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Sayid Marcos Tenório

Historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro 'Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência' (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p)

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Irã, a crise do poder dos EUA e o fim da narrativa imperial

Quanto mais o Irã foi pressionado, mais sua imagem de potência resistente se fortaleceu, e não apenas regionalmente

EUA-Irã (Foto: Prensa Latina )

A guerra também se vence no terreno da percepção. E é precisamente nesse campo que o Irã alcançou sua vitória mais decisiva. Ao enfrentar simultaneamente os Estados Unidos e “Israel” sem capitular, o Irã converteu resistência, sobrevivência e capacidade de pressão em capital político regional. 

Não se trata de uma vitória militar clássica, mas de algo talvez mais profundo, que é a consolidação da imagem de um ator que impõe limites ao poder imperial.

O próprio debate interno nos Estados Unidos começa a reconhecer essa realidade. E expõe um desconforto crescente com a queda do mito da superioridade militar norte-americana, que já não garante vitória estratégica. 

Destruir alvos, neutralizar infraestruturas ou lançar ofensivas de alta precisão não resolve o problema central, que é a incapacidade de transformar força em controle político duradouro.

Essa não é uma novidade histórica. Do Vietnã ao Afeganistão, o poder de fogo dos Estados Unidos mostrou-se insuficiente para garantir estabilidade ou submissão. O que muda agora nesse contexto é que o Irã não apenas resiste, mas reorganiza o campo de disputa, deslocando o conflito para uma lógica assimétrica, prolongada e politicamente desgastante para o adversário.

Ao evitar o confronto direto, o Irã opera por meio de uma arquitetura de resistência que inclui aliados regionais, tecnologias de baixo custo, como drones e mísseis, e o controle indireto de pontos estratégicos fundamentais. 

Essa estratégia impõe custos contínuos ao inimigo e redefine o equilíbrio do conflito. Já não se trata de quem possui mais poder militar, mas de quem consegue sustentar o confronto sem colapsar politicamente.

E é nesse ponto que emerge a verdadeira fragilidade do império. A guerra prolongada cobra um preço alto dentro dos próprios Estados Unidos através da inflação nos preços, pressão energética, desgaste político e crescente rejeição interna. A capacidade de sustentar conflitos longos, pilar histórico da hegemonia americana, começa a se erodir.

Mas a transformação mais profunda ocorre fora do campo de batalha. Para boa parte da opinião pública do Oriente Médio, e, de forma mais ampla, do Sul Global, a vitória não se mede apenas por território ou destruição material. Mede-se pela capacidade de permanecer de pé diante da máquina de guerra ocidental.

Nesse imaginário político, resistir já é vencer.

É essa percepção que o Ocidente insiste em subestimar. 

Durante décadas, tentou-se impor a ideia de que a submissão garantiria estabilidade, que a normalização com “Israel” era inevitável e que qualquer projeto soberano fora da órbita ocidental estava condenado ao fracasso. 

O que se observa agora é o oposto. Quanto mais o Irã foi pressionado, mais sua imagem de potência resistente se fortaleceu, e não apenas regionalmente.

O chamado “discurso de resistência” deixou de ser uma bandeira restrita e passou a funcionar como linguagem política regional. Ele atravessa fronteiras, supera divisões sectárias e dialoga com uma memória histórica marcada por colonialismo, invasões e promessas traídas. 

O fato de esse discurso ganhar eco, inclusive em comunidades sunitas, revela uma fissura estratégica no projeto ocidental de fragmentação do Oriente Médio.

Isso não significa ausência de contradições internas no Irã. Significa, sim, que a leitura popular dos acontecimentos não segue os mesmos critérios das potências ocidentais. 

Enquanto governos calculam alianças e contratos, os povos observam quem enfrenta “Israel”, quem desafia a ocupação da Palestina e quem paga o preço pelo apoio à resistência em Gaza, no Líbano, Iraque e Iêmen.

Ao mesmo tempo, o conflito expõe uma mudança no equilíbrio global. Potências como China e Rússia acompanham atentamente o desgaste norte-americano, enquanto a incapacidade de impor uma vitória clara enfraquece a credibilidade internacional dos Estados Unidos.

O resultado é uma crise de narrativa. A ideia de invencibilidade, base simbólica do poder imperial estadunidense, começa a ruir. E quando a invencibilidade do opressor é questionada, abre-se espaço para uma transformação profunda na psicologia política dos povos.

É nesse terreno que se encontra a verdadeira vitória iraniana.

Para milhões, o Irã venceu porque não se ajoelhou. E quando essa percepção se dissemina entre povos historicamente submetidos, ela se torna mais poderosa que qualquer arsenal.

Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.