Império exibe golpismo sem pudor

"Ao assumir seu papel na queda de Evo Morales, executivo da Tesla confirma a responsabilidade de empresas multinacionais nas derrotas da democracia", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Reuters)
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Num sinal de enfraquecimento da democracia, nesta segunda década do século XXI patrocinadores de golpes de Estado já não pedem desculpas. Exibem seu feito sem remorso – forma de deixar clara a disposição de fazer tudo outra vez. 

Foi assim que, ao ler no twitter uma crítica a atuação de sua empresa na queda do governo Evo Morales, na Bolívia, o bilionário Elon Musk, executivo da Tesla, um dos gigantes de tecnologia do planeta, reagiu em tom de ameaça. Afirmou que é capaz de "dar golpe em quem quiser".

Para deixar claro que não vê motivo para mudar de atitude, ainda acrescentou:  "Lidem com isso", numa com arrogância típica de quem está pouco ligando para possíveis consequências – políticas e diplomáticas – de uma confissão com tamanha gravidade.

Ninguém irá negar a presença de interesses imperiais  em golpes de Estado ocorridos na América do Sul, inclusive em países de maior peso geopolítico – como  no Brasil de João Goulart e Dilma Rousseff, na Argentina peronista, no Chile de Salvador Allende, para ficar em casos clássicos.

Na Bolívia, onde um golpe militar derrubou o Juan José Torres e fechou a Assembléia Popular, em 1971, o governo foi assumido por Hugo Banzer, oficial de ideias fascistas e declarado respaldo norte-americano, atraído por outra riqueza mineral do país – as reservas de estanho.

Mesmo alimentado por uma grande hipocrisia, o respeito à autonomia dos povos, que está na base da diplomacia e do convívio civilizado entre os povos, impedia manifestações de tamanho descaramento. Não mais – mostra Elon Musk.

Matéria prima das baterias de automóveis e também de aparelhos celulares, as reservas de lítio boliviano, entre as maiores do mundo, estavam na base do projeto econômico do governo Evo Morales, derrubado quando sua reeleição representava a continuidade de um programa de desenvolvimento autônomo, capaz de beneficiar uma população historicamente excluída.

Nomeada presidente após o golpe, candidata numa eleição presidencial já adiada duas vezes, a senadora Jeanine Añez formou uma chapa onde o candidato a vice Samuel Doria Medina, faz campanha como testa-de-ferro da Tesla e propõe abrir o país para a empresa de Elon Musk explorar diretamente as reservas de lítio.

A Bolívia de hoje até parece uma fábula colonial da qual todos conhecem o desfecho mas a história pode produzir novas surpresas.

Em eleição marcada para 18 de outubro, o economista Luiz Arce, candidato do MAS, partido de Evo Morales, aparece como favorito absoluto. Apesar da tradição golpista e da eterna arrogância imperial, nesta conjuntura precisa a vontade da Casa Branca não é garantia absoluta.

Personagem indispensável para intervenções desse vulto,  na segunda quinzena de outubro Donald Trump estará ocupado demais com a própria sobrevivência diante de Joe Biden, quem sabe impedido de prestar o auxílio que Elon Musk e sua turma gostariam.

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