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Sayid Marcos Tenório

Historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro 'Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência' (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p)

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Jerusalém é o epicentro da crise do Oriente Médio

O Dia de Jerusalém foi instituído em 1979 pelo líder da Revolução Islâmica, Imam Ruhollah Khomeini

Jerusalém (Foto: REUTERS/Ammar Awad)

Todos os anos, na última sexta-feira do mês sagrado do Ramadã, milhões de pessoas em diferentes partes do mundo se mobilizam para marcar o Dia Internacional de Al-Quds, o nome árabe da cidade de Jerusalém. 

Instituída em 1979 pelo líder da Revolução Islâmica do Irã, o Imam Ruhollah Khomeini, a data não é apenas uma manifestação simbólica de solidariedade à Palestina. Ela expressa a compreensão de que Jerusalém ocupa um lugar central na disputa histórica, política e civilizacional em torno da questão palestina.

Jerusalém é uma das cidades mais antigas do mundo. Fundada há cerca de cinco mil anos e durante milênios, diferentes povos governaram a cidade, mas a presença árabe e islâmica marcou profundamente sua história. 

A partir do século VII, a cidade permaneceu majoritariamente sob administração árabe e islâmica por mais de doze séculos, com exceção do período das Cruzadas. Nesse longo período, Jerusalém foi um espaço de coexistência religiosa, onde muçulmanos, cristãos e judeus puderam praticar suas crenças. 

Essa história milenar contrasta com a narrativa ideológica promovida pelo movimento sionista moderno. Surgido na Europa no final do século XIX, o sionismo transformou interpretações religiosas em fundamento político para um projeto de colonização territorial na Palestina. 

Um dos pilares desse discurso foi a ideia de que Jerusalém teria sido a capital de um poderoso reino bíblico governado por Davi e Salomão, cuja herança histórica legitimaria a criação de um Estado judeu na Palestina.

Entretanto, pesquisas arqueológicas e historiográficas contemporâneas colocam essa narrativa sob forte questionamento. Escavações realizadas ao longo das últimas décadas não conseguiram produzir evidências materiais que confirmem a existência de um grande reino unificado em Jerusalém nos tempos atribuídos a Davi e Salomão. 

Historiadores como Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman argumentam que muitos dos relatos bíblicos foram construídos séculos depois dos eventos que descrevem e não correspondem às evidências arqueológicas disponíveis.

Apesar dessas controvérsias acadêmicas, o mito bíblico continua sendo utilizado como instrumento político para justificar a ocupação e a transformação demográfica da cidade.

Desde a criação do “Estado de Israel”, em 1948, Jerusalém tornou-se um dos principais focos de tensão do conflito palestino-israelense. O direito internacional considera Jerusalém Oriental território ocupado, e inúmeras resoluções das Nações Unidas afirmam que as medidas adotadas por Israel para alterar o status da cidade não possuem validade jurídica. 

Ainda assim, nas últimas décadas, o governo israelense intensificou políticas destinadas a modificar o caráter demográfico e político da cidade.

Essas políticas incluem a expansão de assentamentos ilegais, a demolição de casas palestinas, a expulsão de famílias de bairros históricos e a restrição sistemática da liberdade de culto e de circulação da população palestina. O objetivo é transformar Jerusalém em uma capital exclusiva do Estado israelense, consolidando um processo de colonização que viola frontalmente o direito internacional.

Nos últimos anos, entretanto, a situação adquiriu uma dimensão ainda mais preocupante.

Grupos extremistas vinculados ao movimento de colonização sionista passaram a defender abertamente a destruição da Mesquita de Al-Aqsa e do Domo da Rocha, dois dos mais importantes santuários do Islã, para dar lugar à construção de um chamado “Terceiro Templo”.

O que durante décadas foi um discurso marginal passou a ganhar espaço em setores da política israelense e em organizações que atuam diretamente na Esplanada das Mesquitas, frequentemente sob proteção das forças de segurança da ocupação.

A simples possibilidade de uma ação contra o complexo de Al-Haram al-Sharif representa uma provocação de proporções incalculáveis. A Mesquita de Al-Aqsa é o terceiro lugar sagrado do Islã e um símbolo espiritual para mais de dois bilhões de muçulmanos em todo o mundo. Qualquer tentativa de destruir ou alterar esse patrimônio religioso teria repercussões que ultrapassariam em muito as fronteiras da Palestina.

Jerusalém tornou-se, assim, o ponto de convergência das diferentes dimensões do conflito: religiosa, histórica, política e geopolítica.

Para o povo palestino, a defesa de Jerusalém não é apenas uma questão simbólica. Trata-se da preservação de sua própria existência histórica. A cidade representa a memória coletiva de uma sociedade que há décadas enfrenta ocupação militar, colonização territorial e políticas sistemáticas de deslocamento populacional.

Não por acaso, Jerusalém também se tornou um poderoso símbolo de mobilização internacional. Ao longo das últimas décadas, protestos em defesa da cidade e da Mesquita de Al-Aqsa ocorreram em diferentes países, envolvendo movimentos sociais, organizações religiosas e ativistas de direitos humanos.

O Dia de Al-Quds expressa exatamente essa dimensão global da causa palestina. Ele lembra que a questão de Jerusalém não pode ser reduzida a uma disputa territorial localizada. Trata-se de um conflito que envolve princípios fundamentais do direito internacional, como a autodeterminação dos povos, a proibição da aquisição de território pela força e a proteção dos lugares sagrados das diferentes tradições religiosas.

A história demonstra que ocupações coloniais raramente conseguem se sustentar indefinidamente. Ao longo do século XX, inúmeros povos conseguiram conquistar sua independência após décadas de dominação estrangeira. A persistência da resistência palestina, apesar das imensas assimetrias militares, reflete essa mesma lógica histórica.

Jerusalém continua sendo o coração político, espiritual e simbólico da Palestina. E enquanto o povo palestino continuar a lutar por seus direitos nacionais e pela preservação de seus lugares sagrados, a questão de Al-Quds permanecerá no centro da agenda internacional.

Mais do que uma cidade, Jerusalém tornou-se um símbolo universal da luta contra a ocupação e pela dignidade dos povos. E enquanto existir resistência, Al-Quds jamais se renderá!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.