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Leonardo Attuch

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.

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James Onnig: a partida de um homem bom

Comentarista frequente da TV 247, Onnig era essencialmente um professor; um homem generoso disposto a compartilhar todo o seu vasto conhecimento

James Onnig e Flotilha da Liberdade (Foto: Divulgação)

A morte do professor e analista geopolítico James Onnig, aos 60 anos, deixa um vazio profundo em todos nós que tivemos o privilégio de conviver com ele. Não apenas pela inteligência rara e pela formação sólida que possuía, mas sobretudo pela maneira como escolhia viver: com gentileza, generosidade e um desejo permanente de compartilhar tudo o que sabia.

James era, acima de tudo, um homem bom. Bom no sentido mais amplo e verdadeiro da palavra. Era daqueles que escutam antes de falar, que acolhem antes de julgar, que ajudam antes mesmo de serem solicitados. E era também um homem de conhecimento vasto, construído ao longo de décadas de estudo, ensino e reflexão, mas sempre tratado por ele com humildade, como se soubesse que o saber só tem sentido quando é compartilhado e serve à comunidade

Na TV 247, James fazia exatamente isso: colocava seu conhecimento a serviço do público. Sempre nos presenteava com análises lúcidas, com interpretações profundas sobre a política internacional, sobre a história dos povos, sobre as grandes disputas do nosso tempo. Mas, mesmo quando tratava de temas densos, nunca perdia a delicadeza. Sua postura era sempre serena, didática, paciente, como a de um professor que não quer apenas impressionar, mas sobretudo formar. 

James tinha prazer em ensinar. E esta era uma de suas maiores virtudes: ele não guardava nada para si. O conhecimento, para ele, era um bem coletivo, algo que precisava circular, ser partilhado, se transformar em consciência e emancipação.

Nesta tarde, sua despedida foi marcada por uma cerimônia de grande beleza e emoção no cemitério Gethsemani, no Morumbi. Amigos, representantes da comunidade armênia, familiares e alunos estiveram presentes para prestar o último tributo a um homem que deixou marcas profundas em tantas vidas. Não foi apenas um adeus, mas um belo encontro de afeto, gratidão e reconhecimento.

O momento da despedida foi também marcado por um gesto que ajuda a compreender quem ele foi. Sobre seu féretro foram colocadas quatro bandeiras que resumiam muito de sua identidade e de seu caminho: a bandeira da Armênia, a do Partido Revolucionário Armênio, a do Partido dos Trabalhadores e a do Corinthians. Ali estavam, lado a lado, as paixões que ajudaram a moldar sua história e seu espírito.

Sua esposa, Simone Tamdjian, traduziu com delicadeza e precisão o que ele representava. Lembrou suas quatro grandes paixões: a Armênia, o conhecimento, a política e o Corinthians. Ao ouvi-la, muitos compreenderam que James era feito dessa mistura rara: pertencimento e universalidade, identidade e generosidade, paixão e consciência.

James Onnig partiu, mas permanecerá vivo na memória de seus amigos, na gratidão de seus alunos, no carinho de sua família e no legado que deixou em cada conversa, aula e intervenção pública compartilhada na TV 247.

Num tempo em que a brutalidade e o egoísmo tantas vezes se impõem, a presença de pessoas como James é um lembrete de que ainda existem homens bons neste mundo. Hoje nos despedimos de um deles.

Reveja, abaixo, a homenagem prestada por ele à jornalista Nathalia Urban, quando de um ano de seu falecimento:


* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.