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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Irã revive a política do bode expiatório ao mirar os bahá’ís em meio à crise nacional

Em meio à repressão violenta a protestos e à escalada de violações de direitos, o regime iraniano volta a usar minorias religiosas como distração política

Líder supremo do Irã aiatolá Ali Khamenei participa de reunião com estudantes em Teerã 3/11/2025 Divulgação via REUTERS (Foto: Divulgação via REUTERS)

Em 3 de fevereiro de 2026, Genebra voltou a ocupar um lugar simbólico no mapa moral do mundo. Foi dali que a Baha’i International Community (BIC) lançou um alerta grave: em meio a uma crise nacional marcada por protestos, repressão violenta e mortes, o governo iraniano intensificou uma campanha de bode expiatório e incitação ao ódio contra a comunidade bahá’í, repetindo um padrão histórico que atravessa mais de quatro décadas.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, toda grande convulsão social, econômica ou política no Irã tem sido acompanhada por operações coordenadas de desinformação contra os bahá’ís.

O mecanismo é conhecido, batido e previsível: acusações genéricas, narrativas conspiratórias, ausência total de provas e o uso sistemático da mídia estatal para deslocar a atenção pública dos verdadeiros focos de insatisfação popular. O que se observa agora é uma escalada qualitativa dessa estratégia.

Na última semana de janeiro, programas transmitidos pelo Canal 2 da televisão estatal iraniana passaram a veicular acusações contra bahá’ís baseadas em supostas “confissões”. Em 1º de fevereiro, duas dessas confissões, vinculadas aos protestos nacionais, foram exibidas pela IRIB, a principal emissora do regime.

Organizações internacionais de direitos humanos documentam há anos essa prática nas prisões iranianas: detenções arbitrárias, coerção psicológica, ameaças explícitas e tortura para produzir versões convenientes ao Estado. A exibição dessas confissões na televisão não é apenas propaganda — é um instrumento de intimidação coletiva.

O dado mais eloquente, porém, permanece intacto: nunca houve prova. Em mais de quarenta anos de perseguição sistemática, o Estado iraniano não apresentou um único elemento verificável que sustentasse suas acusações contra os bahá’ís. Ainda assim, insiste. Porque o objetivo não é demonstrar culpa, mas fabricar medo e silenciar o dissenso.

Esse contexto foi levado formalmente ao debate internacional em 23 de janeiro de 2026, durante a Sessão Especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre o Irã, realizada em Genebra. Tratou-se da 39ª Sessão Especial do órgão desde sua criação, convocada diante do agravamento da repressão estatal após os protestos iniciados no final de 2025.

Na ocasião, Estados-membros relataram execuções, detenções em massa e violações sistemáticas de direitos fundamentais. O Conselho aprovou uma resolução que prorrogou o mandato da Missão Internacional de Investigação e do Relator Especial para o Irã, reconhecendo a gravidade e a persistência das violações.

Durante essa sessão, a BIC sublinhou um ponto decisivo: embora os bahá’ís carreguem uma longa experiência de perseguição institucionalizada, a injustiça hoje se expande para parcelas cada vez maiores da sociedade iraniana. O padrão que começou com minorias religiosas agora alcança estudantes, mulheres, jornalistas e trabalhadores comuns.

A representante da BIC em Genebra, Sra. Simin Fahandej, foi direta ao afirmar que os bahá’ís costumam ser os primeiros alvos quando o regime se vê pressionado. Ainda assim, há um contraste que desmonta a narrativa oficial: apesar de prisões, exclusões educacionais e econômicas e décadas de hostilidade estatal, os bahá’ís no Irã rejeitam categoricamente a violência. Não respondem com armas, não incitam ódio, não renunciam às suas crenças em troca de segurança. Sua reivindicação é elementar e profundamente humana: o direito de viver, trabalhar e contribuir para o progresso de um país que consideram sagrado.

Quando um Estado precisa fabricar inimigos internos para sobreviver, já revelou sua fragilidade. E, mesmo sob repressão, a verdade — como a história insiste em provar — tende a sobreviver aos regimes que tentam silenciá-la.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.