Inteligência Artificial (IA) e Geopolítica

A visão panorâmica da Inteligência Artificial aqui apresentada torna inteligível para um público mais amplo algumas questões técnicas e seu contexto geopolítico. Foi elaborada em contraponto ao livro resenhado a seguir.

(Foto: Divulgação/Afiniti)

A visão panorâmica da Inteligência Artificial aqui apresentada torna inteligível para um público mais amplo algumas questões técnicas e seu contexto geopolítico. Foi elaborada em contraponto ao livro resenhado a seguir.

O livro

“AI Superpowers – China, Sillicon Valley and the New World Order”, em português “A nova ordem mundial, as superpotências em IA China e Vale do Silício: e a nova ordem mundial”, foi indicado pelo Jornalista Pepe Escobar (a quem não conheço mas agradeço) em bate-papo com o Leonardo “Brasil247” Attuch na TV247.

O livro foi publicado em set-2018, e estabeleceu, para mim, um antes e um depois sobre diversos assuntos relacionados a “Inteligência” e “Artificial” e sua contextualização na geopolítica contemporânea.

O autor

A trajetória pessoal do Dr. Kai-Fu Lee, fezdele uma pessoa singularmente apta a tratar do assunto. Nasceu em Taiwan, passou a juventude nos EUA, estudou em Columbia e doutorou-se com louvor no Carnegie Mellon. Foi executivo em algumas das mais importantes corporações mundiais no campo da tecnologia, sucessivamente, Apple, Sillicon Graphics (SGI), Microsoft (para quem criou o centro de pesquisas na Ásia) e Google, do qual foi vice-presidente para China.

Quando a Google resolveu deixar a China (isto ocorreu porque - conforme outras fontes, pois olivro não entra nisto - houve recusa do Google, i.e. de sua cúpula diretiva, em aceitar imposições governamentais relacionadas a como deveriam ser filtradas as pesquisas, entre outras questões relevantes).

Dr. Kai-Fu Lee ficou por lá junto com outros “órfãos“ do Google. Apesar de ter passado fora daChina a maior parte da sua vida adulta, ao voltar renovou os laços que manteve à distância desde a infância, em contato com a língua, a escrita e a cultura. Como lutadores de Kung-Fu, criaram o Sinovation, um fundo multibilionário de financiamento de start-ups que investe na “próxima geração de empresas chinesas de alta tecnologia”.

O Dr. Lee é também professor. Ao dedicar o livro ao seu “mentor em IA e na vida” leva adiantea admirável tradição chinesa de venerar mestres e professores. O professor Raj, seu orientador no doutorado, foi o primeiro indo-americano a receber o Prêmio Turing tido como o “Nobel daComputação” pelos seus trabalhos em IA.

A resenha

China Sputnik Moment (O momento Sputnik da China) é o nome do capítulo inicial queoferece uma visão abrangente das questões que se enredam com a IA.

Numa analogia com o sentimento de desafio com que os EUA responderam à superioridadedos soviéticos, quando do lançamento em 1957 do foguete que iniciou a conquista do espaço sideral, o momento Sputnik da China, ocorreu em março de 2016. Foi quando um grande campeão coreano no multi-milenar jogo de Go perdeu para o AlphaGo, um conjunto composto por uma equipe de homens 3 , computadores e, mais importante que tudo, um software baseado em IA.

A comoção provocada pelo evento, seguido de perto por centenas de milhões de aficionadosno Oriente (enquanto no Ocidente passou quase desapercebido), teria despertado a China para a questão de IA. E, de maneira análoga à reação dos EUA no século passado em relação à corrida espacial, a sociedade chinesa passaria a se mobilizar de cima abaixo.

No amago do sistema de IA que derrotou o campeão sul-coreano estava uma abordagemcomputacional conhecida por Redes Neurais, uma conceituação em que sistemas compostos por hardware e software emulam as sinapses neurais do cérebro humano. Neste, as conexões neurais estabelecidas fisiologicamente são os “building blocks” de como os cérebros individuais processam e constroem memórias e condicionamentos.

A IA é um campo científico-acadêmico que foi assim batizado em 1956 nos EUA 4 e dentro doqual evoluíram diferentes abordagens computacionais, para uma variedade de problemas. Naquele então, os próprios computadores também eram um invento novo de poucos anos. Entre os caminhos cogitados naquele então, uma trilha denominou-se Neural Networks (Redes Neurais). O desenvolvimento desta analogia - o estudo do cérebro humano como inspiração para a utilização das máquinas e computadores - já estava presente desde antes, tanto na ciência 5 , como na midia (que se referia a eles como cérebros eletrônicos).

Machine Learning (Aprendizagem de Máquina) e Deep Learning (Aprendizagem Profunda)foram ideias que brotaram nos caminhos dos pesquisadores que foram pela trilha das Redes Neurais. Tudo parecia calmaria até que, circa 2006, na Universidade de Toronto no Canadá, um grupo acadêmico liderado por Geoffrey Hinton 6 , realizou break-throughs (saltos de qualidade) significativos que ganhariam notoriedade ao vencer, em 2012, uma competição internacional em torno da automação de reconhecimento visual. Avanços teóricos aliados a patamares dedisponibilidade de dados e de potência computacional nunca antes disponíveis deu início a um novo período de euforia com IA e a uma nova era de faniquito humano, uma espécie de “corrida do ouro” californiana #SóQueNaEraEspacial.

O livro conceitua corretamente Deep Learning como uma “IA limitada”, distante de uma IAgeral 7 . Isto é importante porque ajuda a colocar os conceitos nos devidos lugares e a desmistificar a ideia de que a inteligência humana estaria prestes a ser substituída por máquinas e computadores.

Para o dr. Lee, o avanço desta IA específica dependerá simultaneamente de (a) abundância dedados digitais relevantes num campo específico (como p.ex. pedidos de crédito), (b) um objetivo concreto (p.ex., minimizar inadimplências) e (c) um algoritmo forte adaptado ao anterior, programas computacionais que processam inéditos volumes informacionais em domínios específicos, testando teorias com o uso de ferramentas matemáticas e estatísticas, a fim de identificar relacionamentos e padrões correlacionados a resultados tais como, usuário clicou versus não-clicou, há ou não-há gato na imagem, jogador venceu ou perdeu, crédito foi pago ou não, e assim por diante.

Os tamanhos, as variedades das massas de dados e sua estruturação propiciam a descobertade padrões significativos que de outra forma passariam despercebidos. É aí que se encontra hoje o valor econômico, o “ouro” que provoca frisson nos mercados, o pedacinho de informação que apenas faz melhor uso dos recursos que o resto da concorrência capitalista e booom se acumula uma montanha de dinheiro 8 . Os relacionamentos encontrados são os equivalentes computacionais das sinapses cerebrais. Os sistemas podem ser refinados para atingir níveis cada vez maiores de acertos.

São estes avanços técnicos que trazem para a realidade cotidiana de um contingente cada vezmaior de pessoas, o reconhecimento de voz 9 , a qualidade das traduções, a melhoria no reconhecimento de imagens, na previsão de comportamentos de internautas (inclusive nas manipulações eleitorais tipo Cambridge Analytica), em diagnósticos médicos, nos processos em desenvolvimento para a automação de veículos, entre outros.

Na visão de Kai-Fu Lee teríamos ingressado numa “era de implementação” na qual os paísesvencedores desta nova “corrida do ouro” dependerão menos da genialidade de poucos e extraordinários PhDs, concentrados na região do Atlântico Norte, cujos trabalhos e pesquisas já teriam proporcionado a maior parte dos saltos tecnológicos necessários para o avanço rápido. Nesta nova era os avanços dependerão mais de aspectos em que a China estaria melhor posicionada, como forte apoio governamental e social, disponibilidade de dados, a presença de empreendedores, gerentes e engenheiros capazes de treinar os algoritmos e aplicá-los comercialmente nos diferentes setores, enfim de um ecossistema maior e mais integrado.

A disputa pela supremacia entre China e EUA, questão central da geopolítica contemporânea,está presente desde o título do livro e nele fica circunscrita ao terreno da IA no qual o engenheiro especializado se mostra profundo conhecedor. Ainda que busque diferenciar apolítica exterior das empresas dos EUA (que em terceiros países mostrar-se-iam menos dispostas a localizar os produtos, a delegar poderes e a fazer concessões) de suas congêneres chinesas (mais dispostas a fazer parcerias), o autor pouco ou nada comenta da situação de outros países relevantes na arena da IA, como Japão, Israel, Índia e Rússia que não podem ser considerados cartas fora do baralho. O Brasil só é mencionado como o país em que a empresa chinesa Didi investiu e comprou a desenvolvedora do 99 Taxi ou como um dos países em que os hábitos locais precisam ser considerados.

Entretanto, não é necessário ser especialista em Relações Internacionais para perceber que aagressividade política de Trump contra a China no campo das tarifas e barreiras comerciais. Eis que Trump ataca diretamente a empresa chinesa Huawei, líder no campo da tecnologia 5G (que amplia em várias ordens de grandeza a capacidade e as velocidades de comunicação) e chega a mexer pauzinhos para fazer prender a filha do dono da empresa no Canadá, evidenciando que a vertente tecnológica é um dos aspectos centrais desta competição e o jogo é cada vez mais bruto.

O livro revela muito do modus operandi do mercado chinês, parte do processo de formaçãodos líderes e diretores das grandes empresas chinesas contemporâneas na área de tecnologia (comparados a gladiadores do Coliseu Romano), entre as quais as mais famosas são as gigantes Tencent , Alibaba, e Baidu. Mas não revela tudo que há de importante. Não menciona, por exemplo, o multi-secular guanxi 10 , nem tampouco comenta as relações dos líderes empresariais com a notável estrutura do Partido Comunista Chinês.

A ferocidade da disputa no mercado chinês é exemplificada com o caso de duas empresaschinesas gigantes que se digladiam e aplicam-se reciprocamente todo tipo de golpe baixo valendo o uso de mentira, difamação, sabotagem e acionamento dos poderes de estado para fazer prender o adversário até que o governo finalmente interveio e regulou a competição.

Esta ferocidade competitiva seria a razão maior para as dificuldades de penetração dasempresas dos EUA no mercado chinês. Acostumadas a fazer com que o mundo se adapte aos seus produtos e modos de vida, mostram-se lentas, tímidas e desconhecedoras dos usos e costumes locais. Entre as peculiaridades chinesas encontra-se que o ingresso na Internet por parte da maioria da população deu-se por meio de um salto recente através de smartphones em contraste com a evolução dos EUA em que os smartfones sucederam-se ao uso generalizado de desktops. Os empreendedores locais se adaptaram rapidamente a isto, inclusive canibalizando os produtos para desktop, algo para o que as empresas dos EUAapresentaram grandes resistências. O app chinês que sintetiza este processo é o WeChat (da Tencent), presente nos celulares de um bilhão de chineses é comparado a um “canivete suíço”: dentro dele funcionam os mais diversos apps entre os quais um equivalente a uma carteira de dinheiro (money wallet) permitindo transferências e pagamentos, compartilhando outras funções e favorecendo o desenvolvimento de novos apps.

Meios de pagamento são outro diferencial do mercado chinês. Enquanto no mundo ocidentalo cartão de crédito (e suas elevadas taxas e valores mínimos de transação) são a regra, na China estruturou-se um sistema sem ônus entre os envolvidos, em que o celular permite a transferência e pagamento de valores ínfimos. Tornou-se a forma generalizada de manipulação de valores incluindo taxis, pequenos comércios de rua e prestadores de serviços individuais, praticamente expulsando o papel moeda da circulação monetária. O anterior é Ilustrado com os casos de mendigos que traziam na vestimenta o QR Code para depósito das esmolas e o de ladrões que, vindos de fora da cidade para roubar lojas, foram presos e reclamaram da falta de o dinheiro vivo suficiente sequer para pagar a viagem de volta para casa.

A partir de 2014 houve o estabelecimento de um programa de Estado que, em seu mais altonível, definiu uma diretriz para a geração “massiva de inovações e empreendimentos”. Tal diretriz percolou até os municípios dando origem a milhares de incubadoras, zonas de empreendimento com aluguéis subsidiados, fundos financeiros mistos (capitais governamentais e privados) que entre 2014 e 2017 quadruplicaram os capitais investidos.

ShenZhen tornou-se centro de um ecossistema propício para fases iniciais de novos projetosaproximando “building blocks”: partes e componentes (hardware), pessoal qualificado, espaços de experimentação para protótipos e pequenos lotes de escala inicial. Talvez, não por acaso, seja onde se localiza avançada indústria de drones e desenvolvimento de “swarm intelligence” (Inteligência de Enxames, ou seja da colaboração de dispositivos que se movimentam coordenadamente no espaço) que poderão ser usadas para otimizar o trafego de automóveis sem motoristas, do uso de drones fumigadores e, considerando o rumo que as coisas estão tomando, em objetivos militares.

Em julho de 2017, o Conselho de Estado da China publica o “Plano de Desenvolvimento parauma nova Geração de IA” definindo centenas de aplicações específicas e objetivando a chegar ao topo da IA até 2020. E tornar-se líder global no assunto até 2030.

A caracterização da China como, mais que um respeitável competidor na arena da IA, umfuturo campeão é bastante convincente, assim como o modo com que vê a evolução futura da tecnologia penetrando todo o tecido social através da integração entre o online e offline.

A parte final do livro parece escrita por pessoa diferente do brilhante aluno, pesquisador,engenheiro, professor, executivo. Entra em cena o sobrevivente de um câncer, que se vê de forma crítica pela secundarização dos afetos que praticou em favor de um workaholismo frenético.

Entre as duas partes estima que a IA em poucas décadas será capaz de substituir tecnicamenteda ordem de 40% dos diferentes tipos de trabalho hoje existentes nos EUA e concentrando a riqueza na mão dos novos magnatas em IA. Esta a essência real da crise. A realização das possibilidade técnicas precisará superar atritos econômicos e sociais. Nesta perspectiva ele aborda o que chama de 3 Rs (Reduzir, Re-treinar e Re-distribuir): Reduzir a jornada semanal, retreinar para os novos trabalhos e redistribuir a renda através de alternativas como aUniversal Basic Income (equivalente à Renda Básica da Cidadania defendida pelo Professor Eduardo Matarazzo Suplicy) e a garantia de um salário-mínimo para os pobres. Além disto propõe a criação de uma bolsa de investimento social (social investment stipend) a ser pago às pessoas que voluntariamente realizem trabalhos como cuidadores, serviços comunitários, educadores e outros voltados a tornar a sociedade um lugar mais compassivo, criativo e amável.

Para decidir se vale a pena ler o livro talvez vc queira ver a TedTalk em que o autor o resume (https://www.youtube.com/watch?v=ajGgd9Ld-Wc) ou navegar pelo site https://aisuperpowers.com/.

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