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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Jornalista americano explica a crueldade trumpista

Análise mostra como o sofrimento imposto a minorias deixa de ser efeito colateral e passa a funcionar como estratégia central de poder e mobilização política

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante Fórum Econômico Mundial em Davos 21/01/2026 REUTERS/Denis Balibouse

Sempre brilhante, Dorrit Harazim lembrou no domingo (25) o livro The Cruelty Is the Point (2018), do jornalista americano Adam Serwer. A craque de O Globo deixou uma boa dica para quem quiser aprofundar-se na análise do mal absoluto - cujas referências históricas são Adolf Hitler e o nazismo -, hoje personificado em Donald Trump. 

Serwer escreveu que a crueldade não é um efeito colateral do trumpismo, mas seu objetivo político. O sofrimento imposto a grupos determinados constitui prova de poder. O autor mostra que separação de famílias migrantes, ataques a minorias raciais e o desprezo por vítimas de violência policial não são erros de cálculo, mas mensagens do tipo “quem manda não se importa com o seu sofrimento”.

O autor, lúcido, observa que o trumpismo porta o condão de mobilizar todo o ressentimento racial e cultural herdado da era dos direitos civis, em parte recuperados durante o governo de Barack Obama. A crueldade de Donald Trump justifica-se, para o líder e seus seguidores, quando o alvo são seres humanos indesejados: imigrantes tornam-se “invasores”, negros viram “ameaça”, pobres transformam-se em “fraudadores”.

“A empatia é distribuída de forma desigual”, sentencia Serwer. Nesse moedor de identidades, a mentira é a arma fundamental que visa a cansar, humilhar, dominar. O cinismo torna-se instrumento de poder. 

Para o autor de The Cruelty Is the Point, quando o sofrimento alheio vira entretenimento, o autoritarismo já está francamente dando as cartas. Nesse contexto encaixa-se à perfeição o assassinato do enfermeiro Alex Jeffrey Pretti por agentes federais em Minneapolis, Minnesota, no sábado (24), durante protesto contra o ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas). 

Adam Serwer argumenta que as políticas associadas ao trumpismo estão longe de ser improviso ou mera retórica – acreditar nisso é num erro crucial. Sim, pois o sofrimento imposto a grupos específicos não é um erro de percurso, mas o próprio mecanismo de funcionamento da política trumpista. A separação de famílias migrantes, o desprezo público por vítimas de violência racial e a ridicularização de minorias cumprem a função de consolidar poder e hierarquia: há vidas que importam menos, e isso é motivo de celebração política para uma parcela do eleitorado.

O alerta máximo da obra de Adam Serwer é que democracias não se deterioram apenas por rupturas institucionais explícitas, mas quando a empatia é substituída pela crueldade, quando abusos se tornam aceitáveis e a verdade perde sua capacidade de impor limites morais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.