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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Inconsciência de classe

As contradições entre discurso revolucionário e privilégios de classe

Inconsciência de classe (Foto: Gerada por IA/Freepik)

O jovem universitário entra na cozinha da cobertura duplex dos pais com o ar determinado de quem acaba de derrotar o capitalismo com um thread no X, acompanhado de uma foto com filtro sépia e a legenda: “me recuso a herdar um mundo sem alma”. Veste uma camiseta desbotada com a imagem de Che Guevara (ironicamente produzida no Vietnã), calça de linho artesanal que custou mais do que o salário anual da funcionária que passa roupa ali na lavanderia da cobertura, e chinelos minimalistas veganos não testados em coelhos.

Ele se aproxima da geladeira. Tira de dentro um potinho com beterraba orgânica, raiz que sua mãe mandou buscar direto de uma cooperativa em Pirenópolis, e despeja no liquidificador como se estivesse misturando os ingredientes de um novo mundo. “A revolução começa pelo intestino”, declara, com a boca ainda roxa da última dose.

“Esses valores burgueses me enojam”, anuncia em voz alta, ignorando o fato de que acabara de misturar a beterraba com leite vegetal da marca sueca mais cara do mercado.

A mãe, ali do lado, pergunta se ele quer tapioca com chia. Ele diz que chia é um grão burguês, apropriado da cultura ancestral dos povos originários por empresas neoliberais. “Prefiro mandioca”, diz, sem notar que a empregada tinha acabado de fritá-las no óleo da semana passada: o ato mais contra-revolucionário que a cozinha viu em meses.

“Pai, precisamos conversar sobre esse teu SUV a diesel”, dispara o jovem enquanto posta uma foto no Instagram com a legenda: “em rota de colisão com os valores do patriarcado”.

O pai, que estava tentando entender a fatura do cartão com seis parcelas de um curso online chamado “Desconstruindo o Eu Colonial”, apenas assentiu com a cabeça, resignado.

A revolução segue e não será transmitida no Twitch. À tarde, o jovem participa de uma assembleia estudantil via Zoom (diretamente do home office com vista para o Parque Ibirapuera). Discutem como derrubar a opressão sistêmica a partir de ações concretas como um abaixo-assinado no Change.org e uma caminhada silenciosa pela Vila Nova Conceição.

À noite, enquanto toma sua última vitamina de beterraba, agora com um toque de gengibre contra a opressão climática, ele escreve em seu diário digital:

“Hoje, mais uma vez, combati o sistema. Amanhã talvez vá ao festival de cinema queer, mas só se a entrada for gratuita. Ou se meus pais pagarem. Ninguém disse que mudar o mundo é barato.”

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.