João Santana vai levar Ciro ao segundo turno atropelando Bolsonaro

A sorte do PT é que João Santana já entendeu que Ciro Gomes vai para o segundo turno arrancando os votos do Bolsonaro. E para que isso aconteça, é necessário que o destemperado cearense abandone o PDT

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Por Celso Raeder

Nunca trabalhei com o marqueteiro João Santana, o que considero uma falha irreparável no meu currículo, construído em mais de 30 anos atuando em campanhas políticas. Dono de uma inteligência acima da média no mercado publicitário, colecionador de vitórias eleitorais no Brasil e no exterior, Santana agora está diante do seu maior desafio: provar para o mundo que está vivo, depois do massacre que sofreu nas mãos de Sérgio Moro e Dallagnol. Portanto, mais do que eleger Ciro Gomes presidente em 2022, o que ele busca é sua própria reabilitação moral diante da sociedade.

E está muito próximo de alcançar seu intento. Posso até apostar que João Santana abriu seu melhor vinho para comemorar os 6% de intenção de votos dados ao seu cliente nas últimas pesquisas. Arguto jogador de xadrez no tabuleiro eleitoral, o marqueteiro baiano já anteviu todas as jogadas que fará pelos próximos meses, enquanto o Partido dos Trabalhadores e o presidente Bolsonaro jogam Pokémon na arena da pandemia. 

A sorte do PT é que João Santana já entendeu que Ciro Gomes vai para o segundo turno arrancando os votos do Bolsonaro. E para que isso aconteça, é necessário que o destemperado cearense abandone o PDT, partido ideologicamente mais próximo da esquerda, se abrigando em uma legenda conservadora. Assim nascerá a tão cobiçada terceira via competitiva do liberalismo brasileiro. 

Nos próximos dias veremos a corda esticar cada vez mais entre Ciro Gomes e Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, tornando impossível (de mentirinha) o convívio de ambos sob o mesmo teto. Fim do primeiro ato. Em seguida abrem-se as cortinas, e surge um novo Ciro, repaginado, conciliador, salvador da pátria, montado num cavalo branco comprado pela Fiesp, apresentando um programa de “conciliação nacional” nos moldes da famosa Carta ao Povo Brasileiro, que ajudou a eleger Lula pela primeira vez. Esse Ciro 2.2 terá a imagem fortalecida pelo “inzento” jornalismo global, com pautas quase diárias em seus telejornais. 

Mas, afinal, o que o PDT e seu presidente ganham com essa pantomima? Para responder a esta pergunta, é preciso compreender que, hoje, a legenda criada por Leonel Brizola não tem absolutamente nada. No estágio em que se encontra, não elege governadores e verá minguar sua representação parlamentar nas casas legislativas estaduais e federais. Com Ciro Gomes embalado em papel de seda pela elite brasileira, o PDT pode fechar alianças regionais onde o ex-governador do Ceará tiver melhor desempenho, e ainda tirar uma casquinha do PT, numa aliança nacional em torno do Lula. É mais do que suficiente para abastecer os cofres com a grana do fundo partidário por mais quatro anos. 

Ciro Gomes bate no Lula para roubar os votos do Bolsonaro, simples assim. Ou será que todo mundo já esqueceu que o voto no Bolsonaro foi, antes de tudo, uma manifestação de protesto contra o PT? A maior prova disso é a base popular de apoio ao governo, que se esfumaçou em pouco mais de dois anos de mandato. No cenário mais otimista, Jair Bolsonaro entra na disputa pela reeleição com o apoio dos velhinhos de pijama verde-oliva, pelo terror imposto pelas milícias nas comunidades, por grupos extremistas de direita, o chorume da sociedade. 

A poderosa indústria da fé sabe que não existe milagre que sustente o tamanho da bancada evangélica na Câmara, carregando Jair Bolsonaro e seus mais de 400 mil mortos nas costas. Como os empresários da Bíblia vão obrigar seus fiéis a votarem num governo que os jogou na miséria? O quilo do feijão no supermercado só não é mais caro do que os caroços que um desses sujeitos vendia como tratamento para a covid. Pois essa gente, adoradora do ouro e da prata na Terra, depende muito do tal candidato da terceira via para ornarem seus templos. 

João Santana sabe que não conseguirá alcançar seus objetivos contando apenas com recursos audiovisuais. Também não sabe se conseguirá vencer eventuais resistências políticas quanto às estratégias que têm na cabeça. Mas se ele conseguir amealhar o antipetismo - daí a retórica cada vez mais raivosa do seu cliente contra o Lula -, vai abocanhar do butim do Bolsonaro o percentual de votos necessários para ir ao segundo turno. Mas Ciro Gomes precisa cair fora do PDT por um tempo, sem precisar nem tirar as cuecas da gaveta. É só pra dar credibilidade ao discurso liberal, que não convence se estiver embrulhado numa bandeira vermelha. 

Que Luiz Inácio Lula da Silva está no segundo turno é fato. O que não se sabe, ainda, é contra quem. Eu me arrisco a dizer que Jair Bolsonaro já é carta fora do baralho. Foi para isso que João Santana foi contratado. 

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