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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Importância histórica de Frei Betto é resgatada em quatro documentários

Documentários resgatam legado de Frei Betto e reforçam memória da resistência à ditadura como pilar da democracia brasileira

Importância histórica de Frei Betto é resgatada em quatro documentários (Foto: ABR)

Religiosos progressistas não se limitam às orações e às penitências para salvação da alma. Atuam proativamente pela eliminação da exploração, das injustiças e das tiranias, como fazem, no âmbito católico, o Papa Leão XIV contra as guerras e o Padre Júlio Lancelotti pelos moradores de rua de São Paulo. Houve um tempo em que ser cristão de verdade no Brasil era lutar contra uma ditadura que perseguia e torturava, um tempo em que floresceu a coragem de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto. Seu modelo de religiosidade contrapõe-se frontalmente à pieguice das carolas bolsonaristas, sejam católicas ou evangélicas.

Numa quadra em que golpistas saudosos da ditadura militar indisfarçam, via candidatura Flávio Bolsonaro, sua tentação pelo golpismo, reviver o papel de Frei Betto durante o regime militar é essencial à preservação da democracia. Primeiro, pelo aspecto biográfico e testemunhal. Frei Betto foi preso duas vezes durante a ditadura (1964–1985) por vínculos com grupos de oposição, como a Ação Libertadora Nacional. Sua experiência direta com a repressão o posiciona não apenas como analista, mas como alguém que viveu a violência de Estado, o que dá densidade e legitimidade aos seus relatos.

Em segundo lugar, ele é autor de pelo menos uma obra fundamental, entre as mais de 70 que escreveu: Batismo de Sangue. Nesse livro, Frei Betto reconstrói a atuação dos frades dominicanos que apoiaram a resistência armada e foram brutalmente reprimidos, incluindo episódios ligados à morte de Carlos Marighella. A obra é indispensável para compreender a participação de setores da Igreja na luta contra a ditadura, os dilemas éticos entre fé, política e violência e os mecanismos de repressão daquele nefasto regime, que alguns querem de volta.

Há ainda um terceiro ponto: Frei Betto ajuda a consolidar uma leitura mais complexa do papel da Igreja Católica no período – como se sabe, algo nada homogêneo. Enquanto setores conservadores apoiaram o golpe de 1964, outros — influenciados pela Teologia da Libertação — se engajaram na defesa dos pobres e dos direitos humanos. Nessa linha, figuras como Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns foram fundamentais, e Frei Betto contribui para manter viva essa memória de resistência.

Por fim, há o papel contemporâneo. Frei Betto é um intelectual público, sempre a escrever artigos, livros e a participar dos debates públicos relevantes. Possui o condão de conectar memória pessoal, produção intelectual e compromisso político, ajudando a construir uma narrativa na qual a Igreja Católica aparece não como bloco monolítico, mas como um espaço de disputa em que floresceram importantes focos de resistência à ditadura.

De modo alvissareiro, a produtora brasileira Mirar Lejos está lançando “Fraternura”, filme que dirige um olhar peculiar à trajetória de Frei Betto, revisita suas memórias da adolescência em Belo Horizonte, os laços afetivos com a família e amigos e revela as marcas profundas deixadas pelo período em que esteve preso. O filme surpreende com imagens raras e depoimentos emocionantes de familiares e amigos. A pré-estreia, em São Paulo, com a presença de Frei Betto e dos diretores, acontece no dia 05 de maio, no Cine Marquise, da Avenida Paulista, às 19h, com entrada gratuita condicionada à capacidade da sala.

“Fraternura” é o terceiro documentário da tetralogia que a Mirar Lejos está produzindo em parceria com a Secretaria do Audiovisual / Ministério da Cultura sobre o legado do frei dominicano. O projeto dos quatro documentários temáticos tem direção de Evanize Sydow e Américo Freire, biógrafos de Frei Betto. O primeiro, lançado em abril de 2024, “A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam”, disponível nas plataformas da produtora, trata da trajetória do frade como educador popular e foi destaque em eventos como o Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano, em Cuba, e a Mostra de Cinema de Ouro Preto.

O segundo documentário, “Múltiplos: os percursos literários de Frei Betto”, mergulha na vasta produção do autor, revelando sua força como escritor. Entre memórias, ensaios, literatura infantojuvenil, contos e romances, o filme destaca a riqueza de sua obra e o reconhecimento da crítica, que consagra Frei Betto como uma das vozes mais relevantes da literatura brasileira contemporânea. Por fim, o quarto documentário, a ser lançado depois de “Fraternura”, intitula-se “Cartas da Prisão” e é baseado no período em que o frei dominicano foi preso pela ditadura militar junto com outros religiosos. Além da tetralogia, a Mirar Lejos também prepara o longa-metragem “Betto”, com o ator Enrique Díaz como protagonista, o qual será gravado em Cuba.

Tem gente produzindo e disseminando cultura democrática no Brasil. Holofotes nessa turma!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.