levar as pessoas onde elas desejassem ir, através de navegações sem barreiras e fronteiras", diz

(Foto: Divulgação / Reuters)
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Não faz muito tempo que me perguntaram sobre o porquê de acreditar que não se deve olhar com olhos demasiadamente no passado quando se quer pensar as recentes rupturas e abalos que países diversos vêm sofrendo em suas estruturas sociopolíticas, uma vez sendo essas, alvos de manobras típicas de guerras híbridas. 

Indo ao ponto, sem pretender esgotar a questão, creio que esses movimentos vigentes, de caráter disruptivo, trouxeram consigo transformações bastante radicais, que dizem respeito às comunicações, aos relacionamentos interpessoais, aos novos canais e superfícies através das quais se estabelecem laços e contatos.

Os movimentos em curso apresentam diferenças sensíveis entre si. Eles são adaptados às particularidades culturais de cada uma das demografias alvo e das já atingidas. Hoje, esses eventos estão fortemente marcados e influenciados pelo poder de alcance da internet, esse imenso sistema global de conexões em rede que, em sua nascente, chegou a propor uma liberdade total que se mostrou ilusória. A pseudoliberdade disseminou a ideia de que as conexões virtuais seriam capazes de levar as pessoas onde elas desejassem ir, através de navegações sem barreiras e fronteiras1.

Do percurso iniciado junto ao encantamento dessa ilusão de liberdade até o ponto dos atuais golpes, revoluções coloridas e guerras em rede, estamos descobrindo que não há transparência, de fato, nos processos virtuais estabelecidos na grande rede. Em contrapartida, paga-se um preço alto no mercado capitalista das emoções, onde outra espécie de transparência se apoia na produção de uma exposição incessante de usuários que são exortados a falar, a postar, a se expor, a curtir, a compartilhar, a vigiar e ser vigiado, a consumir e ser consumido.

Para se construir relações menos invasivas, violentas ou sujeitas à manipulação e controle em rede, não basta criar normas reguladoras específicas que barrem e punam excessos e ações criminosas. Ainda que já se tenha conhecimento sobre o vazamento de dados de pessoas pelo Facebook e da participação de agências privadas, com financiamentos milionários, em eleições de diversos países (algumas dessas, detentoras de know-how na aplicação de “operações psicológicas” [PSYOPs] para fins variados), os usuários permanecem sem nenhum preparo para se proteger no ambiente virtual. 

A velocidade e a capacidade de alcance da comunicação que são características da grande web constituíram um campo fértil para o surgimento e a proliferação de agências especializadas em análises psicossociais e métodos pautados em psicometria, capazes de fabricar campanhas de propaganda usando enormes bancos de dados com perfis psicológicos detalhados de milhares de potenciais eleitores e consumidores.

Em sua página na internet, uma dessas conhecidas agências propagandeia como conseguiu operacionalizar estratégias personalizadas para manipular e influenciar nos resultados das campanhas eleitorais e plebiscitárias em diversos países. E, ao visitar outra dessas páginas, de uma diferente empresa do mesmo ramo, causa perplexidade constatar a presença de estrategistas militares compondo o seu portfólio de profissionais, lado a lado com psicólogos e analistas de dados, o que leva a concluir que essa modalidade de comunicação, ancorada no uso indevido de informações pessoais, tornou-se, de fato, um artefato de guerra. 

Ainda não se pode prever as reais consequências desse tipo de instrumentação das linguagens, que permanecem sem a devida regulação, no que toca as estruturas das democracias do modo que até então as conhecemos.

A grande rede e seus diversos sítios, como as plataformas sociais, não são acessíveis de imediato. São, na realidade, espaços normalmente mediados por sistemas operacionais comercializados (pagos), como os da Microsoft (Windows) e da Apple (MacOS), ou de software livre e código aberto, normalmente gratuitos e mantidos por comunidades de desenvolvedores, como é o caso das diversas distribuições Linux. Desse modo, fica a reflexão se o caminho para projetar uma supressão de manipulações indevidas de dados, de controle e vigilância expositiva na internet, passa por um movimento de desassociação das redes sociais, ou se é necessário, também, um aprofundamento maior sobre o funcionamento dos programas que fazem parte da mediação entre os indivíduos e a grande rede.

Em suma, além da necessidade de uma regulamentação de proteção de dados pessoais dos usuários, com as devidas sanções legais, faz-se necessário também que se insira no processo de conhecimento da linguagem esse novo tipo de comunicação. A comunicação em rede e a sua articulação nas modalidades de linguagem falada, escrita e imagética, muitas vezes conjugadas.

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