Ilusões de ética

A liberdade de Lula reafirmou a tese de o ex-presidente ser maior que seu partido. Bastaram poucas semanas de festa e discursos para que houvesse um sopro de esperança nas alas progressistas da política

Foto: Francisco Proner Ramos
Foto: Francisco Proner Ramos
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A liberdade de Lula reafirmou a tese de o ex-presidente ser maior que seu partido. Bastaram poucas semanas de festa e discursos para que houvesse um sopro de esperança nas alas progressistas da política. É ponto crucial a necessidade de ruptura e rejeição à conciliação, mote da ascensão ao poder duas décadas atrás.

Nossas dívidas sociais não foram resolvidas ou pagas e esse é o maior entravepara o desenvolvimento pacífico do país. Um deputado praticar crime de racismo, a permissão a símbolos nazistas ou o presidente enaltecer o golpe militar de 1964 são faces da submissão tolerante que nos condena a um retrocesso civilizatório sem igual em nossa história. Somente com o uso de vírgulas é que as palavras “Bolsonaro”, “verdade” e “cultura” puderam aparecer na mesma frase de jornalistas condescendentes ao ocupante do Planalto, dizendo que ele tem “uma relação complicada com a verdade”, quando o correto seria afirmar peremptoriamente que é um mentiroso.

Nesse contexto, às vésperas do Dia da Consciência Negra, chamou a atenção queas imagens da manifestação na Avenida Paulista defendendo Bolsonaro e seus milicianos mostram quase exclusivamente pessoas brancas. Ainda que em número bastante reduzido, aqueles atiradores de tomate – mesmo ao preço que está – representam muito bem a desconexão com a realidade dos supostos movimentos políticos no país.

Os sinais e as atitudes de ataque à democracia estão mais do que evidentes e aSuprema Corte tem feito ouvidos moucos ou atuando letargicamente para coibi-los. Que a constante vigilância clamada pelo magistrado se traduza também no resgate da Justiça com maiúscula que o povo brasileiro merece.

De um lado, corruptos, de outro, corruptores, e no final e ao cabo, condenaçõessem provas, delações forçadas e forjadas, depoimentos selecionados ao bel prazer dos acusadores em conluio com juízes e a corrupção grassando pelo país com outros nomes e atores. Isso perdurará enquanto a justiça não entender o conceito republicano da relação harmoniosa entre os poderes e os governantes não tiverem um mínimo de conhecimento e cultura do seu país.

Os Bolsonaros praticam o teste do limite da opressão ignorante permitida. Desdequando existem politicamente, abusam do discurso do ódio, da defesa de uma direita reacionária que se imaginava em extinção e do benefício explícito dos interesses pessoais e familiares. Ainda que sejam evidentes os crimes cometidos pelo filho Carlos, o vereador não será passível de punição, face à rede de proteção armada em torno do clã. Em tempos de fake news, o bom jornalismo está sendo destruído, infelizmente, e não mais considerado por quem poderia e deveria tomar as rédeas da condução da verdade.

28 de novembro foi um dia que amanheceu com o TRF-4 desrespeitando o STF,um negro negando a escravidão e o racismo e o presidente, mesmo sendo denunciado por crime contra a humanidade, permitindo a promoção da religião como política de Estado. A visão distópica de um futuro de carros voadores se transforma em realidade trágica. As vias democráticas estão sendo insuficientes para coibir a loucura oficialmente imposta ao país. Um autoritarismo iniciado há pelo menos um ano pela força das palavras ignorantes, além do arresto de bens públicos. Não se consegue acompanhar o despautério do desgoverno, cujo destaque foi ainda o ataque aos Beatles e ao rock´n roll, como fontes demoníacas do comunismo, além do prêmio ambiental  “fóssil do dia”. Estamos sendo ridicularizados pelo mundo e aplaudimos o napoleãozinho fascistoide.

Mesmo com toda essa ilusão reconhecida, organizar a oposição não é tarefasocialmente bem equacionada. Sigamos o exemplo da militância acampada na porta do cárcere em Curitiba: denunciar o crime de prisão política de Lula e insistir na resistência.

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