Washington Araújo avatar

Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

361 artigos

AI Gemini

Resumo premium do artigo

Exclusivo para assinantes

Síntese jornalística com foco no essencial, em segundos, para leitura rápida e objetiva.

Fazer login
HOME > blog

Israel, Irã e Estados Unidos na engrenagem histórica da retaliação infinita

Enquanto Washington, Teerã e Tel Aviv trocam mísseis e ameaças, o sistema internacional revela sua impotência estrutural

Israel, Irã e Estados Unidos na engrenagem histórica da retaliação infinita (Foto: Reprodução/Haaretz)

28 de fevereiro de 2026 não foi apenas mais uma data no calendário do Oriente Médio; foi o dia em que o céu voltou a se iluminar com explosões e o noticiário global passou a respirar no ritmo das sirenes. Pela manhã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nas redes sociais que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, estaria morto após uma ofensiva coordenada com Israel. Teerã reagiu de imediato, negando a informação e afirmando que o aiatolá permanecia vivo e no comando. Horas depois, às 22h30 no horário local, o próprio governo iraniano confirmou a morte de Khamenei, de sua nora e de seus netos, atingidos no bombardeio que destruiu o complexo onde ele vivia e trabalhava. Satélites registraram o que restou: concreto pulverizado, colunas de fumaça, um centro de poder transformado em ruína.

A operação, batizada de “Fúria Épica”, começou às 9h45 no horário de Teerã. Em menos de vinte e quatro horas, bombardeios atingiram 24 das 31 províncias iranianas, incluindo a capital e instalações próximas a Isfahan, onde funciona parte do programa nuclear. Segundo o Crescente Vermelho iraniano, 201 pessoas morreram e 747 ficaram feridas. Em Minabe, uma escola primária para meninas foi atingida; imagens de moradores buscando sobreviventes circularam globalmente.

A retaliação veio em ondas de mísseis e drones contra Israel e bases americanas em Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, Jordânia e Iraque. Houve mortos em Abu Dhabi e Bagdá; em Tel Aviv, prédios foram atingidos e ao menos 21 pessoas ficaram feridas. Cerca de 1.600 voos foram cancelados. O Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transitam aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo por dia — algo entre 20% e 25% do consumo global de petróleo e gás. Desde janeiro, o Brent acumula alta próxima de 20%, fechando a US$ 72,87 na véspera dos ataques.

O Conselho de Segurança reuniu-se em emergência. O secretário-geral pediu cessação imediata das hostilidades. França, Alemanha e Reino Unido defenderam o retorno às negociações; Rússia e China expressaram preocupação; a União Europeia convocou consultas extraordinárias. Ainda assim, a ONU parece falar em voz baixa quando seus cinco membros permanentes erguem o tom. A arquitetura criada em 1945 para impedir novas catástrofes globais revela fissuras sempre que interesses estratégicos se chocam. O veto, concebido como freio, converte-se em bloqueio.

Há também a dimensão interna dos países envolvidos. No Irã, um sistema teocrático consolidado desde 1979 concentra poder no Líder Supremo, que supervisiona Forças Armadas, Judiciário e política externa. Protestos em 2019, 2022 e no início deste ano foram reprimidos com prisões em massa e milhares de mortos segundo organizações de direitos humanos. Nos Estados Unidos, juristas questionam a constitucionalidade de uma ofensiva sem autorização formal do Congresso, evocando a Lei dos Poderes de Guerra de 1973. Em Israel, o governo sustenta que age para neutralizar ameaças existenciais. Cada capital invoca segurança; cada sociedade paga um preço.

Mas a guerra raramente começa no dia em que os primeiros mísseis cruzam o céu. Ela é uma herança que se transmite como um testamento invisível. Filhos aprendem a pronunciar nomes de batalhas antes de aprender geografia. Monumentos celebram vitórias; cemitérios silenciam dúvidas. O ressentimento sedimenta-se em camadas, como rocha comprimida por décadas. Quando a violência retorna, encontra terreno preparado.

A lógica é conhecida: ataque, retaliação, promessa de dissuasão, nova escalada. A cada ciclo, amplia-se o repertório tecnológico — drones mais precisos, sistemas antimísseis mais sofisticados, arsenais nucleares em permanente sombra. E, no entanto, o elemento constante é humano: medo, orgulho ferido, desejo de revanche. Sentimentos congelados que atravessam gerações e impedem que a memória se transforme em aprendizado.

A economia global reage com volatilidade; investidores retraem-se; moedas oscilam. Mas o custo maior não se mede em índices. Ele se revela na rotina interrompida de crianças que corriam para a escola no primeiro dia útil da semana, em famílias que buscam abrigo enquanto líderes discutem linhas vermelhas.

Sem um compromisso efetivo com princípios humanistas — proteção de civis, respeito ao direito internacional, primazia da diplomacia — a engrenagem continuará girando. A paz não se impõe por bombardeios nem por bravatas. Ela exige instituições capazes de limitar o poder e sociedades dispostas a romper a cadeia da vingança. Caso contrário, 28 de fevereiro de 2026 será apenas mais uma data numa cronologia que insiste em repetir-se.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.