Já está acontecendo. Qual é o próximo passo que esperamos? Uma Noite dos Cristais brasileira?

Uma rápida passada de olhos no Whatsapp me trouxe o desprazer de me deparar com um grotesco vídeo que está rodando pelas redes e que certamente há de ficar registrado nos livros de história do porvir. (Se é que haverá livros de história brasileiros no porvir.)



Não estava nos meus planos escrever meu artigo semanal neste exato momento. Minha meta nesta fria manhã de primavera alemã era trabalhar em outros afazeres e obrigações. Mas às vezes algo tão brutal nos salta aos olhos, algo que traduz uma realidade tão horripilante e evidente, que simplesmente nos obriga a nos expressarmos. Pois bem, o que houve foi o seguinte: uma rápida passada de olhos no Whatsapp me trouxe o desprazer de me deparar com um grotesco vídeo que está rodando pelas redes e que certamente há de ficar registrado nos livros de história do porvir. (Se é que haverá livros de história brasileiros no porvir.)

Possivelmente vocês já o assistiram. Refiro-me ao breve vídeo em que um cidadão uniformizado e de boina vermelha se dirige à câmera “alertando” a Esquerda que o presidente do Brasil não está sozinho, caso esta tente qualquer coisa para derrubá-lo do poder. Ele então inclina a câmera e filma outras dezenas de homens como ele, todos também uniformizados de camisetas pretas e de boinas vermelhas. Muitos vestem calças camufladas de exército e coturnos. Alguns são vistos “batendo continência”. No fim do vídeo o cidadão desafia: “Junta o que vocês tiver (sic) de melhor e tenta”, diz ele em tom debochado e ameaçador.

Vejam, caras leitoras e caros leitores. Eu convivo com a questão do nazismo direta- e indiretamente desde que fui concebido, afinal sou descendente de sobreviventes do hitlerismo. Quando me tornei adulto, passei a estudar o tema profundamente e mesmo me dedicando à música, escrevi parte do meu doutorado em musicologia sobre músicos fugidos do nazismo alemão. E quem segue meu trabalho, sabe que já escrevi aqui no Brasil247 diversos artigos que encostam nesta temática. Então para mim – e, é claro, também para outras pessoas que da mesma forma se especializaram no assunto – coisas relacionadas a tudo isso são não somente claras e facilmente detectáveis e compreensíveis, mas até mesmo familiares (não no sentido de família, mas no sentido de familiaridade). Por que lhes digo isto? Pois quero que saibam que para mim é claro e cristalino que Bolsonaro é a maior representação do Neonazismo ativo e no poder que há hoje no mundo. E isso se confirma mais a cada dia.

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Estes “boinas-vermelhas” – grupo cujo núcleo, ao que parece, é formado por paraquedistas e ex-paraquedistas do exército – representa a continuação dos paralelos entre bolsonarismo e hitlerismo que vemos desde o início da ascensão desta pessoa à presidência. Não farei uma resumo completo de tudo o que já se passou, pois a intenção deste artigo é focar no vídeo em questão, mas quem se interessar pelo tema, busque por favor na internet o documento ‘O antissemitismo durante o governo Bolsonaro’, publicado pelo Observatório Judaico dos Direitos Humanos do Brasil. Neste documento, do qual sou um dos autores, há um capítulo intitulado ‘Iconografia e linguagem’, no qual explicamos como o bolsonarismo se alinha ao nazifascismo do século XX. E este documento, publicado em julho de 2020, já está desatualizado, pois este alinhamento segue um trilho contínuo, ou seja, muito mais já ocorreu até o presente momento com relação a esta realidade.

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Bem, vamos lá. Especificamente sobre o vídeo, a reflexão que quero erguer é a seguinte. Antes de Hitler tomar o poder em 1933, eleito democraticamente (e mais democraticamente que Bolsonaro, pois seu principal oponente nas eleições não fora vítima de uma criminosa prisão política), seu partido estimulou a criação de um grupo paramilitar chamado ‘Sturmabteilung’, abreviado “SA” (literalmente “Unidade da Tempestade”, mas a palavra “Sturm” em alemão, além de tempestade, significa algo como invasão, ataque, irrupção). Este grupo, fundado em 1921 era formado por civis e ex-soldados, e foi criado para fazer exatamente o trabalho para o qual os “boinas-vermelhas” hoje anunciam estar preparados: proteger seu líder (Führer) e intimidar com ameaças de violência física qualquer um que ouse se colocar no caminho dele.

Naquela época os dois únicos partidos políticos que se opunham aos nazistas eram os comunistas (KPD) e os social-democratas (SPD). Os “camisas-marrons”, como também eram chamados graças à cor de seus uniformes, buscavam destruir reuniões destes dois partidos, assim como convenções de uniões trabalhistas e sindicatos. E é claro, havia também a intimidação às minorias perseguidas pelos nazistas, como os judeus e os ciganos, que também eram constantemente alvo de seus ataques. 

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A Itália fascista de Mussolini possuía o mesmo sistema de organização paramilitar, com os mesmos objetivos. A ‘Milizia Volontaria per la Sicurezza Nazionale’ (“Milícia voluntária pela segurança nacional”), também conhecidos como os “squadristi” (“membros da esquadra”), nasceu em 1923 e seus homens eram identificados por suas camisas pretas, assim como o grupo bolsonarista.

Tantos a SA quanto a MVSN possuem suas trajetórias próprias, se desenvolvendo conforme seus líderes cresciam no poder. Por exemplo, a história da SA se mistura com o da SS (‘Schutzstaffel’, “Esquadrão de proteção”), a principal organização paramilitar de Hitler, que foi o instrumento maior de perpetração dos crimes nazistas. Mas isto já é outra história. O que quero deixar claro é como a SA foi essencial para a ascensão de Hitler, a manutenção de seu poder, e, sobretudo, a execução de seus planos que culminariam na Segunda Guerra Mundial – e, a partir disso, o que pode vir a ocorrer no Brasil.

Possivelmente a maior ação da SA foi a ‘Kristallnacht’(“Noite dos Cristais”), ocorrida entre 9 e 10 de novembro de 1938. Este episódio, compreendido como o prelúdio para a ‘Endlösung der Judenfrage’ (“Solução final da questão judaica”, ou seja, a eliminação do povo judeu através do genocídio), consistiu em um pogrom (ataque violento e massivo a um grupo étnico) aos judeus em toda a Alemanha. Dezenas foram assassinados, milhares foram espancados, centenas de sinagogas foram depredadas e queimadas. E quem arquitetou tudo isso foi a SA. Milhões de civis, de “pessoas normais”, ajudaram, espancaram, depredaram. Conheci testemunhas (tanto judeus quanto não-judeus) que estavam lá e viram tudo com seus próprios olhos. Embora a ação fosse extraoficial, ou seja, não partiu de uma ordem governamental, o governo hitlerista sabia que aconteceria e obviamente não somente permitiu, mas também legitimou e encorajou os atos. Por fim, a polícia nazista ainda por cima prendeu cerca de 30 mil judeus.

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Agora pergunto à leitora e ao leitor: qual é o próximo passo no Brasil de Bolsonaro? Um governo nazifascista já está no poder; seu líder possui dimensão mítica e é adorado de maneira sectária; a ideologia do ódio e da dominação sobre outros está solidificada aos seus seguidores; agora eles possuem um grupo paramilitar armado com o propósito de proteção e intimidação; os inimigos já estão escolhidos; a máquina de fake news mostra-se mais eficiente do que nunca. E ainda por cima há a pandemia que agrega a tudo isto a questão do genocídio. Ainda que de maneira diversa à de Hitler, não nos esqueçamos que quem mais morre de COVID-19 é o preto pobre e o indígena, e não o branco rico. A política higienista também é evidente.

O próximo passo é uma espécie de Noite dos Cristais brasileira? Desta vez as vítimas não seriam os judeus, mas sim os esquerdistas que “sacrificam crianças como os judeus faziam”, como postou ontem o deputado bolsonarista Roberto Jefferson em seu Instagram? E junto com os esquerdistas a comunidade LGBT+ como um todo, com seus “kit gays” e suas “mamadeiras”? E as feministas com seus “movimentos diabólicos”?

Já aviso que se isso acontecer, não será idêntico a 1938, não esperem isso. Mas será muito semelhante em termos de ideologia, propósito e método. E com uma roupagem contemporânea, é claro. Ou alguém considera impossível ou improvável que gradualmente vejamos ataques e linchamentos por parte de milicianos sobre os alvos do bolsonarismo? Acredito que nesta altura da história não há ninguém mais tão ingênuo sobre tudo o que esse movimento pode proporcionar, não?

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Cabe ainda uma lembrança mais. Este vídeo atual não é a primeira aparição deste grupo de boinas-vermelhas. Em maio de 2020 eles visitaram seu Führer no Palácio da Alvorada e proporcionaram uma cena que também deverá entrar nos livros de história, que está devidamente registrada e pode-se facilmente encontrar na internet. Todos se reuniram em frente ao presidente e o saudaram erguendo seus braços direitos estendidos. Exatamente igual à saudação hitlerista. Depois justificou-se por aí que eles estavam rezando e, aparentemente, alguns evangélicos rezariam com suas mãos estendidas à frente… Estratégia “manjada” de propaganda. Produz o imaginário, o registra e o imprime na mente das pessoas, e depois desmente com uma desculpa qualquer. Na época mostrei a foto deste episódio a amigos alemães, que obviamente ficaram completamente estarrecidos ao verem imagens dos livros de história saltarem aos seus olhos em sua contemporaneidade.

Encerro este artigo lembrando a todos que o monstro não enganou ninguém sobre quem ele era. Ele sempre se mostrou. Para os minimamente atentos já era claro que ele representava o Neonazifascismo no Brasil desde 2018. Agora ele tem o poder, e a última coisa que está em seus planos é largá-lo. Tudo o que Trump fez para assassinar a Democracia nos EUA – e foi o maior ataque a ela na história daquele país – Bolsonaro estará disposto a fazer em dobro. Por isso não é hora de subestimar um líder que já chegou tão longe e segue passo a passo a cartilha de Hitler. Eles estão armando a “Sturm verde-amarela” e estão anunciando abertamente diante de nossos narizes. Ou aprendemos com a história da humanidade, ou tudo de ruim que já ocorreu desde 2018 pode ter sido somente o prelúdio de coisas muito piores que ainda virão.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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