Japão: do milagre japonês às décadas perdidas - parte II

Suportar o insuportável. O período de ocupação e recuperação (1945-1954)

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No dia 15 de agosto de 1945, os japoneses ouviram pela primeira vez a voz de seu imperador em rede de rádio. Com voz firme, o supremo líder anunciava a rendição aos Aliados, colocando fim à Segunda Guerra Mundial. Mais do que isso, significava o fim de um período onde os delírios imperialistas dos governantes haviam arrastado o Japão para uma guerra infrutífera, levando seu povo e os povos e vizinhos a grande penúria e sofrimento. 

Agora, humilhado, o imperador não só reconhecia a derrota, mas também ordenava ao povo que suportasse o insuportável: obediência e conformismo. O país estava sob ocupação de seu inimigo Estados Unidos e um general norte-americano seria o novo governante da nação. 

O saldo do Japão na guerra foi terrível: quase três milhões de mortos; cidades devastadas por bombardeios, incluindo o ataque nuclear em Hiroshima e Nagasaki; dívidas de guerra; parques industriais transformados em pó; crise econômica e de alimentos; inflação galopante; risco de rebeliões e movimentos separatistas; milhares de feridos de guerra retornando e precisando de cuidados; e uma máquina de guerra que custou bilhões de ienes destruída. 

Diante de um cenário como esse, acentuado pela dependência de combustíveis, insumos e alimentos que chegavam das colônias perdidas, a rendição do Japão e a entrega do controle do arquipélago para o general MacArthur acabaram por se tornar uma saída para a reconstrução do país. 

Os Estados Unidos, ao se instalarem no Japão, estavam com os olhos em seus rivais na Guerra Fria, uma vez que os soviéticos, além da proximidade territorial, haviam entrado na região chinesa da Manchúria, outrora estado fantoche japonês e ocupado parte da península coreana. Além disso, os comunistas estavam vencendo a guerra civil no sul da China, empurrando os nacionalistas para o litoral. 

Tudo levava a crer que o extremo oriente se tornaria dominada pela URSS e os americanos precisavam de um porto seguro local para garantir seus interesses na região. 

O governo japonês soube se aproveitar disso, principalmente na figura do primeiro-ministro Yoshida, recebendo grande apoio financeiro e estrutural dos Estados Unidos para reconstrução nacional, embora tivesse de tolerar imposições como a imposição de uma constituição escrita pelos ocupantes, aos moldes do sistema americano. Havia também a redução dos custos militares, uma vez que as tropas do general MacArthur garantiam a segurança interna e contra ataques de nações estrangeiras. 

No entanto, nos primeiros anos da ocupação, as reformas impostas pelos Estados Unidos eram de caráter punitivo, visando enfraquecer o Japão e torná-lo um Estado vassalo e agrário, a fim de suprimir qualquer aspiração expansionista. As principais medidas foram desmantelar as empresas de atividades de produção bélica e as “zaibatsu”, grandes conglomerados empresariais acusados de apoiar as ações militaristas na Segunda Guerra. Também foram realizadas ações como aumentar o poder de instâncias locais, como prefeituras (visando minar o poder central) e reforma agrária (visando alimentar a população e reduzir os custos americanos com envio de alimentos). 

A partir do início da década de 1950, no entanto, ocorre uma mudança de postura, com a vitória dos comunistas na guerra civil da China (1949) e o início da Guerra da Coréia (1950). 

O desenrolar da Guerra Fria levou os americanos a concluírem que a melhor forma de resistir aos avanços soviéticos era garantir desenvolvimento econômico dos seus aliados. A partir de então, as reformas foram relaxadas progressivamente, ao mesmo tempo em que se adotavam medidas monetárias e fiscais a fim de estabilizar a inflação e criar um ambiente propício para a industrialização, além de ampliar os financiamentos destinados ao arquipélago. 

O Estado japonês passou a adotar medidas de reativação e incentivo a industrialização, com pesado investimento público e papel ativo no processo. Ao mesmo tempo, a Guerra da Coréia tornou os japoneses os principais fornecedores de produtos alimentícios, equipamentos e material bélico para os Estados Unidos, tornando a balança comercial entre os países favorável ao Japão pela primeira vez.  

Em 1952, após sete anos de ocupação, as forças militares dos EUA deixaram o Japão, que agora poderia seguir seus próprios rumos e se posicionar no cenário internacional com soberania restabelecida. 

A guerra da Coréia termina em 1953, bem como a demanda americana pelos produtos japoneses. Mas o Japão, agora reconstruído, com uma estrutura industrial voltada para a exportação desenvolvidas a partir das experiência dos últimos anos e com grande ânsia de se inserir no mercado internacional, inicia o chamado “milagre japonês”. 

O marco do fim do período de reconstrução é a demissão do primeiro-ministro Yoshida em 1954, importante líder durante a ocupação e conhecido por suas políticas de alinhamento as decisões americanas. O povo japonês desejava olhar para o futuro, deixando o passado para trás. O sol nascia novamente no horizonte do Japão.

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