Intelectuais franceses denunciam a IA por buscar rebaixar o ser humano no debate
Manifesto publicado pelo Le Monde reúne prêmio Nobel, vencedores do Goncourt, cientistas e ex-ministros para questionar a velocidade da revolução da IA
Nas últimas décadas, acostumei-me a ver intelectuais franceses ocupando o papel que a própria França historicamente reservou aos seus homens e mulheres de pensamento: o de provocar debates incômodos. Foi assim com Sartre, Camus, Raymond Aron, Jacques Ellul e tantos outros. Em junho de 2026, essa tradição voltou a se manifestar.
No dia 18 de junho, o jornal francês Le Monde publicou um manifesto com um título incomum para uma época fascinada pela tecnologia: “Condenamos um projeto de sociedade baseado na marginalização do ser humano e na destruição do nosso meio de vida”.
A iniciativa partiu do senador Alexandre Basquin, do departamento do Norte da França, e reuniu cerca de 150 signatários. Não se trata de um grupo marginal. Entre eles estão Annie Ernaux, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2022; Marie NDiaye, Prêmio Goncourt de 2009; Hervé Le Tellier, vencedor do Goncourt de 2020; Mohamed Mbougar Sarr, laureado em 2021; o romancista Abel Quentin; o quadrinista Enki Bilal; a ex-ministra da Cultura Françoise Nyssen; médicos, pesquisadores e especialistas de diversas áreas.
A reação imediata de parte do setor tecnológico foi previsível. Surgiram acusações de nostalgia, resistência ao progresso e até obscurantismo. A História, contudo, recomenda prudência antes de distribuir rótulos.
O texto não pede a proibição da inteligência artificial. Tampouco sugere o abandono das pesquisas científicas. Seu alvo é outro: a crença de que toda inovação precisa ser adotada na maior velocidade possível, independentemente das consequências humanas, sociais e ambientais.
Essa discussão está longe de ser nova.
Em 1954, o sociólogo e teólogo francês Jacques Ellul publicou A Técnica e o Desafio do Século, obra na qual alertava para o risco de a eficiência se transformar no valor supremo das sociedades modernas. Ellul não era inimigo da tecnologia. Sua preocupação residia no momento em que os instrumentos passassem a impor sua própria lógica aos seres humanos.
Décadas depois, Hannah Arendt advertiu que a condição humana não poderia ser reduzida à produtividade. Mais recentemente, a economista norte-americana Shoshana Zuboff descreveu o surgimento do capitalismo de vigilância, no qual dados pessoais se transformam em matéria-prima econômica. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han acrescentou outra preocupação: sociedades hiperconectadas podem produzir indivíduos cada vez mais isolados.
O manifesto francês dialoga, consciente ou inconscientemente, com essa tradição intelectual.
Os signatários chamam atenção para a explosão no consumo de energia e água dos grandes centros de dados, para a crescente dependência dos algoritmos e para a possibilidade de substituição de atividades humanas em escala inédita.
As preocupações não são imaginárias.
Em abril deste ano, a Agência Internacional de Energia projetou forte aumento da demanda elétrica dos data centers até 2030. Ao mesmo tempo, consultorias como McKinsey, Goldman Sachs e PwC estimam que milhões de empregos serão profundamente transformados pela automação nas próximas décadas.
Nada disso significa que a inteligência artificial seja uma ameaça em si mesma. Ao contrário. Os próprios avanços da medicina demonstram seu potencial extraordinário. Sistemas de IA já auxiliam na identificação precoce de tumores, aceleram a descoberta de medicamentos e permitem análises impossíveis há poucos anos.
O problema surge quando a sociedade abandona o direito de discutir os limites daquilo que produz. Os luditas ingleses do século XIX destruíam teares porque temiam perder o sustento. Os novos luditas não carregam martelos. Carregam perguntas.
E perguntas continuam sendo uma das mais elevadas expressões da inteligência humana. Tenho dificuldade em acreditar que uma civilização se fortaleça quando trata a dúvida como pecado e o entusiasmo como obrigação.
Porque o progresso nunca foi definido pela velocidade das máquinas. Sempre foi definido pela capacidade humana de decidir para onde elas devem nos conduzir. Por que agora teria que ser diferente?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

