Inicia-se o ano de eleições na Alemanha. E, felizmente, se inicia bem para a esquerda e mal para a extrema-direita

Em um mundo onde o Neonazifascismo assombra a nossa realidade, é confortante vermos que alguns países parecem caminhar em veredas contrárias a esta macabra e aniquiladora tendência contemporânea



Por Jean Goldenbaum

No fim de semana passado iniciou-se o ano eleitoral na Alemanha. Este, que se estende em diversas eleições pelo país, se concluirá na votação nacional que marcará o fim da Era Merkel, uma vez que a “Mutti” (mamãezinha), como é conhecida por aqui, anunciou que seu próximo passo é de fato a aposentadoria. E vejam que após quatro mandatos, 16 anos enquanto primeira-ministra (na Alemanha não há limite para reeleições), ela certamente poderia se reeleger, afinal sua aprovação continua altíssima, sobretudo após sua competente e responsável liderança frente à pandemia. Porém, a escolha é dela e o país deverá lidar com esta mudança.

Mas o tema deste artigo não é Merkel nem as eleições que definirão o próximo ou a próxima chanceler da Alemanha, afinal estas ocorrerão somente em 26 de setembro. Por isso, sobre tal tema tratarei mais à frente. Neste texto trago um panorama sobre o ano eleitoral e as novidades sobre as duas primeiras eleições que ocorreram há alguns dias.

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Bem, primeiramente, por que este ano é importante para a Alemanha, e consequentemente para a Europa, e consequentemente para o mundo? Bem, além das eleições mais importantes, as nacionais, alguns estados terão seus governadores redefinidos, e Berlim terá seu parlamento e sua câmara reconfigurados. Berlim, além de ser a capital da Alemanha e a maior cidade do país, é também uma das três cidades-estado, juntamente a Bremen e Hamburgo, o que lhe concede ainda mais relevância. Sobre cada uma dessas eleições, também trarei à leitora ou ao leitor do Brasil247 análises e opiniões conforme se aproximarem.

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No domingo passado tivemos as corridas eleitorais para o governo de dois estados. O primeiro é Baden-Würtemberg, um dos dois estados do sul do país (junto à Baviera) e o terceiro mais populoso da Alemanha, com cerca de 11 milhões de habitantes. Este, cuja capital é Stuttgart, vinha sendo governado desde as últimas eleições (2016) pelo Partido Verde (centro-esquerda), que havia desbancado o CDU (União Democrática Cristã, de centro-direita), que dominava o estado de maneira inconteste desde a Segunda Guerra Mundial. Desta vez, não somente o Verde venceu novamente, mas ainda aumentou seus votos e assistiu à queda do CDU.

Mas talvez a maior vitória tenha sido o fato de que o partido neonazista contemporâneo, AfD (“Alternativa para a Alemanha”, o único alemão que parabenizou Bolsonaro quando venceu em 2018), foi o que mais despencou. De terceiro lugar em 2016, caiu para quinto, ao perder mais de um terço de seus pontos percentuais. E esta é uma grandíssima conquista.

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A notícia não tão positiva é que a única coalizão possível para o Partido Verde será novamente com o CDU. O SPD (Partido Social Democrático) – que ocorre também de ser o meu partido – e que descrevo como uma espécie de PT daqui da Alemanha, mesmo assumindo o terceiro lugar, sofreu pequena queda e, desta forma, por uma única cadeira não poderá formar a coalizão com o Verde.

Aqui cabe um adendo: não confundam o Partido Verde alemão com o brasileiro. O brasileiro é hoje uma tragédia, golpista e comprometido com a Direita e a Extrema-direita (o partido possui na Câmara dos Deputados taxa de alinhamento de 68% ao governo Bolsonaro, ou seja, vota muito mais com o governo do que com a oposição (Fonte: ‘Congresso em foco’)). Isto é mais um dos fenômenos “curiosos” da política brasileira, afinal os partidos Verdes europeus existem em sua absoluta maioria dentro do espectro esquerdista. E o pequeno estadunidense também.

Retornando: o segundo estado em que houve eleições foi a Renânia-Palatinado (não estranhem eu às vezes escrever os nomes em alemão original e às vezes em português. São coisas da língua portuguesa e de fato nem todos os nomes alemães possuem traduções). Este estado, localizado no oeste da Alemanha, faz fronteira com Bélgica, Luxemburgo e França. Com cerca de quatro milhões de habitantes, sua capital é Mainz e há 30 anos ele é governado pelo SPD. No domingo passado se confirmou esta continuidade, com os social-democratas vencendo novamente, para a alegria da Esquerda. E para aumentarmos esta comemoração, mais uma vez o partido que mais caiu foi o AfD, perdendo a terceira posição para o Verde, que foi o que mais cresceu. Quanto à coalizão, será provavelmente com o Verde e – infelizmente necessário – com o neoliberal centro-direitista FDP (Partido Democrático Livre), que ficou na quinta posição.

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Em suma, o ano eleitoral alemão começou bem para a Esquerda e para todos aqueles que se regozijam com a queda do Neonazifascismo e com a ascensão da social-democracia e das políticas ambientais. Sim, estes são somente dois estados, mas eles representam juntos quase um quinto da população da Alemanha. Em ambos vemos a Esquerda/Centro-esquerda assumir a maioria na sociedade, através de um crescimento de aproximadamente de 5%, mesma cifra que caracteriza a queda do espectro de Direita.

Enfim, em um mundo onde o Neonazifascismo assombra a nossa realidade, é confortante vermos que alguns países parecem caminhar em veredas contrárias a esta macabra e aniquiladora tendência contemporânea, especialmente se tratando de uma nação tão relevante no cenário mundial e que encabeça a União Europeia, como a Alemanha. Há muito o que melhorar neste país? Sim. Há ainda o perigo do Neonazismo? Óbvio que sim. Sempre. Então comemoremos os resultados com uma mão e sigamos na luta com a outra, para que o futuro nos traga consequências humanistas e exemplares para o resto do planeta.

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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