Irmã relata visita a Adélio em presídio federal e questiona como ele é mostrado em filme sobre Bolsonaro
A respeito de Dark Horse, respondendo à pergunta de Maria das Graças, ele disse: “Coisa boa não vem”
Maria das Graças Ramos de Oliveira, conhecida pela família como Lia, realizou recentemente uma visita virtual ao irmão Adélio Bispo de Oliveira, que encontra desde 2018 no Presídio Federal de Campo Grande (MS). A unidade foi concebida para custodiar presos considerados de alta periculosidade, incluindo lideranças de organizações criminosas.
Não é o caso Diagnosticado pela Justiça com Transtorno Delirante Persistente do tipo paranóide, condição que levou à sua inimputabilidade penal no processo referente ao episódio da facada em Juiz de Fora, em 2018, Adélio continua acompanhando de perto sua situação jurídica.
Segundo relato da irmã, ele demonstra compreensão das condições de seu encarceramento e dos desdobramentos relacionados ao seu caso. Durante a conversa, Maria das Graças informou ao irmão sobre a produção do filme Dark Horse, que retrata a trajetória política de Bolsonaro e dedica parte significativa de sua narrativa ao evento de Juiz de fora, na campanha presidencial de 2018.
Ao saber da produção, Adélio reagiu com desconfiança. “Boa coisa não vem”, teria dito. Segundo a irmã, Adélio mantém uma ideia recorrente envolvendo o ex-presidente Michel Temer. De acordo com seu relato, ele chegou a especular que Temer poderia estar por trás da produção cinematográfica — hipótese sem qualquer evidência.
Maria das Graças também manifesta preocupação com a utilização da imagem e da história do irmão na obra. Ela afirma que a família não foi consultada sobre eventuais direitos de imagem relacionados ao personagem inspirado em Adélio.
No filme, o acusado aparece sob o nome fictício de Aurélio Barba e é retratado como um ex-militante de organizações políticas de esquerda, supostamente conectado a dirigentes partidários e, indiretamente, a uma jornalista de uma grande emissora de televisão, aparentemente do exterior.
A narrativa sugere vínculos que remetem a partidos como PT ou PSOL e à mídia corporativa. Entretanto, documentos e informações constantes das investigações indicam um quadro mais complexo do que o retratado na obra.
Quando viajou para Juiz de Fora, Adélio havia solicitado desligamento do PSD, partido ao qual acreditava estar filiado. Conforme registros da investigação, a Polícia Federal encontrou em sua mochila um cartão contendo o telefone do então deputado federal Marcos Montes, liderança influente da legenda em Uberaba (MG). Esses elementos receberam pouca atenção na narrativa pública construída nos meses posteriores ao atentado.
O aspecto mais enfatizado por setores políticos e por parte da cobertura da época foi a antiga filiação de Adélio ao PSOL, entre 2007 e 2014. No entanto, essa informação, isoladamente, não permite concluir alinhamento político duradouro. Naquele período, o partido reunia perfis ideológicos variados e também abrigava militantes fortemente críticos aos governos petistas.
Outro aspecto frequentemente ausente dos relatos públicos sobre o caso refere-se à atuação de Adélio nas redes sociais. Em diversas manifestações registradas antes do atentado, ele defendia pautas posteriormente associadas ao bolsonarismo, entre elas a redução da maioridade penal.
O roteiro de Dark Horse também inclui cenas que não correspondem a fatos documentados. Entre elas, descrições de grande quantidade de sangue decorrente da facada. As imagens registradas no local mostram uma quantidade reduzida de sangue visível na roupa de Bolsonaro. À época, médicos explicaram que ferimentos perfurantes podem provocar apenas hemorragias internas.
Para Maria das Graças, a principal distorção permanece a caracterização de Adélio como um militante de esquerda atuando em coordenação com lideranças partidárias. Jefferson, filho de Maria das Graças, também contesta a caracterização de Adélio como esquerdista. .
Jefferson era muito ligado ao tio. Foi Adélio, pregador evangélico, quem encaminhou o sobrinho para ser membro de uma igreja neopentecostal. “Meu tio gostava das propostas da direita, como a de militares atuando em centros educacionais”, disse.
Adélio esteve na Câmara durante uma viagem a Brasília realizada no contexto de manifestações políticas. Segundo essa versão, sua presença na capital federal estava ligada a protestos contra o governo Dilma Rousseff, e não a encontros com parlamentares do PSOL.
O debate sobre a representação de Adélio em obras de ficção e sobre a construção pública de sua trajetória continua cercado de controvérsias. Enquanto o filme busca apresentar uma interpretação dramática dos acontecimentos de 2018, familiares sustentam que aspectos relevantes de sua biografia e de seu histórico político foram omitidos ou retratados de forma incompatível com os fatos conhecidos.
Adélio poderia apresentar de viva voz sua posição. Mas ele foi proibido pelo STF de dar entrevista e sua posição, exposta em ambiente de alta vigilância, é sempre exposta pelas perguntas da irmã.
Na prática, ele se encontra hoje em prisão que pode ser perpétua, já que não há previsão de sua saída, e não está recebendo tratamento médico adequado.
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Há mais de um ano, Maria das Graças divulgou carta aberta em que questiona a insensibilidade judicial diante da manutenção dele no presídio federal, há cerca de oito anos. "Estamos sofrendo", disse, a respeito de como a família se sente. Adélio, de acordo com parecer de uma junta médica, deveria estar recebendo atendimento médico, em hospital.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



