Jair no divã de Freud

O cartunista Miguel Paiva encena uma improvável ida de Bolsonaro a um divã de psicanalista - e, nada mais nada menos, que ao maior dos psicanalistas, Sigmund Freud: "Freud - O senhor está sendo agressivo. Isso me parece mais um Transtorno de Personalidade Borderline onde as pessoas costumam apresentar uma hiper reatividade afetiva / JAIR- Eu não sei nada disso. Isso é discurso da esquerdalhada. Vou varrer esses comunistas da face da terra. Vou mandar todos pra Venezuela!"

Tragicomédia em um ato e dois atores.

O pano abre num consultório na penumbra. No divã um paciente com a cara de louco alisando a franja e fazendo arminha com a mão. Na poltrona um analista que fuma um charuto.

A luz se acende no paciente Jair que começa a falar

JAIR- Antes de tudo eu queria dizer que estou aqui contra a vontade. Fui obrigado, talkey?

FREUD- Ninguém nos obriga a nada. O senhor está aqui porque a História assim o quis e o que a História quer não tem perhaps.

JAIR- Eu não preciso de terapia. Nunca precisei, nunca vou precisar...

FREUD- Agora é tarde.

JAIR- Vou embora, então. Tenho mais o que fazer. O senhor não está ouvindo o povo gritando lá fora? Mito! Mito!...é pra mim.

FREUD (para um pouco para ouvir) -  Não ouço nada. O senhor está imaginando coisas. Ouvindo vozes.

JAIR- Eu sou o Mito...

FREUD- Mitômano, o senhor quer dizer.

JAIR- Não falo alemão, nem norueguês, nem castelhano...não sei.

FREUD- Mas inglês o senhor fala?

JAIR- Só sei falar Talkey...mas meu filho sabe falar e ficar em silêncio em inglês.

FREUD- Where is Queiroz, ele responde?

JAIR- Ele só fala inglês americano.

FREUD- O senhor se acha um bom pai?

JAIR- Sou um pai do caralho...digo, do cacête, porra. Meus filhos me adoram...ai deles se não me adorarem!

FREUD- O senhor está sendo agressivo. Isso me parece mais um Transtorno de Personalidade Borderline onde as pessoas costumam apresentar uma hiper reatividade afetiva, em que as situações boas são ótimas ou excelentes, e as ruins ou desfavoráveis são péssimas ou catastróficas.

JAIR- Eu não sei nada disso. Isso é discurso da esquerdalhada. Vou varrer esses comunistas da face da terra. Vou mandar todos pra Venezuela!

FREUD- Acho que o senhor está manifestando um Transtorno de Ansiedade Social- uma síndrome ansiosa caracterizada por manifestações de alarme, tensão nervosa e desconforto desencadeadas pela exposição à avaliação social. Tudo isso ocorre até o ponto de interferir na maneira de viver de quem a sofre.

JAIR- Na minha interferiu muito. Fui eleito, talkey?  Sou presidente, Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Aqui mando eu. Sou assim mesmo e não vou mudar.

FREUD- Isso se chama TOC, transtorno obsessivo compulsivo- É tratável, mas a pessoa é dominada por pensamentos desagradáveis de natureza sexual, religiosa, agressiva entre outros, que são difíceis de afastar da sua mente, parecem sem sentido e são aliviados temporariamente por determinados comportamentos.

JAIR- Eu me alivio fazendo cocô dia sim, dia não.

FREUD- Escatologia- Típica nessa situação...

JAIR- Olha aqui, cansei desse mimimi todo. O povo me elegeu e aprova tudo o que eu faço. Sou escolhido não só pelo eleitorado mas por deus também. 

FREUD-Megalômano, egocêntrico, prepotente. Deve acreditar em heróis também?

JAIR- Brilhante Ustra, herói nacional. Meu ídolo.

FREUD- Idolatrar não é bom Aliás, o senhor vive num mundo de fantasias e ilusões. Acaba semeando mentiras e acreditando nelas. Isso me aparece mais esquizofrenia ,quando existem irregularidades no discernimento ou a expressão das coisas que estão ao seu redor. Quando uma pessoa sofre desta doença não tem o discernimento sobre o que é real ou não, ela pode ter um enorme efeito em sua capacidade de ouvir, ver, olfato, paladar e tato.

JAIR- Tato? O senhor está falando em tato? Posso lhe dar uma voadora no pescoço pro senhor sentir o meu tato. 

FREUD- Agressividade infantil. Complexo de Édipo...moleza...

JAIR- O senhor vai me tratar ou não? Vou pedir ao Queiroz para pagar as consultas.

FREUD-  Não precisa. Não vou atendê-lo. Temos uma prerrogativa, nós analistas, que do mesmo jeito que vocês nos escolhem, nós escolhemos vocês. E eu não aceito o senhor como paciente. Tenho mais o que fazer e a porta de saída é ali, mais perto do que o senhor imagina.

Freud se levanta e sai. Jair fica olhando para a porta esperando que alguém apareça para explicar o que houve.

Luz vai se apagando.

Pano rápido, bem rápido.

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