Já estamos na Terceira Guerra Mundial?
Conflitos híbridos, disputa entre grandes potências e erosão da ordem internacional indicam que a guerra global já ocorre de forma difusa e permanente
Do final da Segunda Guerra Mundial a 1989, vivemos num mundo bipolar, numa disputa global entre EUA e URSS. Em 1989, começamos uma era unilateral. Ao buscar o domínio incontestável em todos os domínios, os EUA posicionam-se como o poder soberano de fato no sistema internacional. A “Dominância de Espectro Total” (“Full Spectrum Dominance”) é a doutrina militar dos EUA que não se refere apenas ao domínio militar tradicional, mas ao controle de todas as dimensões do ambiente de batalha, garantindo a liberdade de ação própria e negando-a ao adversário. A doutrina aspira a um monopólio global da força militar legítima e eficaz. Nos anos 2000, os EUA se lançaram numa guerra infinita no Oriente Médio; em 2008, houve uma grande crise financeira e, desde então, seu poder diminuiu relativamente com a ascensão da China e a reemergência da Rússia, fazendo com que o mundo se torne cada vez mais tripolar, com três grandes potências regionais. Porém, o sistema unilateral do pós-Guerra Fria não se reforma espontaneamente. Na história, uma nova ordem mundial só emerge com uma grande guerra mundial que redistribui o poder e constrói um novo equilíbrio de poder.
A globalização neoliberal aprofundou assimetrias entre centros e periferias, enquanto a reascensão de potências como China e Rússia desestabilizou a ordem unipolar liderada pelos EUA. Organismos multilaterais enfraqueceram-se e a cooperação internacional deu lugar a rivalidades estratégicas. A relativa unipolaridade liderada pelos EUA no pós-Guerra Fria está a dar lugar a uma multipolaridade disputada principalmente entre EUA, China e Rússia, mas também com potências médias regionais emergentes. Este período de transição é inerentemente instável, assemelhando-se ao sistema de Estados hobbesiano em escala global, onde não há um poder soberano superior para impor regras. Cada Estado-nação age, na prática, como um indivíduo no estado de natureza, buscando seu próprio poder e segurança acima de tudo. Esta guerra difusa e onipresente cria um sentimento de vulnerabilidade permanente, onde o inimigo é muitas vezes invisível e as fronteiras nacionais são porosas.
Trump reconhece que os EUA não podem mais agir como um Leviatã global e busca restringir seu controle à sua esfera regional. Trata-se de readequar a hegemonia unilateral mundial dos EUA para uma hegemonia regional, aceitando o papel de China e Rússia como grandes potências regionais. Nesse contexto, seu objetivo de curto prazo é “reconquistar” os países mais fracos e dependentes dos EUA na América Latina, buscando garantir sua supremacia regional, numa reedição da Doutrina Monroe do início do século XIX.
É dentro desse contexto que se insere o ataque dos EUA à Venezuela. Além da “lição” para governos que contestam os EUA, Trump visa ao acesso ao petróleo como um preparativo para a guerra contra o Irã, pois conseguiria abastecer o mercado sem o Estreito de Ormuz. Acredita-se numa solução simples: substituir o líder e todos os problemas irão se resolver. Vão tentar “governar” a Venezuela para as grandes petrolíferas. Não se descarta que uma insurgência interna, paralela ao que aconteceu com a Colômbia, se espalhe pela região amazônica. Trump será forçado a mandar tropas para estabilizar a região. A escalada pode ganhar um caráter regional, com a reivindicação de controle imperial absoluto dos EUA sobre a América Latina, com outros alvos como Cuba, México, Colômbia, Nicarágua, Panamá e Brasil.
O ataque imperial dos EUA à Venezuela, bombardeando o país e sequestrando o presidente Nicolás Maduro, é apenas o último capítulo de um número crescente de conflitos globais, revelando uma dura verdade que a maioria de nós prefere não encarar profundamente: a Terceira Guerra Mundial já começou.
O consenso majoritário é que não estamos em uma guerra mundial no sentido tradicional (como 1914-18 ou 1939-45), mas é inegável que estamos num período de conflito globalizado e multifacetado que pode representar uma nova forma de guerra, com dinâmicas inéditas. Todos os países do mundo estão se preparando para a Terceira Guerra Mundial, mesmo que não o admitam. Todos os países estão preocupados com a crescente anarquia no sistema internacional. Trilhões estão sendo gastos com Forças Armadas, com a justificativa de que algum ator está agindo de forma ofensiva. Os países dizem que estão apenas se defendendo de alguma ameaça, mas, enquanto isso, muitos estão reaparelhando suas forças armadas. Não é que os países queiram a guerra, mas o caos sistêmico vai arrastando os países a serem mais precavidos com a escalada militar mundial.
O que estamos começando a ver é uma interconexão entre conflitos aparentemente distintos, como a guerra entre a OTAN e a Rússia, a queda de Bashar al-Assad na Síria, a luta entre Israel e o Hamas, a guerra civil no Sudão, os conflitos entre Paquistão e Índia, Camboja e Tailândia, ataques à Nigéria e à Venezuela, de uma forma que não víamos desde 1945. Já existem batalhas em andamento sendo coordenadas em vários países. Embora esses conflitos possam parecer distintos à primeira vista, eles compartilham várias características que justificam vê-los como componentes de um único conflito global abrangente. Essas características incluem a participação de grandes potências, direta ou indiretamente, por meio de aliados, a interligação de objetivos políticos, econômicos e ideológicos e o impacto em cascata de um conflito sobre os outros, criando uma reação em cadeia de instabilidade. Essa tendência provavelmente continuará a se expandir, envolvendo mais países e regiões nesse vórtice.
O conceito de “guerra mundial” mudou, não sendo mais um conflito bipolar declarado, com linhas de frente claras, mas um conflito sistêmico e descentralizado, com guerra híbrida que combina guerra convencional (Ucrânia, Gaza), ciberguerra, guerra econômica (sanções em escala global), guerra de informação/desinformação, guerra de chips e operações de proxy, além de crises regionais que se tornam elos de uma cadeia de confronto entre grandes potências (EUA/OTAN x Rússia; EUA x China). A competição por recursos alimentares, energéticos e minerais críticos e o controle de corredores de infraestrutura são batalhas silenciosas. Vai se formando um eixo com EUA, OTAN, Israel e aliados, e outro de Rússia e China em uma “parceria sem limites”, com apoio de potências regionais como Irã e Coreia do Norte e simpatia de vários países do Sul Global (BRICS+). É uma bipolaridade renovada, com campos de influência delineados, num contexto em que a retórica nuclear voltou ao cenário e ocorre o fim de tratados de controle armamentista.
Como observou Clausewitz, “cada época teve seu próprio tipo de guerra, suas próprias condições limitantes e suas próprias peculiaridades”. Espera-se que a Terceira Guerra Mundial seja muito diferente das guerras mundiais do século passado, com um alcance mais global e natureza singular, envolvendo guerras subterrâneas, econômicas e biológicas. Em todo o mundo, existem potenciais para grandes escaladas em 2026. Assim como nos estágios iniciais das guerras mundiais anteriores, essas crises interconectadas estão apagando as fronteiras entre conflitos locais e globais, envolvendo nações e alianças em uma luta mais ampla por domínio e sobrevivência. A linha entre paz e guerra tornou-se incrivelmente tênue e difusa. Isso, mais do que batalhas isoladas, é o que define uma guerra mundial.
O mundo caminha para um período prolongado de instabilidade sistêmica e competição estratégica. Existe uma tendência à “desglobalização” ou “globalização fragmentada”, em que diferentes peças (militar, econômica, tecnológica, informacional) se encaixam para formar um grande quadro de confrontação entre ordens mundiais rivais. Com tantas crises simultâneas e linhas de tensão, o risco de um erro de cálculo (um incidente naval, um ciberataque grave, uma crise da bolha da IA) que desencadeie uma escalada incontrolável é real e preocupante. O maior desafio para os próximos anos será gerenciar essa rivalidade sem cruzar o limiar da guerra termonuclear, enquanto se redefine, de forma conflituosa, a arquitetura da nova ordem mundial.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

