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Ricardo Mezavila

Escritor, Pós-graduado em Ciência Política, com atuação nos movimentos sociais no Rio de Janeiro.

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Ironia infeliz

A tentativa de ironia do ator ao citar Bolsonaro acaba minimizando a gravidade de um período marcado por retrocessos e mortes no Brasil

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho (Foto: Divulgação)

247 - Ainda seguindo agenda de divulgação de “O Agente Secreto” nos Estados Unidos, na semana passada, o ator brasileiro Wagner Moura foi entrevistado pelo tradicional programa The Daily Show.

Em determinado momento, Wagner ironizou ao agradecer ao ex-presidente Jair Bolsonaro por possibilitar o filme: “O filme tem recebido um grande reconhecimento desde o Festival de Cannes. E, em um dos prêmios que recebi, eu agradecia a ele (Bolsonaro). Sem ele, não teríamos feito o filme. O filme nasce a partir da perplexidade compartilhada por mim e Kleber Mendonça Filho diante do que estava acontecendo no Brasil entre 2018 e 2022”, falou o ator. “Este homem, eleito democraticamente, veio para trazer de volta valores da ditadura militar para o Brasil do século XXI”.

Wagner Moura foi assertivo em quase tudo, mas foi infeliz em “agradecer” a Bolsonaro pela tragédia que foi seu governo. Talvez, se o governo tivesse errado somente na economia, educação e cultura, que são totalmente reversíveis a partir de um novo governo eleito, o comentário fosse adequado.

Porém, o que vivemos de 2018 a 2022 foi muito além do que cálculos viciados, entrega de ativos, atropelos constitucionais e desvios nos conceitos de nação e pátria; fomos acometidos pela irresponsabilidade comandada pelo instinto cruel de Bolsonaro na pandemia.

O que o atual presidiário, preso no Complexo da Papuda, fez contra o povo brasileiro não pode ser associado, nem por ironia, à relevância da conquista de um prêmio.

Wagner Moura tem lado, o progressista, foi ativo nas recentes manifestações contra a anistia para golpistas, não se refuta em declarar ojeriza à extrema-direita, mas foi infeliz em ter agradecido a Bolsonaro, que não merece ser citado nem por ironia diante da grandeza de um prêmio cultural.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.