“JK foi assassinado pelos homens de 64”
Quinze dias antes correu o boato de que ele tinha morrido num acidente de carro. E disse a Serafim Jardim: “estão querendo me matar”
No dia 8 de agosto de 1976, Serafim Jardim encontrou-se com Juscelino Kubitschek, de quem era secretário particular, no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte. Nessa entrevista exclusiva ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, ele conta que, nesse dia, ouviu pela terceira vez do ex-presidente a frase “estão querendo me matar”.
SERAFIM: Eu, Serafim Mello Jardim, nasci em Diamantina em 1935. Quem era muito amigo do JK era meu pai, que também nasceu em 1902. Eles fizeram a primeira comunhão juntas, tiveram junto no seminário de Diamantina e durante o tempo em que Juscelino foi médico, ele entrou na Medicina, eles moravam junto nas desconfortáveis pensões da capital mineira. E morava JK, Zé Maria Alckmin, Odilon Peres, meu pai José Jardim, Tales da Rocha Viana, e os irmãos Divaldo e o Lemar Lacerda de Oliveira, que eram primos do JK. Então, eu tive convivência com Juscelino desde criança, porque com sete ou oito anos, quando ele, como prefeito de Belo Horizonte, ele visitava Diamantina, não deixava de ir na casa dos meus pais. E eu brigava com meus irmãos para abrir a porta para recebê-lo. Então, desde os sete, oito anos eu já era um admirador do JK. Mas passei a conviver com ele a partir de 1967, quando ele voltou do exílio. E aí fiquei nove anos com ele. Estou há 50 anos ao lado dele, com nove e 50 anos depois da morte, são 59 anos ao lado do presidente JK.
EU: Então, Serafim, quando ele voltou do exílio, depois de algum tempo, ele começa a se reunir com João Goulart, com Carlos Lacerda. Eles querem formar uma Frente Ampla para que a ditadura acabe. Nessa época, você estava ao lado dele?
SERAFIM: Quem olhava mais essa parte para ele era o Carlos Murilo, que foi deputado federal e primo dele e primo meu também. E é muito estranho que em 272 dias morreram Juscelino, Jango e Lacerda, os três líderes da Frente Ampla, e só agora, depois de 50 anos, que chegaram à conclusão de que Juscelino foi assassinado. Mas eu, veja bem, eu há 30 anos venho dizendo que o Juscelino foi assassinado. Quem reabriu o caso da morte dele fui eu, em 1996. Portanto, eu sempre estive dizendo durante esses 30 anos que o presidente JK foi assassinado. Cassaram ele, exilaram ele e mataram ele.
EU: Você estava com Juscelino no dia 22 de agosto de 1996? Ou qual foi a última vez em que você esteve com ele?
SERAFIM: Não, nesse dia eu não estava com ele. No dia 7, quinze dias antes do acidente em que o mataram, eu ia pra fazenda para estar com ele, mas acabei não indo, e recebo, era mais ou menos às cinco horas da tarde, um telefonema do colunista de “O Estado de Minas”, o Wilson Frade, me fazendo a seguinte pergunta, “ô Serafim, você tem alguma notícia do JK?” Eu disse para ele, a notícia que eu tenho é que ele está na fazenda. E ele então disse para mim, “não, eu acabei de receber, não sei se foi do ‘Estado’ ou da ‘Folha de São Paulo’, que ele morreu num acidente de carro”. Eu fiquei apavorado e liguei para Brasília, para o meu filho mais velho, o Marco Antônio. E ele então foi até a fazenda de Luiziânia. Às oito horas da noite ele ligou para mim dizendo que o presidente estava vivo. Pois bem, nessa noite morreu um grande amigo do JK, Geraldo Vasconcelos. E era Dia dos Pais, no dia 8 eu estava almoçando com meu pai quando o telefone tocou. Era JK perguntando se eu podia apanhá-lo no aeroporto que ele queria vir para o enterro do Geraldo. Quando eu o peguei no aeroporto disse pra ele, “presidente, o senhor ontem nos passou um susto”. Ele virou para mim e falou assim, “é, estão querendo me matar, mas ainda não me mataram não”. E continuamos, ele começou a contar os casos, inclusive brincando “sou o morto vivo”. E isso foi no dia 7 de agosto. No dia 22, quinze dias depois, matam ele.
EU: Essa conversa no dia 7, em que ele diz estão querendo me matar, ele entrou em detalhes ou só ficou nessa frase?
SERAFIM: Não, foi a terceira vez que eu escutei dele. A terceira vez. que eu escutei dele, “estão querendo me matar, mas ainda não me mataram, não”. Eles tentaram de toda forma. O caso, aquele do avião, por exemplo, quando ele procurava uma fazenda mais próxima de Brasília para ele poder ir a Brasília, o avião dele teve uma pane, pane de combustível, e eles não deixaram o avião descer em Brasília. O avião teve de descer em Luiziânia, numa pequena fazenda lá.
EU: Quando aconteceu isso?
SERAFIM: Quando ele procurava, em 1971, 72, uma fazenda próximo a Brasília. Fizeram muita maldade com ele, muita, mas muita mesmo.
EU: Quando ele falava, “estão querendo me matar”, ele chegou a citar algum nome? Quem eram essas pessoas?
SERAFIM: Não, mas ele sabia perfeitamente. Olha, o Juscelino, quando, em 1956 foi candidato à presidência da República, houve o Manifesto dos Coronéis para que ele não fosse candidato. E nesse Manifesto já estava a assinatura do Golbery do Couto e Silva, que era tenente na época. Então, tinha um grupo dentro das Forças Armadas que não gostava dele. Quando eu me refiro àqueles que mataram o Juscelino, eu costumo dizer “os homens de 64”, porque foram os militares, mais aqueles que estavam dando dinheiro para que eles continuassem vivendo. Essa é que é a verdade.
EU: O senhor acha que o Golbery teve algum envolvimento na morte do JK?
SERAFIM: Golbery não gostava do Juscelino, não gostava. Ele, inclusive, quando Dona Sara procurava um terreno em Brasília, ela recebeu o recado dele dizendo que nem com todo o dinheiro do mundo ela teria esse terreno. E acabou o Figueiredo doando esse terreno onde está construído o Memorial JK.
EU: Vamos voltar ao dia 22 de agosto. Juscelino estava hospedado em São Paulo, na Casa da Manchete, não é? E ele iria para o Rio de Janeiro. Por que ele parou em Resende?
SERAFIM: Eu costumo dizer que morreu Geraldo, morreu Juscelino, você não sabe o que eles ficaram ali no hotel-fazenda, em Resende. Mas eu tenho um depoimento do Carlos Heitor Cony. Quando ele era repórter da “Manchete”, ele foi fazer uma matéria dois ou três dias depois do acidente, lá em Resende, e perguntou ao guardador de carro... se ele tinha alguma coisa em relação ao carro do JK. E o guardador de carro diz que o Geraldo perguntou a ele, “mexeram no meu carro”? Porque, veja você, o Geraldo sai do Hotel Fazenda, e três a quatro minutos depois os dois estão mortos. Então, mexeram no carro. Não resta dúvida. Eu, por exemplo, nesses trinta anos, eu costumo dizer que mexeram no conduíte que leva o óleo ao freio. E o carro ficou desgovernado. Ônibus nenhum bateu no carro! E isso está provado agora com esse perito, esse novo perito que apareceu.
EU: Sim, eu acabei de falar com ele, aliás, agora há pouco. Serafim, o Juscelino tinha alguma reunião marcada nesse hotel? Ele sabia quem era o dono desse hotel? Esse dono do hotel foi um dos fundadores do SNI. Era amigo do Golbery.
SERAFIM: Ele não sabia.
EU: E com quem ele foi se reunir, você sabe?
SERAFIM: Eu não posso dizer nada a esse respeito, porque morreram os dois. Mas quando houve a Comissão da Verdade de São Paulo, o Gilberto Natalini mostrou, e tem vários documentos, que o presidente foi assassinado. Eu fiz o depoimento e nesse depoimento meu, o filho do dono do hotel estava presente. E ele diz que o pai dele, quando o Juscelino chega, o pai sai. E é só isso que eu sei a respeito do depoimento dado pelo filho do dono do hotel, que era o criador do SNI e muito amigo do governo Costa e Silva.
EU: Juscelino nunca falou sobre essa reunião, o que ele ia fazer, nada?
SERAFIM: Nada, nada. O Carlos Murilo... no livro dele, ele disse que ele foi procurado, ele e, se não me engano, o coronel Afonso Leodoro, por dois coronéis que queriam conversar com Juscelino. Ele conta isso no livro dele.
EU: Juscelino sabia ou intuía que queriam matá-lo. Como é que ele vai para um encontro com pessoas desconhecidas e totalmente sozinho? Como é que você entende isso?
SERAFIM: Juscelino sofreu muito. Juscelino sofreu muito. No dia 13 de dezembro de 1968, dia do AI-5 ele foi preso e foi levado para um forte em Niterói. E lá ele ficou lá, sofreu muito, muito, dona Sara ficou dois dias sem notícias do Juscelino. Ele tinha de tomar dois comprimidos, um para pressão, outro para diabetes. Dona Sara ficou preocupadíssima com isso.
EU: Juscelino deixou um diário, não foi? Onde está esse diário?
SERAFIM: Olha, esse diário saiu até na “Veja”, uma época. Inclusive o meu nome está lá, JK dizendo “até hoje não resolveram o caso do Serafim.” Mas eu não tenho conhecimento dele, não vi, mas sei que existia. Ele gostava de escrever.
EU: E não se sabe onde está esse diário? Será que no diário tinha alguma menção a essas ameaças a ele?
SERAFIM: Eu não tenho conhecimento, eu não posso te dizer, porque eu não sei história desse diário. Mas se eu soubesse, eu diria a você que ele sofreu demais, muito, muito. No dia 4 de outubro de 1965, ele volta ao Brasil com Dona Sara. E quando ele desce do avião, já estavam lá dois coronéis com o IPM. Ele compareceu no mesmo dia que ele chegou, às duas horas da tarde, e ele é como o Tancredo também costumava dizer, que ele estava sempre sorrindo, eu nunca vi o Juscelino mal-humorado.
EU: No dia 22 de agosto de 1976 teve esse acidente, entre aspas, o próprio perito já afirma que a causa foi intencional, ele não sabe se foi atentado ou se foi sabotagem, mas que a causa foi intencional, e ele é levado para o IML de Resende. Você sabe o que aconteceu no IML?
SERAFIM: A única pessoa da família que compareceu, se não me engano, foi o Rodrigo Lopes, que era casado com a Maristela Kubitschek e já faleceu. Ele, para mim, acho que foi o único da família que esteve presente.
EU: E ele não contou nada? Como o caixão chegou a Brasília?
SERAFIM: Totalmente fechado. Ninguém viu o Juscelino. Foi fechado pelos homens de 64. O caixão dele foi fechado. Foi lacrado, vamos assim dizer.
EU: E não fizeram autópsia no corpo? Ninguém sabe dessa autópsia?
SERAFIM: Eles dizem que sim, que fizeram. Mas eu não acredito não. Eles deviam fazer no de Geraldo, que era o motorista. Que para mim foi a pessoa... Quando eu mandei fazer uma exumação no corpo do Geraldo, foi encontrado... na cabeça dele, no crânio, um metal, onde eles falam que é prego de caixão. Mas eu até nem falo mais nesse metal, não. Para mim, eu sou mais o Carlos Heitor Cony, quando diz que o carro estava desgovernado depois de sair do Hotel Fazenda Villa-Forte.
EU: Essa exumação foi feita quando?
SERAFIM: Foi quando eu reabri o caso. Em 1996.
EU: Você reabriu de que maneira? Com o Ministério Público? Como é que você encaminhou?
SERAFIM: Eu fui a Resende, acompanhado de um advogado. Tudo começou com uma carta que eu dirigi ao presidente Fernando Henrique Cardoso, pedindo a ele a reabertura do caso de JK. Ele remeteu essa carta para o ministro da Justiça dele, que era o Nelson Jobim. Eu tive uma entrevista com o Nelson Jobim em Brasília, e aí eu já fui acompanhado de um amigo advogado, doutor Paulo Castelo Branco. O Nelson Jobim não deu valor nenhum ao que eu estava contando e falando com ele. E, quinze, trinta dias depois, mais ou menos, o Nelson Jobim mandou me avisar que, infelizmente, não poderia reabrir porque não tinha nada de novo.
Aí fomos até Resende, eu e o doutor Paulo Castelo Branco. Foi aí que nós pedimos vistas ao processo e chegamos à conclusão que o processo era uma farsa, cheia de falhas e erros. Pois bem, nós ficamos com o processo e voltamos a Resende e pedimos a reabertura do caso. A promotora, a procuradora, em seis dias ela reabriu, mas quando chegou dia 22 de agosto, porque eu reabri o caso da morte do JK em 1996, vinte anos depois, foi arquivado. E aí, então, ficou paralisado. Mas eu tive, nós éramos três, eu, o doutor Paulo Castelo Branco, e um perito da Polícia Civil de Belo Horizonte, que já faleceu, que se chamava Carlos Alberto de Minas, que me ajudou bastante. Os dois foram fabulosos. Estiveram ao meu lado e nós costumávamos apelidar “os três mosqueteiros”.
EU: Esse processo está com você ainda?
SERAFIM: Não, porque quando chegou, fez vinte e dois anos, o processo foi arquivado.
EU: Você não ficou com uma cópia, nada?
SERAFIM: Ficamos com uma cópia. Essa cópia foi doada à PUC de Minas. A PUC de Minas Gerais deve ter ainda esse processo. Pelo menos deve estar lá guardado. Eu tenho esse processo, mas tirei várias folhas do processo para me garantir aquilo que eu estou falando. Então, o processo, por exemplo, veja você, eles mandam fazer o exame da tinta do carro e do Opala, do ônibus e do Opala, e chega à conclusão que o juiz não aceita, porque quem deveria assinar não assinou. Então, não tem validade nenhuma.
EU: Mas como é que você conseguiu a exumação?
SERAFIM: Eu pedi ao delegado de Resende e ele autorizou a exumação do corpo do Geraldo. E eu então levei até o secretário de Segurança de Minas Gerais, que na época era meu conhecido, E ele autorizou também e foi feita a exumação, onde foi encontrado esse prego, que eles dizem prego, esse metal que foi encontrado na cabeça do Geraldo.
EU: Você leu esse novo laudo do perito, do Sérgio Eisenberg, O que você achou desse laudo?
SERAFIM: Ele está certíssimo que esse ônibus jamais bateu no carro do Juscelino. Eles armaram de tal maneira, de tal forma que ficou como o ônibus 3148 bateu no carro do JK. Não tem uma foto dos mortos! Eu perguntei por que. “Por ordem superior”, disseram. Que ordem superior é essa que impede, até hoje, ninguém conhece, não existe as fotos, um processo com duas mortes, sendo de um ex-presidente da República, não tem uma foto, uma foto nem do Geraldo e nem do Juscelino. E eles dizem que deixaram de colocar as fotos “por ordem superior”. Os peritos, por exemplo, o primeiro perito, que faz a perícia da morte do Juscelino, em vinte e quatro horas ele é trocado por outro. O próprio Josias, que era o motorista do Cometa, sofreu muito, muito. Inclusive ele conta que foi procurado em casa com uma mala cheia de dinheiro para ele dizer que tinha batido no carro do JK. E ele não aceitou e continua sofrendo quando a gente encontra com ele, quando a gente conta o caso, ele chora. Sofreu muito, muito, muito.
EU: O senhor chegou a conversar com ele várias vezes, então?
SERAFIM: Sim, ele esteve na Assembleia em Belo Horizonte e ele falou textualmente que foi procurado em casa com uma mala cheia de dinheiro para ele dizer que tinha batido no carro do JK. Ele nunca bateu no carro do JK. Tanto que na primeira perícia que houve, os peritos dizem que não sabem quem foi que tinha batido no carro do Juscelino. Já na segunda perícia, eles já põem o ônibus 3148, porque esse ônibus passava ali naquele momento. Então, baseado no horário do ônibus, eles condenaram o ônibus. Então, veja bem, a pessoa que ficava onde paravam os ônibus da Cometa, na própria Cometa, ele contou no “Estadão” que examinou o ônibus e não viu nada de anormal. Esse ônibus sai depois, ele chega mais ou menos ali para as 17h00, 18h00 e volta para São Paulo ali por volta das 01h00. E o Josias volta para São Paulo num outro ônibus às 13h00, mais ou menos. O que acontece? O Josias é preso e o ônibus é preso. Ele é julgado e é absolvido por sete a zero. Quer dizer, ele entra no processo onde ele sai com sete a zero. É impressionante. Muitas falhas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

