Jaques Wagner transforma a crise do Bolsomaster em problema do governo
Ao insistir na liderança do governo, senador amplia desgaste para Lula e dificulta a separação entre as suspeitas investigadas e o Planalto
Quanto mais tempo Jaques Wagner permanece como líder do governo no Senado, mais a crise do Bolsomaster — o maior escândalo financeiro da história do Brasil, assentado majoritariamente em figuras políticas do Centrão e da extrema-direita — deixa de ser um problema individual para se tornar um problema do governo Lula. O que deveria estar restrito ao campo das investigações sobre o senador passa a contaminar a imagem do Executivo, criando uma associação política que interessa aos adversários do governo e enfraquece o discurso de combate aos privilégios e à promiscuidade entre poder político e interesses financeiros.
É importante registrar que Wagner nega todas as acusações e que não há condenação judicial contra ele. Mas os fatos revelados pela Polícia Federal são graves. A investigação aponta suspeitas de recebimento de vantagens econômicas indevidas ligadas a personagens do entorno do Banco Master, como Augusto Lima, incluindo um apartamento de alto padrão no valor de R$2,4 milhões, uso de aeronaves privadas, ingressos para eventos internacionais e repasses a empresas vinculadas ao núcleo familiar do parlamentar. Há ainda apurações sobre possíveis convergências entre sua atuação legislativa e interesses econômicos associados ao grupo investigado. Independentemente do desfecho judicial, o simples acúmulo dessas suspeitas já produz um elevado custo político para quem ocupa um cargo tão estratégico quanto a liderança do governo no Senado.
Por isso, a questão central deixou de ser a situação jurídica de Jaques Wagner e passou a ser sua responsabilidade política. A permanência no cargo faz com que cada nova revelação da investigação recaia também sobre o governo. Em vez de blindar o Planalto, Wagner acaba arrastando Lula para dentro de uma crise que não é do presidente. A liderança governista exige capacidade de articulação e credibilidade pública. Quando o ocupante da função se torna personagem de uma investigação de grandes proporções, a própria defesa da agenda do governo fica comprometida.
Nesse contexto, chamou atenção a estratégia adotada pelo senador após a operação da Polícia Federal. Ao afirmar que só deixaria a liderança por determinação de Lula e ao divulgar uma suposta manifestação de apoio do presidente, Wagner procurou transformar a confiança pessoal de Lula em argumento político para sua permanência. O movimento, porém, produziu efeito contrário. Conforme revelou o jornal O Estado de S. Paulo, auxiliares do governo avaliaram que a declaração gerou ruído desnecessário dentro do Planalto. Em vez de preservar o presidente, o senador o colocou no centro da controvérsia, como se a sobrevivência política de sua liderança dependesse de um aval explícito do chefe do Executivo.
A irritação nos bastidores tem uma razão objetiva. O governo não pode sustentar simultaneamente dois discursos opostos. Se setores governistas associam adversários políticos às relações com Daniel Vorcaro e ao universo do Banco Master, torna-se difícil explicar por que o líder do governo deveria permanecer imune a questionamentos diante das descobertas da Polícia Federal. A contradição é evidente e já é reconhecida por integrantes do próprio Palácio do Planalto. Não por acaso, cresce a avaliação de que a situação política de Wagner se tornou cada vez mais difícil de sustentar.
A saída mais adequada é que o senador deixe espontaneamente a liderança do governo. Não como reconhecimento de culpa, mas como demonstração de responsabilidade política. Ao fazê-lo, preservaria o direito de exercer sua defesa sem transformar o governo em parte interessada de sua crise. Acima de tudo, evitaria constranger Lula a assumir o ônus de uma decisão que deveria partir do próprio investigado. A essa altura, permanecer no cargo não fortalece Jaques Wagner. Apenas amplia o desgaste do governo e torna mais difícil separar o projeto político de Lula das suspeitas que hoje cercam um de seus mais importantes aliados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

