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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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José Celso Martinez e o enterro da história

Se a gente viu a história do artista, não existe por que silenciar neste momento, que se estende da morte de José Celso Martinez ao enterro do seu passado

Zé Celso Martinez (Foto: Reprodução/Instagram)
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O artista José Celso Martinez mal terminara de morrer, e a televisão já começou a enterrar o seu passado. Na GloboNews, em especial, os comentaristas, repórteres, coitados, tão carentes de informações culturais, deslocavam o artista somente para a encenação de O Rei da Vela, peça, aliás, que jamais viram tão gorda. Uma das apresentadoras, moça até simpática, bem-intencionada, gaguejava e punha o escritor Oswald de Andrade como tropicalista nos anos 30. Uma antecipação profética de Oswald de Andrade, poderia parecer. Mas na verdade, mistura incrível de documentos entre o passado mais longe, o passado mais próximo e O Rei da Vela.   

Essas coisas vistas, esse mau espetáculo que vemos, a gente não fala disso com agrado, mas por dever. É o jeito. Se a gente viu a história do artista, não existe por que silenciar neste momento de pesar, que se estende da morte de José Celso Martinez ao enterro do seu passado. Apresentam Zé Celso como um artista alucinado, gay desbundado, ator delirante, louco, engraçado, cômico à sua revelia. É o velho costume, aplicado a seu caso, de retirarem do artista a sua melhor arte, a saber, a sua revolta e crítica ao mundo social. Assim como fizeram com Mark Twain, transformado em escritor para a infância, com Hans Christian Andersen, mudado em autor de A Pequena Sereia de Walt Disney, com Castro Alves, mero poeta dos escravos, com Machado de Assis, escritor de frases cheias de estilo. Como um alienado sem O Alienista, o mesmo fazem agora com Zé Celso. Olhem e acompanhem, por favor:  

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https://g1.globo.com/pop-arte/playlist/videos-morre-ze-celso.ghtml  

“Quem era Zé Celso

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O dramaturgo, que nasceu em Araraquara, interior paulista, em 1937, é conhecido pela maneira excêntrica e ousada de montar suas peças de teatro e provocar e interagir com a plateia...

Em junho de 2023, Zé Celso se casou com o ator Marcelo Drummond após quase 40 anos de relação. A festa aconteceu no Teatro Oficina em uma cerimônia que trouxe muita música, encenações e rituais artísticos...”

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De fato, os amontoados de imagens causam em si mesmas um apagamento do seu teatro. A seleção de vídeos, o olhar que dirige a seleção, gera o paradoxo de ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Quero dizer, qualquer pessoa pode mentir sobre um homem exibindo imagens reais que mentem no seu conjunto. Isso quer dizer, por exemplo: falar sobre Marx, mas falando DE Marx, da sua relação de amante da sua empregada. Fala mentirosa, portanto, ainda que traga à lembrança um fato verdadeiro. Ressaltar o secundário, elevá-lo à essência, para o que se quer destacar, é esconder o fundamental.  

No caso de Zé Celso, a intenção na aparência foi boa. Afinal, aparecem vídeos e depoimentos elogiosos! O que querem de mais engrandecedor? “Revolucionário, sensível”, etc. etc. Mas isso não é o essencial.  

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José Celso Martinez foi um artista, um diretor de teatro que levou ao Brasil o melhor do teatro engajado. O teatro de esquerda, de um homem socialista, que falava bem como poucos sobre o que representava a eleição de Lula para o Brasil. Ah, esse não é o Zé Celso que se deve mostrar.  

Então devemos ir a quem viu o que ele realizou. Foi inesquecível, no Recife, a representação de Galileu, Galilei, de Brecht. No Santa Isabel, assistíamos á resistência do seu Teatro Oficina com a respiração suspensa. Marcante, essencial, fundamental. Inesquecível ainda a representação de Pequenos burgueses, de Górki, em São Paulo. Era ver, refletir e voltar com mais forças para o cotidiano sob a ditadura.  

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Percebem? Esse é o passado inapagável do homem que se casou com o companheiro, que também fez O Rei da Vela, e que se mostrava tão livre, tão liberado para as câmeras que buscavam o excêntrico, mas não de esquerda. A direção de jornalismo vê o que quer. Mas não podem vendar os olhos de quem possui a memória de José Celso Martinez. Ele era um artista que nos reconciliava com o conforto da alma  

https://www.youtube.com/watch?v=nk-6Z6dAORA  

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