Império não desistirá

Em artigo, Marcelo Zero constata que, "além da cooptação ser mais difícil, a capacidade de a Venezuela resistir a uma guerra assimétrica é bem maior. Uma intervenção militar enfrentaria grande resistência, não só das forças regulares como das milícias bolivarianas. Poderia ser, de fato, algo parecido a um novo Vietnã. O Império, contudo, não desistirá em seu intento de derrubar Maduro", opina

Império não desistirá
Império não desistirá

A segunda tentativa de golpe do moleque da CIA na Venezuela, Juán Guaidó, fracassou de forma monumental, para tristeza do moleque de Trump no Brasil e, sobretudo, para desconsolo da nossa imprensa conservadora, que torceu descaradamente pelo sucesso da empreitada ilegal, inconstitucional e criminosa.

Não há dúvida de que Maduro saiu fortalecido do episódio e de que Guaidó, peça patética e descartável na briga geopolítica que envolve a Venezuela, poderá ser substituído por outro títere um pouco menos ridículo.

Porém, essa segunda batalha vencida por Maduro não significa que a guerra está ganha.

De fato, da batalha ganha, com brilhantismo, pelos bolivarianos, restaram dois fatos preocupantes.

O primeiro tange ao sucesso da CIA em cooptar o chefe do “Servicio Bolivariano de Inteligencia Nacional” (Sebin), general Manuel Christopher Figueroa, que teria fugido para Porto Rico, despois de ter colaborado na execução da tentativa de golpe e na libertação de Leopoldo López, o líder da extrema direita venezuelana. Embora não comandasse tropas, Figueroa ocupava posto central na defesa do governo constitucional.

O segundo tange à promessa ou suposta promessa de adesão ao golpe de algumas figuras importantes do governo bolivariano. Segundo John Bolton, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, o presidente da Suprema Corte, juiz Maikel Moreno, e o comandante da guarda presidencial, Ivan Rafael Hernández Dala, entre outros, teriam prometido apoio ao moleque da CIA.

Tal revelação permite várias interpretações. Pode ser simples contrainformação destinada a provocar suspeitas contra quadros importantes do governo. É possível também que tais “promessas” tenham sido feitas para precipitar e fazer malograr o golpe, expondo, dessa forma, os mecanismos criminosos dos golpistas. Ou seja, é possível que a CIA tenha sido enganada em seu próprio jogo.

Mas também é factível que tais promessas tenham sido genuínas e que não concretizaram porque, chegada a hora, constatou-se que a correlação de forças dentro dos exércitos venezuelanos ainda não era favorável aos golpistas.

Essa última hipótese é deveras preocupante, pois revelaria que o sistema de cooptação estaria funcionando e poderia, com o tempo, amealhar apoio suficiente nas forças armadas da Venezuela para a promoção de dissenções capazes de propiciar um golpe militar.

Não seria tarefa fácil, contudo.

A Venezuela vem se preparando para uma guerra assimétrica, não-convencional, desde, pelo menos, 2006, quando foi oficializado o “Nuevo Pensamiento Militar Venezolano”.

Nessa nova estratégia militar, a defesa não se assenta mais apenas no exército regular, mas numa amálgama entre as forças regulares e a “resistência popular”.

Com efeito, o cenário de conflito com o qual se trabalha há muito na Venezuela não é um cenário de guerra convencional, mas um cenário de guerra de resistência popular ou de guerra de guerrilhas, contra inimigos externos ou inimigos internos apoiados por forças externas.

Para fazer frente a esse novo cenário, houve quatro importantes movimentos simultâneos:

a)     A restruturação das carreiras militares, com relativa atomização da cadeia de comando e incorporação de organizações populares na estrutura militar, o que gera grande flexibilidade operacional e maior comprometimento das forças regulares com a resistência popular.

b)    A ampla disseminação geográfica do equipamento militar venezuelano por todo o território nacional, o que, combinado com a flexibilidade operacional e de comando, dificulta muito a neutralização da resistência.

c)     Os investimentos relevantes em novos armamentos que asseguram dissuasão estratégica, como caças Sukhois SU-30, mísseis S-300 e tanques T-72.

d)     A criação da Milícia Bolivariana, força autônoma composta por reservistas e grupos de resistência, que hoje congrega cerca de 500 mil homens e mulheres armados.

Em passado recente, a cooptação de militares venezuelanos para um golpe ou a derrota da Venezuela numa guerra assimétrica teria sido algo relativamente fácil de se atingir, dada à estrutura convencional, verticalizada e oligárquica daquelas forças de antanho.

Hoje, o cenário é diverso.

A cooptação de militares para um golpe tornou-se bem mais difícil, pois seria necessário convencer um número muito grande de oficiais de alta patente, espalhados por todo o território venezuelano. Além disso, esses oficiais estão submetidos a um certo monitoramento popular. Não se trata, como a nossa imprensa beócia e desinformada afirma, de um controle feito por “oficiais cubanos”. Achar que a Venezuela é controlada por Cuba, um país bem menor geograficamente, demograficamente, economicamente e até militarmente é o cúmulo da imbecilidade. Seria o mesmo que supor que as forças armadas do Brasil poderiam ser controladas por oficiais bolivianos. Acreditar nisso é a mesma coisa que acreditar em kit gay e mamadeira erótica. Significa acreditar em quaisquer fake news inventadas pela administração Trump.

Além da cooptação ser mais difícil, a capacidade de a Venezuela resistir a uma guerra assimétrica é bem maior. Uma intervenção militar enfrentaria grande resistência, não só das forças regulares como das milícias bolivarianas. Poderia ser, de fato, algo parecido a um novo Vietnã.

O Império, contudo, não desistirá em seu intento de derrubar Maduro.

A estratégia óbvia e mais fácil, já anunciada, é ampliar o bloqueio comercial econômico contra a Venezuela, que já provocou a morte de cerca de 40 mil venezuelanos, conforme estudo elaborado pelo famoso economista Jeffrey Sachs, na esperança de conseguir apoio militar e popular interno suficiente para a promoção de um golpe.

Nesse caso, os EUA, junto com seus países satélites reunidos no Grupo de Lima, poderiam apoiar politicamente, logisticamente ou até militarmente a extrema direita da Venezuela.

Contudo, o desfecho mais provável nesse cenário seria o de uma guerra civil de longa duração e de consequências imprevisíveis, inclusive com a possibilidade de internacionalização do conflito, já que Rússia e China, que têm grandes interesses econômicos e geopolíticos na Venezuela, não ficariam omissas ante a eventual intervenção dos EUA e de seus lacaios regionais. 

Alguns alegam que os EUA não se atreveriam a intervir militarmente na Venezuela, especialmente se se levar e consideração o atual preparo do nosso vizinho em enfrentar um cenário de guerra assimétrica e o apoio da Rússia e da China aos bolivarianos.  

Não obstante, é preciso analisar que nenhum presidente norte-americano hesitou em promover intervenções e guerras, desde que houvesse suficiente apoio político interno para tal. Até mesmo Obama resolveu apoiar a intervenção na Líbia, por exemplo, bem como a intervenção na Síria, ambas fracassadas. O que dirá Trump.

É claro que, mesmo nesse caso extremo, não deveria haver tropas em terra, mas apenas bombardeios “cirúrgicos” contra alvos selecionados.

Há ainda outros três aspectos a serem considerados, nesse caso.

O primeiro tange ao imperativo geopolítico dos EUA de reconstruir a América Latina como seu espaço de influência exclusivo, conforme a nova Doutrina Monroe. Os EUA estão na defensiva na Eurásia e não sabem como enfrentar a aliança entre China e Rússia e a iniciativas geoeconômicas da primeira, especialmente a da nova rota da seda. Por isso, é fundamental para eles recuperar o controle exclusivo de todo o continente americano, alijando Rússia e China da região. 

O segundo, ligado ao primeiro, é o relativo à necessidade de assegurar o acesso privilegiado e exclusivo às maiores reservas provadas de petróleo do planeta, disputadas também por China, Índia e vários outros países. Hoje, cerca de 70% das exportações de óleo da Venezuela vão para China, Índia e Cingapura.

O terceiro, e talvez o mais importante, diz respeito ao fato de que guerras e intervenções militares podem ser bastante lucrativas para os EUA, embora possam causar impactos orçamentários negativos, no curto prazo.

Pelo menos 10% do PIB industrial norte-americano proveem diretamente do chamado complexo industrial-militar, protegido da concorrência e sustentado pelos gastos do Estado dos EUA. É lá que estão os empregos mais qualificados, imunes às atuais limitações do consumo doméstico privado.

O estímulo maior a esse complexo poderia gerar lucros a grandes empresas e empregos para a agenda econômica e política do America First de Trump. Lembre-se que os EUA só saíram realmente da Grande Depressão de 1930, ao longo da Segunda Guerra Mundial, que gerou enorme demanda estatal para a indústria norte-americana.

Assim sendo, não se deve descartar uma intervenção militar, ainda que limitada, dos EUA na Venezuela. À medida que as opções econômicas e políticas dos embargos e das ameaças vão fracassando, ela se torna mais provável. Mesmo tendo perdido várias batalhas, o Império não desistirá de ganhar essa guerra.

Para os interesses objetivos do Brasil, uma guerra civil na Venezuela ou ainda um golpe bem-sucedido seriam um desastre. No primeiro caso, por motivos óbvios. No segundo, porque a extrema direita da Venezuela colocaria, de novo, o país na órbita exclusiva dos interesses estratégicos dos EUA. O Brasil não teria grande espaço de projeção numa Venezuela submetida a Trump.

O único cenário que interessaria ao Brasil seria o da solução política pacífica para o conflito interno daquele nosso vizinho, que preservasse a capacidade da Venezuela de manter uma política externa relativamente autônoma e a sua aposta histórica recente na integração regional e na diversificação de suas parcerias estratégicas, incluindo a feita com o Brasil.

Esse era o cenário no qual o Brasil vinha se empenhando, quando ainda tinha uma política externa racional e adequada aos seus princípios constitucionais.

Agora, no entanto, enquanto o Império persiste na defesa de seus interesses a todo custo, o Brasil de Bolsonaro já renunciou à defesa dos seus interesses próprios, a um custo altíssimo para nosso futuro.

E o atual governo do Brasil o fez a troco de nada. O fez apenas para agradar Trump e seguir os conselhos de um astrólogo.

É o que dá não estudar filosofia, sociologia, economia, geopolítica e outras disciplinas das ciências humanas.

Torna-se veterinário, ou algum dos seus objetos de estudo. Arrisco os asininos.

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