João Amazonas, líder comunista que faz falta

Amazonas tinha um agudo senso tático, fazia diuturnamente análise concreta da situação concreta. Por isso foi um dos pioneiros da candidatura de Lula em 1989, tendo-se destacado como um dos fundadores da Frente Brasil Popular.

Líder do PCdoB João Amazonas
Líder do PCdoB João Amazonas (Foto: José Reinaldo Carvalho)

Transcorreu no dia 27 de maio o 16º aniversário do falecimento do líder comunista João Amazonas. Quanta falta faz aos comunistas e a toda a esquerda. Ele foi o líder político e o ideólogo do PCdoB por quase meio século, seu refundador, na ocasião em que ocorreu a divisão provocada pelo revisionismo e o oportunismo de direita entre 1958 e 1962.

Quando o PCdoB foi reorganizado, em 18 de fevereiro de 1962, sob a liderança coletiva formada por João Amazonas, Maurício Grabois, Carlos Danielli e Pedro Pomar, entre outros inolvidáveis dirigentes, desenvolvia-se intensa luta política e ideológica. Produzira-se no âmbito do Movimento Comunista Internacional uma cisão motivada pelo revisionismo krushevista, com suas teorias de conquista do socialismo através do caminho pacífico e da colaboração de classes.

No âmbito interno, o divisor de águas foi a publicação pelo Comitê Central do antigo PCB da Declaração de Março de 1958, que João Amazonas considerava a síntese de uma estratégia e tática de fundo oportunista.

A Declaração de Março superestimava as possibilidades de aliança dos trabalhadores e demais massas populares com a grande burguesia e os latifundiários, e defendia a criação de uma frente que supostamente uniria toda a nação. Como se esta não estivesse já polarizada entre forças sociais antípodas. Tragicamente, o golpe militar de 1964, expressão política da aliança entre o imperialismo e a grande burguesia e os latifundiários, dissipou as últimas dúvidas a esse respeito. No debate da época, já ficara evidente o erro que consistia em separar artificialmente a questão nacional da questão de classe.

Cuidar do Partido

Como poucos, João Amazonas compreendia o papel da organização partidária na luta política e dedicou o melhor dos seus esforços para forjar o partido dos comunistas como organização de vanguarda estruturada, ligada às massas e independente. Um vivo organismo político e ideológico de classe para a luta política de classes.

Ao homenagear João Amazonas no 13º aniversário do seu falecimento, é necessário repisar a importância do cuidado com o partido. Ele considerava, com base nas leituras que fizera de Lênin, e na própria experiência do movimento comunista internacional e da trajetória do PCdoB, que o partido comunista é o principal fator subjetivo da revolução socialista, porquanto é o fator que se relaciona com a consciência de classe e a teoria revolucionária.

Em debates internos e públicos sobre a dimensão dos acertos e erros de um partido político do proletariado, João Amazonas dizia que este deve evitar os erros políticos, mas inadmissível mesmo era o desvio do caráter e da essência comunista. Inevitável conclusão: o pressuposto da existência do partido comunista e de suas vitórias políticas é a ideologia e a identidade comunista. A recíproca é verdadeira: o abandono da ideologia e da identidade conduz inevitavelmente à bancarrota política do partido do proletariado.

O PCdoB pode orgulhar-se de que desde a legalização, há exatos 33 anos, alcançou e consolidou conquistas históricas em vários âmbitos. São conquistas na luta política, de massas, na batalha das ideias e no exercício do internacionalismo proletário. Um acervo de realizações que fez com que desse enormes passos adiante na construção de um partido de quadros e de massas, dotado de estratégia e tática, programa e estatutos consoantes o espírito da época, com ampla ação política, institucional, eleitoral e de massas, portador de uma teoria de vanguarda – o marxismo-leninismo, o socialismo científico.

A homenagem a João Amazonas vem acompanhada da responsável e consciente autocrítica, condição indispensável para superar o déficit ideológico, orgânico, político-eleitoral e os problemas que dificultam a ligação com as massas trabalhadoras e populares.

A força do partido comunista emana, ou deve emanar, da sinergia entre a justa linha política, o poder dos princípios ideológicos, a solidez da estrutura orgânica e a profundidade dos vínculos com o povo. E será tanto maior se os comunistas forem capazes de desatar as energias e a criatividade do povo em luta, em movimento, em imparável processo de elevação da consciência.

Um rico legado

Esta breve memória sobre João Amazonas não pode deixar de referir o aspecto principal da sua vida e obra. Nunca é demais lembrar seu papel de formulador político e teórico, como ideólogo marxista-leninista, agitador, propagandista e organizador.

Sob sua direção, os comunistas atravessaram o período mais difícil da existência do partido, a ditadura militar (1964-1985), na mais estrita clandestinidade.

Amazonas viveu intensamente e enfrentou com sabedoria e audácia o período de liquidação do socialismo na URSS e países do Leste europeu, em fins dos anos 1980, começos da década de 1990. Buscou extrair as lições daquela viragem histórica, que marcava a existência de profunda crise na teoria e na prática do movimento comunista. Comandou a autocrítica antidogmática, a partir do 8º Congresso (1992), sem cair no canto de sereia do oportunismo de direita nem do liquidacionismo.

João Amazonas dirigiu a formulação de uma estratégia revolucionária, baseada nos princípios do marxismo-leninismo, e de uma tática ampla, combativa e flexível. Deiuxou o ensinamento de que o Partido deve enraizar-se entre as massas, inserido no curso político, enfrentar os pequenos e grandes embates políticos do cotidiano e acumular forças revolucionariamente.

João fazia uma análise implacável sobre as classes dominantes brasileiras. Dizia, na redação do Programa Socialista do PCdoB aprovado na Conferência Nacional de 1995 e ratificado no 9º Congresso (1997): "O desenvolvimento deformado da economia nacional, o atraso, a subordinação aos monopólios estrangeiros e, em consequência, a crise econômica, política e social cada vez mais profunda são o resultado inevitável da direção e do comando do país pelas classes dominantes conservadoras. Constituídas pelos grandes proprietários de terra, pelos grupos monopolistas da burguesia, pelos banqueiros e especuladores financeiros, pelos que dominam os meios de comunicação de massa, todos eles, em conjunto, são os responsáveis diretos pela grave situação que vive o país. Gradativamente, separam-se da nação e juntam-se aos opressores e espoliadores estrangeiros. As instituições que os representam tornaram-se obsoletas e inservíveis à condução normal da vida política. Elitizam sempre mais o poder, restringindo a atividade democrática das correntes progressistas. A modernização que apregoam não exclui, mas pressupõe, a manutenção do sistema dependente sobre o qual foi construído todo o arcabouço do seu domínio".

Percebendo que a luta democrática e patriótica pelo desenvolvimento, a soberania nacional, em defesa da nação ameaçada pela ofensiva conservadora e neoliberal, era a expressão concentrada da luta de classes, inseparável da luta pelo socialismo na fase peculiar que o Brasil vivia, Amazonas era taxativo em suas conclusões acerca da evolução desse combate. No mesmo documento, o Programa Socialista, dizia: "Tais classes não podem mudar o quadro da situação do capitalismo dependente e deformado. Sob a direção da burguesia e de seus parceiros, o Brasil não tem possibilidade de construir uma economia própria, de alcançar o progresso político, social e cultural característicos de um país verdadeiramente independente. Na encruzilhada histórica em que se encontra o Brasil, somente o socialismo científico, tendo por base a classe operária, os trabalhadores da cidade e do campo, os setores progressistas da sociedade, pode abrir um novo caminho de independência, liberdade, progresso, cultura e bem-estar para o povo, um futuro promissor à nossa Pátria".

Amazonas tinha um agudo senso tático, fazia diuturnamente análise concreta da situação concreta. Por isso foi um dos pioneiros da candidatura de Lula em 1989, tendo-se destacado como um dos fundadores da Frente Brasil Popular.

Também diuturnamente, repetia o conselho de que em nenhuma circunstância os comunistas se afastassem do curso real da vida política nem se posicionassem à margem da luta política principal em curso.

Vivemos um momento grave da vida nacional, em que faz falta a presença e a palavra prudente e lúcida de um líder como João Amazonas. Num momento em que é indispensável mobilizar as energias do povo brasileiro na luta pelas reformas estruturais democráticas, como passo para a revolução socialista, e em que a força de vanguarda precisa reafirmar sua essência e identidade, seus camaradas, seus militantes, seu Partido dizem presente ao saudoso camarada João.

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