Maria Luiza Falcão Silva avatar

Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

157 artigos

HOME > blog

Irã: soberania sob cerco, sociedade sob pressão

Entre sanções impostas pelos EUA e repressão interna, o Irã vive um impasse estrutural que expõe os limites do autoritarismo e da guerra econômica

Manifestação a favor do governo em Teerã (Foto: Reuters)

Poucos países condensam com tanta nitidez as contradições centrais da ordem internacional contemporânea quanto o Irã. O que hoje se manifesta como crise econômica prolongada, protestos sociais recorrentes e risco permanente de guerra regional não pode ser compreendido sem um retorno rigoroso à história — nem sem nomear explicitamente quem impõe as sanções, como elas operam e quem paga o preço. Tratar o caso iraniano como um problema recente, isolado ou exclusivamente ideológico é falsear o debate e obscurecer suas raízes estruturais.

Convém lembrar, antes de avançar, que o Irã é herdeiro de uma das mais antigas formações civilizatórias do mundo. Conhecido como Pérsia até 1935, quando o nome Irã passou a ser adotado oficialmente no plano internacional, o país foi, por séculos, centro de impérios, redes comerciais e produção intelectual muito antes da ascensão europeia.

Essa longa história de soberania estatal e identidade cultural própria moldou uma relação profundamente ambígua com o Ocidente moderno: abertura seletiva, resistência persistente e rejeição recorrente à subordinação externa. Ignorar essa dimensão é reduzir o Irã a um “problema contemporâneo”, quando ele é, na verdade, um Estado com memória histórica longa, orgulho nacional consolidado e aversão estrutural à tutela estrangeira.

É justamente essa herança — combinada à experiência traumática do século XX — que ajuda a compreender por que a ruptura de 1979 assumiu a forma que assumiu. A Revolução Iraniana não surgiu no vazio, nem foi um desvio teocrático fora do tempo. Ela foi, em sua origem, uma reação política, social e nacional a décadas de interferência externa e autoritarismo interno, cristalizadas no regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, sustentado política, militar e economicamente pelos Estados Unidos desde o golpe de 1953 que derrubou o governo nacionalista de Mossadegh.

O projeto do xá combinava autoritarismo extremo, repressão sistemática e uma modernização econômica subordinada ao capital estrangeiro. O crescimento existia, mas era concentrado; a industrialização avançava, mas dependente; o petróleo financiava o Estado, mas não construía soberania popular.

A revolução foi plural: clérigos, trabalhadores, estudantes, setores de esquerda e nacionalistas compartilhavam a rejeição à tutela externa e à ordem social excludente. A consolidação do poder religioso não foi inevitável; resultou de uma correlação de forças moldada por décadas de repressão política e pela ausência de instituições democráticas capazes de mediar o conflito social.

A guerra como fundação do Estado sitiado

Logo após a revolução, o Irã foi lançado na Guerra Irã–Iraque (1980–1988), um conflito devastador, estimulado e financiado por potências ocidentais e regionais que viam o novo regime como ameaça estratégica. Essa guerra não foi apenas um trauma: fundou a arquitetura do Estado pós-revolucionário. Militarizou a política, fortaleceu a Guarda Revolucionária como ator econômico e naturalizou a lógica do cerco permanente. Desde então, o Irã passou a existir como Estado permanentemente vigiado, sancionado e pressionado, sem jamais ter sua soberania normalizada no sistema internacional.

Tentativas de abertura e a promessa frustrada

Entre os anos 1990 e meados da década de 2010, diferentes governos iranianos tentaram recompor relações externas e aliviar o cerco. A aposta no acordo nuclear (JCPOA) simbolizou essa estratégia: em troca de limites verificáveis ao programa nuclear, o país obteria alívio de sanções e reinserção econômica. A promessa, porém, revelou-se frágil. A retirada unilateral de Washington do acordo, seguida da reimposição e ampliação das sanções, frustrou expectativas sociais e reforçou a percepção de que a normalização externa era politicamente instável e economicamente incerta.

Para amplos setores urbanos, a mensagem foi clara: a abertura não produziu o desenvolvimento prometido; o fechamento, por sua vez, aprofundou a regressão social. Essa dupla frustração é parte central do mal-estar atual.

Quem impõe as sanções — e como elas funcionam

É preciso ser explícito. As sanções que estrangulam a economia iraniana não são difusas nem essencialmente multilaterais. Têm arquitetos centrais, instrumentos precisos e objetivos políticos claros.

O núcleo duro do sistema é o governo dos Estados Unidos. Ao longo das últimas décadas, Washington construiu um regime de sanções unilaterais com alcance extraterritorial, baseado em três pilares: (i) sanções primárias, que proíbem cidadãos e empresas americanas de negociar com o Irã; (ii) sanções secundárias, que punem bancos, empresas e países terceiros que mantenham relações econômicas com Teerã; e (iii) o controle do dólar e do sistema financeiro internacional, que permite impor decisões americanas ao resto do mundo, independentemente de respaldo multilateral. Trata-se, na prática, de uma arma monetária e financeira.

A União Europeia não é a arquiteta do sistema, mas aderiu por subordinação financeira. Mesmo quando governos europeus ensaiam discursos de autonomia, bancos e grandes empresas recuam por medo de retaliações. A Europa atua, assim, como correia de transmissão da política sancionatória de Washington.

Já o Conselho de Segurança da ONU tem papel secundário no estrangulamento que afeta o cotidiano iraniano. As restrições que atingem comércio, moeda, investimentos, logística, energia e medicamentos decorrem majoritariamente de decisões unilaterais dos EUA, fora do sistema multilateral. Invocar a ONU para legitimar esse cerco é analiticamente incorreto.

Nomear esses agentes é crucial: o bloqueio econômico do Irã é, antes de tudo, uma decisão política de Washington, sustentada pela centralidade do dólar.

Economia sob cerco: sobreviver não é desenvolver

Do ponto de vista da economia política, os efeitos são conhecidos. Sanções não produzem mudança de regime; reorganizam a economia de forma regressiva. A inflação crônica — especialmente em alimentos e moradia —, a desvalorização recorrente da moeda, o desemprego e o subemprego juvenil elevados e a deterioração de serviços públicos compõem um quadro de regressão social persistente.

Importa sublinhar: economia sancionada não é economia planificada; sanções não são política industrial; sobrevivência não é desenvolvimento. O cerco financeiro fragmenta cadeias produtivas, encarece insumos, bloqueia tecnologia e empurra a atividade para circuitos opacos. As elites centrais não são as principais vítimas; ao contrário, estruturas paraestatais e atores ligados ao aparato de segurança tendem a ganhar peso relativo. O custo recai sobre trabalhadores, mulheres, aposentados e jovens urbanos.

Sanções são apresentadas como instrumentos “cirúrgicos”, mas funcionam como punição coletiva e mecanismo de disciplina geopolítica.

Sociedade em transformação, regime em fechamento

Enquanto o Estado se cristalizou sob cerco, a sociedade iraniana mudou rapidamente. Urbanização, expansão do ensino superior, maior escolarização feminina e acesso massivo à informação produziram uma população jovem, conectada e crítica. Os protestos da última década — intensificados após a morte de Mahsa Amini — expressam o esgotamento do pacto social pós-revolucionário, sobretudo para mulheres e trabalhadores precarizados.

Cabe lembrar que Mahsa Amini foi a jovem curda iraniana, de 22 anos, que se tornou símbolo mundial da luta das mulheres e da sociedade civil contra a repressão no Irã.

Em setembro de 2022, Mahsa foi presa pela “polícia da moralidade” iraniana, em Teerã, acusada de usar o véu islâmico (hijab) de forma “inadequada”. Poucas horas depois, entrou em coma e morreu sob custódia do Estado. Testemunhas e familiares afirmaram que ela foi espancada, versão negada pelo governo iraniano.

A resposta do regime aos protestos tem sido a repressão, aprofundando o descompasso entre sociedade e sistema político. O impasse tornou-se estrutural: um Estado forjado na resistência externa, mas cada vez mais distante de sua base social.

Geopolítica regional e a armadilha da militarização

No plano externo, o Irã ocupa posição central nas tensões do Oriente Médio, sob pressão constante dos EUA e em confronto indireto com Israel. O apoio a atores regionais é visto pelo regime como estratégia de dissuasão e sobrevivência. Mas a militarização permanente cobra um preço elevado: drena recursos sociais, congela reformas econômicas e reforça o estado de exceção. A população paga o custo de uma guerra que não escolheu.

O caso iraniano impõe à esquerda um teste incontornável.

Não há posição progressista possível sem dizer claramente quem impõe as sanções, como elas funcionam e quem paga o preço. Ao mesmo tempo, não há internacionalismo legítimo que silencie diante da repressão interna.

Autoritarismo não é anti-imperialismo. Sanções não são política humanitária. Soberania que não se traduz em justiça social se esvazia historicamente.

Defender o povo iraniano hoje significa combater a guerra econômica conduzida pelos EUA, acirrada nos governos um e dois de Donald Trump, rejeitar aventuras militares e afirmar, sem ambiguidades, que soberania, direitos e justiça social são inseparáveis. A esquerda que recusa essa síntese abandona sua própria tradição crítica e, com ela, a capacidade de compreender o mundo que diz querer transformar.

A onda de protestos que varre o Irã desde o fim de dezembro de 2025 já é amplamente reconhecida como o mais sério e perigoso desafio social e político interno enfrentado pelo regime teocrático em anos. Diferentemente de mobilizações anteriores, ela combina desgaste econômico prolongado, esgotamento do pacto social pós-revolucionário e uma base social mais ampla, que vai além dos círculos estudantis urbanos e incorpora trabalhadores precarizados e mulheres jovens. Não se trata de uma explosão episódica, mas de um sintoma persistente de um impasse estrutural.

Ainda assim, seria analiticamente equivocado anunciar colapso iminente ou mudança de regime por decreto. O Estado iraniano mantém capacidade repressiva, coesão institucional e uma narrativa de cerco externo que, paradoxalmente, ainda sustenta parte de sua legitimidade. O perigo real não é uma queda súbita, mas a cristalização de um regime cada vez mais fechado diante de uma sociedade cada vez mais distante — combinação historicamente instável.

É nesse ponto que o Irã se converte em espelho de um mundo em crise. A guerra econômica das sanções, conduzida pelos Estados Unidos, não promove democracia; reforça o autoritarismo. A repressão interna, por sua vez, não garante soberania duradoura; corrói o vínculo social que a sustenta.

Para a esquerda mundial, o desafio é claro: recusar a falsa escolha entre denunciar o imperialismo externo ou criticar o autoritarismo doméstico. Defender o povo iraniano hoje significa combater o cerco econômico, rejeitar aventuras militares e afirmar, sem ambiguidades, que soberania, direitos e justiça social são inseparáveis. Qualquer posição que sacrifique um desses pilares, em nome dos outros, termina por comprometer todos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.