Judeus, árabes, asiáticos, bolivianos, europeus do Leste, corintianos: o mundo mora no Bom Retiro
"Ninguém fica perdido no Bom Retiro. Sempre o forasteiro encontra alguém que fala a sua língua, e lojas e estacionamentos ostentam placas escritas em várias idiomas", escreve o jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, sobre o bairro central da capital paulista; "É possível dar uma volta ao mundo na gastronomia e ainda comprar roupas por preços módicos em comércios e shoppings populares, hoje dominados por coreanos"
Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia
Tomando uma cervejinha no sábado, do lado de fora do modesto restaurante, fico reparando nas pessoas que passam conversando na calçada.
Você pode pensar que está num boteco ao lado da sede da ONU, em Nova York, tal é a misturança de nacionalidades, raças, cores, credos, roupas e línguas.
Estamos no Bom Retiro, na região central de São Paulo, um tradicional bairro multicultural de imigrantes e migrantes, que vai mudando de caras e origens, mas mantém seu caráter de aldeia do mundo.
O cardápio do "Delishop", aberto quase 40 anos atrás, é o mais completo resumo desta diversidade, que não se vê em nenhum outro lugar do país por onde já passei.
Tem de tudo ali: das comidas do leste europeu que minha mãe fazia em casa, aos seculares pratos da cozinha libanesa e judaica, passando por ceviche peruano, arroz marroquino e um legítimo schnietzel alemão, língua no molho de tomate, vareniques poloneses e uma infinidade de outros pratos, que vão variando conforme a estação e as ofertas do mercado.
(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)
Também não faltam fartos pratos de massas das cantinas italianas, bifes com batatas fritas e o trivial da cozinha brasileira. Ninguém sai dali com fome.
A história de São Paulo desfila pelo bairro, onde foi fundado o glorioso Sport Club Corinthians Paulista e que até hoje abriga a sede da torcida Gaviões da Fiel e da escola de samba do mesmo nome.
No Bom Retiro, foi instalada pela Ford do Brasil a primeira linha de montagem de automóveis, na rua Solon, em 1921.
Hoje nome de rua, ali morou o marquês de Três Rios, Joaquim Egídio de Sousa Aranha, fazendeiro campineiro que foi por três vezes presidente da Província de São Paulo.
O Solar do Marques já hospedou a família imperial e depois foi a primeira sede da Escola Politécnica da USP.
Quem anda pela calçada, nos passos lentos de um sábado à tarde, vindo de algum outro lugar do Brasil ou do mundo, pode não saber de nada disso, mas logo se sente em casa.
(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)
Foi o quer aconteceu com o casal Adi e Shoshana Baruch, que chegou ao Brasil depois da guerra pensando em vender roupas "e outras coisas", mas resolveu abrir uma rotisserie perto da casa onde moravam.
O sucesso foi tão grande, lembra o filho Nir, hoje chefe da cozinha, com pessoas comendo em guardanapos na calçada, que tiveram de trazer mesas, cadeiras, talheres e pratos da própria casa para atender a freguesia.
Shoshana foi para a cozinha e Adi cuidava do salão, a casa vivia cheia, e a fama logo se espalhou pela cidade, atraindo famílias de imigrantes que queriam lembrar da comida dos seus países de origem.
Simples, mas muito bem cuidado e servido, o Delishop de vez em quando também pode colocar no cardápio nos dias mais frios pratos de pimentão ou repolho recheado com carne moída, salpicado com creme de leite, uma especialidade de Nir.
Antes de Nir assumir a cozinha, Shoshana, que conhecia os segredos da culinária sefaradi (do norte da África e do Mediterrâneo), dividia os trabalhos com dona Mania, especialista em comida ashkenasi (do leste europeu e Ásia).
Quando Mania deixou o restaurante, Nir assumiu o comando das panelas e se apaixonou: "Essa profissão é amor acima de tudo, acima de si mesmo. Você ama a cozinha mais do que você mesmo", diz ele, sempre disposto a contar aos fregueses como os pratos são preparados.
Ninguém fica perdido no Bom Retiro. Sempre o forasteiro encontra alguém que fala a sua língua, e lojas e estacionamentos ostentam placas escritas em várias idiomas.
É possível dar uma volta ao mundo na gastronomia e ainda comprar roupas por preços módicos em comércios e shoppings populares, hoje dominados por coreanos.
Vale a viagem. Bom domingo pra todos.
Vida que segue.
(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

