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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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Jornalismo, ética e dignidade, uma luta centenária

Entrevista com Anthony Bellanger, Secretário General da Federação Internacional de Jornalistas

Anthony Bellanger (Foto: Fred Moreau de Bellaing)

Por Sergio Ferrari - Semanas antes do Congresso Mundial da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, IFJ em inglês), em Paris, entre 4 e 7 de maio, esta entrevista com Anthony Bellanger, seu secretário-geral, cobre a história da Federação, apresenta um raio-X da situação atual do jornalismo e avança hipóteses futuras para defender a profissão e sua contribuição para a democracia. Suas reflexões, na véspera da celebração do centenário da organização, também aparecem em "Uma voz para informar o Mundo - Um século de luta e solidariedade". Coordenada pelo próprio Bellanger e por Florence Le Cam, professora da Universidade Livre de Bruxelas (ULB), esta obra retrata um século de lutas pela liberdade de imprensa e pelos direitos dos jornalistas.

A Federação Internacional de Jornalistas já passou por uma história centenária...

Anthony Bellanger (AB): De fato. Em 13 de junho de 1926, quando sindicatos de jornalistas de todo o mundo se reuniram em Paris a convite do Sindicato dos Jornalistas Franceses para criar nossa Federação, a ideia pode ter parecido audaciosa: organizar em escala global uma profissão já definida por sua independência. Essa aposta rapidamente se impôs como uma necessidade. Diante dos poderes políticos, militares e econômicos, os jornalistas compreenderam que somente estando juntos podem defender sua profissão. Um século depois, essa visão ainda é válida. A história da FIJ é a de uma luta permanente em defesa de uma profissão essencial para a democracia, mas constantemente exposta a pressões, violências e tentativas de controle.Jornalismo em tempos de guerra

A FIJ nasceu no período entre guerras... Hoje estamos vivenciando outra explosão bélica em muitas regiões do mundo. Os desafios ainda são os mesmos para as/os profissionais da mídia?

AB: Sim. Na verdade, a FIJ nasceu numa época em que a Europa estava descobrindo tanto o poder da imprensa quanto a sua fragilidade. Os jornalistas queriam proteger sua autonomia profissional, mas também afirmar que a informação não é apenas uma mercadoria. Isso constitui um bem público. Desde seus primeiros anos, a Federação atuou em várias frentes, apoiando o reconhecimento do status profissional dos jornalistas, defendendo a ideia de uma Carta Internacional da Imprensa e lançando as bases para uma ética comum. O objetivo tem sido claro: distinguir informações profissionais da propaganda e das manipulações políticas. Quando regimes autoritários se estabeleceram na Europa na década de 1930, a FIJ enfrentou seus primeiros grandes testes. Por exemplo, excluiu a organização de imprensa alemã ao adotar regras antissemitas impostas pelo regime nazista. Esse gesto simbólico lembra uma frase que nunca mudará: um sindicato de jornalistas não pode aceitar a discriminação ou a censura como norma.

A guerra como um elemento que distorce a prática do jornalismo, como foi recentemente ilustrado, por exemplo, em Gaza e na Palestina. A guerra como o principal fator de "censura" no trabalho diário de uma imprensa equilibrada e objetiva. A guerra que, ao assassinar centenas de colegas, tenta silenciar a voz do jornalismo livre e independente...

AB: A situação na Palestina, e, particularmente em Gaza, desde outubro de 2023, tem sido um dos testes mais sérios/graves para a nossa organização. O número de jornalistas assassinados lá atingiu um nível sem precedentes e as condições de trabalho são extremas. Mas, infelizmente, essa não é a única frente. Jornalistas também são assassinados na Ucrânia, no México, no Sudão, no Iêmen, no Irã ou nas Filipinas. O que Gaza revela, de forma brutal, é uma tendência global: em conflitos modernos, controlar as informações torna-se um objetivo estratégico, e os jornalistas pagam o preço. Por isso, a FIJ defende uma Convenção Internacional vinculativa que garanta a proteção dos homens e mulheres da imprensa.

Vamos voltar à história da Federação, naquela época, entre as grandes guerras do século XX.

AB: Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento internacional de jornalistas se fragmentou como resultado da Guerra Fria. Duas organizações rivais disputavam a representação global da profissão. Apesar dessas divisões ideológicas, a FIJ continuou seu trabalho substantivo: defender a liberdade de imprensa, melhorar as condições de trabalho e fortalecer a solidariedade entre jornalistas. Com a onda da descolonização, ela se abriu progressivamente para a África, Ásia e América Latina.Esse movimento transformou profundamente a organização, que deixou de ser uma federação majoritariamente europeia para se tornar uma verdadeira rede mundial. Nessas regiões, frequentemente marcadas por ditaduras ou conflitos, a Federação desempenha um papel discreto, porém decisivo: apoia a criação de sindicatos de jornalistas, treina repórteres, defende jornalistas presos e documenta violações à liberdade de imprensa.

Organização verdadeiramente mundialEssa transformação da FIJ é uma mudança essencial em sua história institucional.

AB: É verdade que a Federação foi profundamente transformada. Originalmente muito europeia, hoje é uma organização verdadeiramente mundial, com uma presença particularmente forte na América Latina, na África e na Ásia, onde os sindicatos de jornalistas frequentemente desempenham um papel essencial na defesa da profissão e da liberdade de imprensa. E, portanto, da própria democracia.

A força da FIJ hoje vem de sua universalidade?

AB: De fato. E gostaria de ressaltar isso: o futuro da nossa Federação não admite tensões entre membros de uma região contra outra. Atualmente, os desafios enfrentados pelos jornalistas –precariedade, concentração de mídias, violência, pressões políticas ou até mesmo o impacto da inteligência artificial– são globais. Nossa força está justamente em conectar essas realidades, criar solidariedade entre os continentes e defender padrões comuns para a profissão.

Outro momento essencial na história da profissão ocorre no final do século passado...

AB: Sim. A partir dos anos 90, uma realidade brutal foi imposta: o jornalismo tornou-se uma das profissões mais perigosas do mundo. A FIJ, então, começou a coletar, sistematicamente, os nomes dos jornalistas assassinados no exercício de sua profissão em sua "Lista de Mortos". O número recopilado é vertiginoso: mais de três mil jornalistas e profissionais da mídia foram assassinados em trinta e cinco anos. Contrariando uma crença difundida, a maioria deles não morreu nos campos de batalha. Foram assassinados por investigarem a corrupção, o crime organizado ou abusos de poder. Diante dessa violência, a Federação desenvolve ferramentas concretas. Criou um Fundo Internacional de Segurança para apoiar jornalistas ameaçados e suas famílias. Organiza formações/treinamentos sobre segurança e proteção em zonas de conflito e, constantemente, faz lobby junto a instituições internacionais para acabar com a impunidade. Além disso, em 2006, e depois, em 2015, sua ação contribuiu para a adoção, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, de duas Resoluções (1738 e 2222). Ambas condenam os ataques contra jornalistas em conflitos armado.

Presente complexo, desafios futuros

Uma questão essencial para o jornalismo continua sendo a ética profissional. Como podemos exercer a profissão em circunstâncias difíceis, às vezes extremas, mantendo os princípios éticos do jornalismo?

AB: Nossa Federação não se limita a defender jornalistas, mas também defende o próprio jornalismo. Em 1954, adotou a Declaração de Bordeaux, o primeiro código internacional de ética para o jornalismo. Esse texto afirma princípios simples, porém essenciais: busca da verdade, respeito aos fatos, proteção das fontes, rejeição da manipulação. Esses princípios foram atualizados ao longo do tempo, até a adoção da Carta Mundial de Ética para Jornalistas, em Túnis, em 2019, que leva em conta os novos desafios do ambiente digital, das redes sociais e das pressões econômicas (https://www.ifj.org/es/quien/reglas-y-politica/carta-mundial-de-etica-para-periodistas). Em um mundo saturado de informações e desinformação, essa questão da ética tornou-se central. Sem credibilidade, o jornalismo perde sua função social.

Como você definiria a situação do jornalismo hoje?

AB: Atualmente, o jornalismo está passando por uma crise profunda. Os modelos econômicos da mídia estão desmoronando, as redações estão se tornando precárias e as grandes plataformas digitais, assim como os gigantes da tecnologia, capturam a maior parte da receita publicitária. Ao mesmo tempo, regimes autoritários não hesitam mais em atacar jornalistas abertamente. Processos abusivos, campanhas de assédio online e vigilância digital tornaram-se ferramentas comuns para intimidar jornalistas. Revelações sobre programas de espionagem utilizados contra jornalistas, ou processos contra os denunciantes, mostram que a batalha pela liberdade de imprensa não é mais travada apenas nas redações. Também acontece nos tribunais, nos parlamentos e no espaço digital.

Nos últimos meses, houve uma ruptura profunda na ordem mundial —baseada nas instituições da ONU— e no multilateralismo. Isso exige repensar o papel do jornalismo sob novas perspectivas?

AB: Sim, muito claramente. O questionamento do multilateralismo e o enfraquecimento das instituições internacionais mudam profundamente o ambiente em que os jornalistas atuam. Por várias décadas, houve pelo menos um quadro de referência –as Nações Unidas, o direito internacional, certas normas compartilhadas– que servia como um ponto de apoio para defender a liberdade de imprensa e a proteção dos jornalistas. Atualmente, esse arcabouço é cada vez mais questionado ou ignorado por alguns Estados. Nesse contexto, o papel do jornalismo torna-se ainda mais central: documentar os fatos, verificar os discursos de poder e recordar as normas internacionais que alguns buscam enfraquecer. Isso também força a profissão a repensar certas práticas: fortalecer as colaborações transnacionais, proteger melhor os jornalistas contra ameaças digitais e físicas, e defender de forma mais ativa a independência econômica e editorial da mídia. Em um mundo onde as relações de poder voltam a estar em primeiro plano, o jornalismo continua sendo um dos poucos contrapesos capazes de tornar as ações dos Estados visíveis e, portanto, questionáveis.

A solidariedade internacional sempre foi uma das principais preocupações e atividades da FIJ. Atualmente, ainda é assim?

AB: Nossa missão é mais relevante do que nunca. Não apenas para defender uma profissão, mas para lembrar a todos que a liberdade de imprensa é inseparável das condições de trabalho dos jornalistas.Um jornalista precário, ameaçado ou isolado não pode cumprir adequadamente sua tarefa. Portanto, a qualidade da informação também depende da proteção social, da independência profissional e da solidariedade entre jornalistas. É, sem dúvida, a principal lição deste século de história: a prática do jornalismo nunca está totalmente garantida. Deve ser defendida, organizada e protegida. Em um momento em que a desinformação está se espalhando e jornalistas estão sendo alvo de ataques em muitos países, essa luta continua sendo mais necessária do que nunca. Porque reportar não é apenas um trabalho; é, também, uma condição da democracia.

Na complexa situação mundial de hoje, qual é a importância do evento da FIJ em Paris, em maio? Existem decisões estratégicas a serem tomadas?

AB: O congresso será realizado em um momento particularmente crítico para a profissão. Os jornalistas enfrentam uma acumulação de crises: guerras, desvios autoritários, pressões econômicas sobre a mídia e rápidas transformações tecnológicas. Nesse contexto, o congresso será, antes de tudo, um momento essencial para reunir sindicatos de jornalistas de todo o mundo e reafirmar uma visão comum sobre o papel da nossa profissão. Também terá uma dimensão estratégica. As/os delegadas/os terão que definir as prioridades da Federação para os próximos anos: fortalecer a proteção dos jornalistas em zonas de conflito, continuar a fazer lobby por uma convenção internacional vinculativa nas Nações Unidas, defender os direitos sociais diante da precariedade da profissão e responder aos desafios impostos pela inteligência artificial. No seu cerne, o desafio do congresso é simples: adaptar a ação coletiva dos jornalistas a um mundo que se torna mais instável, mantendo os princípios fundamentais da profissão, quais sejam, independência, solidariedade internacional e o direito do público à informação confiável.

Tradução: Rose Lima

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.