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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Imperialismo do século XXI

A história da América Latina já não será a mesma a partir de agora

O presidente dos EUA, Donald Trump - 19 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

Depois de preparar o clima, com uma escalada de declarações, sem nenhuma prova, sobre o comprometimento do presidente da Venezuela com o narcotráfico, o governo norte-americano interveio militarmente no país e sequestrou o presidente Nicolás Maduro.

A escalada de acusações foi preparando o clima para essa brutal intervenção do governo de Donald Trump, que agora diz ter levado o presidente venezuelano para os Estados Unidos, onde seria submetido a um julgamento pelas acusações sobre as quais o governo norte-americano não apresentou nenhuma prova.

Uma brutal intervenção, que revela o caráter do imperialismo no século XXI. Voltam as formas de intervenção direta, com a novidade do sequestro do presidente de um país.

E agora virá o espetáculo do julgamento de Maduro, em Nova York, quando teriam de ser reveladas as provas das acusações que o governo Trump não se cansou de fazer — sem nenhuma prova.

Monstruosa a intervenção norte-americana na Venezuela, que não consegue mudar o regime e que parece manter continuidade institucional, mesmo na ausência de Maduro. Embora Trump reafirme que, apesar da declaração de que não haveria mais ações na Venezuela, os destinos do país e do petróleo venezuelano estariam nas mãos do governo Trump, paradoxalmente. Querem dar a impressão de que agora controlam o poder na Venezuela. Valem-se, provavelmente, do fato de que não houve grandes mobilizações internas de apoio a Maduro, ao contrário de quando houve a tentativa de golpe contra Hugo Chávez.

É um precedente brutal, como afirmou Lula, em sua declaração. O que será do continente depois dessa intervenção? O que podem esperar outros países, como a própria Colômbia, cujo presidente foi alvo de ataques similares aos feitos contra Maduro?

Trump diz que estão reafirmando o poder dos Estados Unidos no continente. Como pensam que podem agir na América Latina? Dizem que se encarregarão do futuro do petróleo da Venezuela. Como farão isso, se contam com o apoio do governo da Argentina, mas com a rejeição de governos como os do Brasil, do México, da Colômbia, do Chile, entre outros?

Mas o continente terá que conviver com um poder imperialista do século XXI, violento e intervencionista. Como se poderá conviver com uma potência que já demonstrou sua disposição para intervenção militar direta e até mesmo para sequestrar o presidente de um país latino-americano?

A história da América Latina já não será a mesma a partir de agora. Os governos do continente que condenam essa intervenção terão que discutir como agir, como reagir, como se comportar frente ao governo de Donald Trump, a partir da brutal intervenção na Venezuela.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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