Indústria de armas cobra a fatura

Colunista Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia, destaca a proximidade do atual ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, da indústria armamentista, que recheou o cofre de suas campanhas quando deputado; "Se a decisão de Bolsonaro conseguir sair do papel nesta semana, como se espera, a indústria de armas vai ter muito o que comemorar. Os parlamentares bancados por esse segmento econômico, também. Quando ocupa a tribuna e brada pela liberação das armas, o parlamentar está fazendo nada mais que o jogo do seu financiador. E devolve a deferência com perspectivas de grandes lucros. Nada é de graça", afirma

Indústria de armas cobra a fatura
Indústria de armas cobra a fatura

Por Gilvandro Filho, Jornalista pela Democracia - O atual ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, sempre contou com um grupo muito fiel de apoiadores financeiros em suas campanhas eleitorais. A indústria de armas, que sempre teve no então deputado gaúcho um defensor abnegado, chega junto desde 2006, ano em que Lorenzoni se elegeu para a Câmara dos Deputados. De lá até 2014, último pleito em que foi permitida a doação de empresas a candidatos, o porquinho do parlamentar foi recheado com mais de meio milhão de reais da indústria armamentista.

Junto ao Congresso, Onyx Lorenzoni é hoje, por ideologia e por dever de ofício, o principal articulador da flexibilização do uso de armas de fogo no Brasil, personificada na medida provisória que o presidente da República está doido para aprovar, ainda esta semana. Trata-se da mais barulhenta promessa de campanha do então candidato Jair Bolsonaro que a transformou em gesto-símbolo: dedos indicador e polegar em riste, mãozinha em forma de arma. Armar os "cidadãos de bem" foi o mote central do discurso. Até mesmo depois que o candidato foi vítima de um atentado, mas de arma branca.

Lorenzoni é apenas um exemplo, pinçado até pela posição estratégica que exerce no governo, em relação à consolidação da ideia. A "bancada da bala" tem vários outros representantes e afilhados no governo e na base de apoio do bolsonarismo. Até porque bolsonarismo e armamentismo soam a muitos como almas gêmeas, e univitelinas.

E já que é um exemplo, vamos lá. Segundo dados da Agência Lupa, o atual ministro recebeu, em 2006, doação de R$ 110 mil da Taurus, maior indústria de armas do País. Contribuição que se repetiu em 2008 (candidatura derrotada a prefeito de Porto Alegre, RS) e saltou para R$ 150 mil em 2010, quando a Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições entrou também com R$ 100 mil. Em 2008, vale citar, a Companhia Brasileira de Cartuchos doou R$ 150 mil a Lorenzoni. E em 2014, lá estava a Taurus com outros R$ 50 mil.

Se a decisão de Bolsonaro conseguir sair do papel nesta semana, como se espera, a indústria de armas vai ter muito o que comemorar. Os parlamentares bancados por esse segmento econômico, também.

O Estatuto do Desarmamento (Lei 10826) está em vigor desde o dia 23 de dezembro de 2003, quando foi sancionado pelo então presidente Lula. Em 2005, por 63,94% a 36,06%, os brasileiros reprovaram o artigo 35 que tratava da proibição da venda de armas em todo o País. É proibido o porte de armas por civis, exceto àquelas profissões nas quais haja necessidade comprovada. É nessa regra que se pretende mexer, ampliando os casos onde o uso de armas fique liberado.

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Quando ocupa a tribuna e brada pela liberação das armas, o parlamentar está fazendo nada mais que o jogo do seu financiador. E devolve a deferência com perspectivas de grandes lucros. Nada é de graça. Só por causa da expectativa de vitória de Bolsonaro, no final do primeiro turno da eleição do ano passado, as ações da Taurus deram um "pipoco" de 400%, no ano. Empossado o novo presidente e na iminência do decreto ampliando a posse de armas, essas ações já tiveram alta de 89%.

A Forja Taurus é a maior fabricante de armas com atuação no País. Outras estrangeiras já vislumbram aportar em terras tupiniquins e contam com a torcida ruidosa (e poderosa) dos Bolsonaro (Glock, CZ e Sig Sauer).

Não há qualquer respaldo científico ou histórico na defesa tresloucada do uso de armas. Pelo contrário, os contraditórios estão aí, fartos. O Japão baniu as armas e é o país mais seguro do mundo, com taxa de homicídios de 0,3 por 100 mil habitantes. No outro extremo, Honduras é considerado o país mais violento do planeta, com 82 homicídios para cada 100 mil habitantes (2012). Isto com armas liberadas e vidas ceifadas por menos de 1 real, que é o preço da bala por lá.

Nada disso interessa, nem a financiadores nem a financiados nesse jogo mortal de liberar as armas ao máximo. Vale matar mais e mais. Consequentemente, comprar cada vez mais a quem está, cada dia mais, pronto e ávido para vender.

Pelas regras da MP de Bolsonaro, ficam à vontade para ter arma dentro de casa 2/3 dos brasileiros. Quem garante que a defesa do patrimônio e a autodefesa diante dos bandidos, argumentos cantilênicos dos armamentistas, não vão ser superados pela defesa da própria honra? No Brasil cada dia mais machista e arrogante que emergiu das trevas nos últimos anos, a briga de rua e o "você sabe com quem está falando?" terão na arma, legalizada, um aliado forte, cruel e irrefutável.

E aí tem um dado mais preocupante ainda. O Brasil, segundo a ONU, é o quinto país do mundo em feminicídios, homicídios motivados contra mulheres, por serem as vítimas mulheres. São 4.762 casos para cada 100 mil, o equivalente à perto de 13 mortes por dia. Crimes de homens, não raro machistas, arrogantes e donos da verdade.

Com a flexibilização da posse e uso de armas, o que você acha que vai acontecer? Essa taxa aumenta ou diminui? Quer quantos segundos para pensar e responder?

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